Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 9 de 262

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Rio de Janeiro, 1957.

Quando se pode ler a tradução, por melhor que seja o tradutor — tenho tido excelentes, capazes, devotados —, existe sempre o detalhe, por vezes mínimo, que choca, agride, dói: onde foi parar a marca sutil do personagem, o ângulo de visão do acontecido, as nuances da emoção, o peso exato de uma palavra? Imagine-se a dor no coração ao ver xoxota ou xibiu, doces designações da boca do mundo, traduzidas por sexo de m ulher ou vulva, bunda virando nalgas. Nalgas, uma bunda de mulata que se preza? Jamais!

As traduções em chinês que beleza! Não por acaso a arte maior da China é a escrita dos ideogramas. Em árabe, tirante o fato de jamais ter recebido um dracma, um dinar de direitos autorais — ainda há dois meses comprei nas livrarias de Tânger cinco livros meus vertidos para o árabe, edições libanesas e piratas, as cinco — também me enchem as medidas. O mesmo digo daquelas impressas em caracteres hebreus, em letras georgianas, gregas ou armênias, signos japoneses, o alfabeto cirílico também serve. Mesmo compostas em alfabeto latino, as traduções são ótimas, nada a criticar, quando em vietnamita, em norueguês, em turco, em islandês, só me dão alegria, mesmo quando não me dão direitos autorais. Tenho livros em línguas estranhas, do coreano ao turcomênio, do tailandês ao macedônio, do albanês ao persa e ao mongol. Outro dia recebi do Paraguai exemplar da tradução em guarani da história do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá, o título me encanta: Karai Mbarakaja, que quererá dizer? Rio sozinho, ufano, mas as plumas da vaidade não tardam em cair ao dar-me conta de que com certeza sou melhor escritor em guarani do que em português.

Rio de Janeiro, 1957.

Le connaisseur

Em vias de separar-se, o casal reconcilia-se para, a m eu pedido, hospedar Pablo Neruda, honra insigne. Desej o proporcionar ao poeta tudo a que tem direito nessa visita ao Rio, acom panhado de Matilde, sua nova esposa. Mobilizo am igos e adm iradores: adm iradores num erosos, fanáticos, acorrem à redação do Paratodos. Puxando a fila Neném Lam preia* que ali e então conheceu Moacy r Werneck de Castro*: m útua paixão devoradora, im perativa.

*Moacyr Werneck de Castro, jornalista e escritor; Neném Lampreia, sua mulher.

O apartam ento, m istura de conforto e de bom gosto, em Ipanem a, Matilde deslum brou-se com a praia, o casal, um a sim patia. A esposa loira e lânguida, m alfalada, em geral em estado de sem i-em briaguez quando não total, ardente devoradora de hom ens: foi rica herdeira de nobres latifundiários, cafezais sem fim , está pobre de m arré m arré. O m arido, bom m oço, corno m anso e prazenteiro, ao casar-se dera o golpe do baú, esvaziou o baú com com petência e chifres. Pablo, hóspede habitual — viaj ante sem pouso, bardo sem verba de hotel — encontrou na extensa rom aria pelo m undo acolhim ento e m im o em castelos e m ansões de estadistas e de m ilionários, m ordom ias principescas, nenhum a m ais calorosa e cordial do que a do j ovem casal do Rio de Janeiro.

Andavam a doidivanas e o m arido em m aré baixa, dinheiro escasso, gastaram o que tinham e o que não tinham , pediram em prestado para abastecer a adega com os vinhos chilenos da predileção de Pablo, para fornir a dispensa com acepipes refinados, caviar, patês, trufas, salm ão defum ado, carestias para o paladar fino do poeta. Pablo encantadíssim o com os hospedeiros e a hospedagem : preciosos, compadre!

Conversa vai, conversa vem , Pablo ficou sabendo que a dona da casa possuía em com um com os irm ãos o que sobrara do latifúndio herdado com a m orte dos pais: resto de terra im produtiva, capoeira brava, perm anecia de pé a casa-grande de arquitetura colonial, m erecedora de tom bam ento pelo Patrim ônio Histórico e Artístico, coisa de verse e de gozar-se, Neruda m ostrou-se interessado em ver e em gozar, o casal decidiu prom over um fim de sem ana nas ruínas da fazenda. Em nosso autom óvel não cabíam os todos, convocou-se m atrim ônio am igo, dono de um Mercedes. Lá fom os nós, Zélia e eu, na com itiva, éram os oito contando com os donos da casa: o dinheiro parco não lhes perm itira núm ero m aior de convidados, Pablo sugerira Vinícius de Moraes, não deu. A loira e o m arido reuniram o que restava de vinho chileno, de patê, de salm ão defum ado — o caviar e as trufas j á tinham se acabado —, j untaram as sobras, rum am os para a serra, a propriedade situava-se a alguns quilôm etros de Miguel Pereira.