Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 231 de 262

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Lisboa, 1967.

 

Fado moderno

Ferreira de Castro leva-nos a j antar num a casa de fados na Mouraria. Norm a Sam paio, nossa com panheira de viagem , e Assis Esperança* com pletam a m esa ao fundo da sala, escolhida a dedo pelo m estre de Terra Fria para fugir às correntes de ar: tem ia as correntes de ar com o o diabo tem e a cruz, tinha pavor aos resfriados.

*Assis Esperança (1892/1975), escritor português.

No restaurante exibe-se cantor de fam a recente, escapa-m e o nom e, m as guardei o do pai, fadista extraordinário, Alfredo Marcineiro, dias antes tínham os ido ouvi-lo cantar, levados por Beatriz Costa; creio que era Alfredo Júnior, especialista no fado moderno: que diabo seria o fado m oderno, pergunto-m e curioso.

A dona da casa de pasto recebe-nos com fidalguia lusa, reverências para Ferreira e Assis, conhecia-os de renom e, palavras gentis para o conviva brasileiro. Na m esa Assis Esperança conta histórias de sua j uventude de anarquista: pour épater les bourgeois fum ava cinco cigarros ao m esm o tem po, puxava a fum aça dos cinco encarreirados na boca e a tragava, soltava-a de volta pelo nariz, cham iné de fábrica. Ferreira pede a Zélia e a Norm a que cantem sua cantiga preferida, Luar do Sertão, m oda sertanej a de Catulo da Paixão Cearense, não deu tem po, as guitarras atacaram antes. Com em os o bacalhau, para casa de fados não estava de todo ruim , saudam os com palm as a entrada do fadista.

De certo instruído pela proprietária o artista saudou a com panhia ilustre, acrescentou aos nom es de Ferreira e Assis, que lhe soavam às ouças, um terceiro que lhe era de todo desconhecido: o do poeta português Jorge Am ado, subi às nuvens, nada desej ei tanto na vida com o ser poeta, quanto a ser português o sou pela m etade, a outra m etade é angolana.

Marcineiro Júnior dedica-m e o prim eiro fado: ao grande poeta português, reafirm a m inha dupla condição de poeta e português e faz-m e grande, ganha de im ediato m inha sim patia: o fado moderno caracteriza-se pelo ritm o rápido, "corridinho" para usar expressão de Norm a, autoridade em m úsica popular. Term inada a cantoria, o fadista vem à m esa nos cum prim entar, Ferreira de Castro lhe pergunta: em que língua o amigo cantou? Em português, ora pois.