Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 210 de 262

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Bahia, 1956.

Term inado o j ulgam ento, abertos os envelopes, proclam ados os prêm ios na A.B.I., durante uns quantos dias Guim arães Rosa, ao sair pela m anhã para o Itam araty — era diretor da Divisão de Fronteiras, das fronteiras do romance no dizer de Miécio Tati —, detinha-se em nosso apartam ento da Rodolfo Dantas. Entrava, tirava o paletó, sentava-se no sofá, ao ver Zélia de câm era em punho baixava os suspensórios, posava para a foto, ordenava-m e: o caderninho, vamos comparar. Rosa tivera, ao iniciar a leitura dos originais, a m esm a ideia que eu, anotara suas observações sobre cada livro num caderno de estudante pela ordem de inscrição. Arm ados com nossos cadernos, face a face, com eçávam os:

— Vam os ver o que te pareceu o 38...

— Quero saber do 173, que com entário fizeste...

Incrível a coincidência de opiniões, raríssim as as discordâncias. Era um a diversão, a m anhã dos caderninhos. Bebericando o Cafezinho, Rosa com entou: descobri que sou mau-caráter, original com sacanagem, por pior que fosse, eu o li até o fim, tenho o espírito vicioso. Tam bém no vicioso concordávam os, havia um m anuscrito em dois volum es, som ava setecentas páginas recheadas de Putaria, não tinha a qualidade de Henry Miller, ainda assim tracei K setecentas laudas, um a a um a, até o últim o orgasm o.

Bahia, 1956.

O magnífico

Os m eninos da revista Mapa — Glauber Rocha, Fernando da Rocha Perez*, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Paulo Gil Soares* — decretam e prom ovem guerra sem quartel a Edgard Santos, reitor da Universidade Federal, a quem a cultura da Bahia tanto deve.

*Fernando da Rocha Perez, escritor.

**Paulo Gil Soares, cineasta.

Mapa expressa em suas páginas as m odernas tendências da arte e da literatura, a poesia, a pintura, o cinem a, a gravura, o teatro, destrói e propõe, influi m as, ah!, corre perigo, vai deixar de aparecer, não tem anunciantes, não há dinheiro para pagar papel e oficina, problem as que afligem e derrotam as publicações de vanguarda.

Um lam be-botas qualquer, é o que m ais existe, vai correndo levar a Edgard Santos o que lhe parece ser a boa, a grata notícia: a revista da subversão não mais circulará, a gráfica já não lhe faz crédito, menos ainda o fornecedor de papel, os ataques à administração do Reitor estarão silenciados para sempre, viva, viva! Edgard Santos escuta, agradece a inform ação, m anda pagar im ediatam ente o papel e a oficina, exige apenas dos credores sigilo sobre quem está assum indo as despesas, os m eninos não devem saber: poderiam recusar, pior ainda poderiam entrar em crise de consciência devido aos ataques ao Reitor.