Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 140 de 262

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Bahia, 1958.

Tam pouco eu lhe disse que tom ei de um exem plar de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, nele coloquei dedicatória afetuosa com o se j am ais houvesse acontecido desavença, m andei-o para Carlos. Soube que, por acaso, chegou em dia de seu aniversário e ele o exibiu à fam ília e aos am igos; o m elhor presente, dissera.

Na m anhã de São Luís, após o silêncio, o choque da notícia, Zélia fala:

— Você respondeu a ele, eu sei.

Balanço a cabeça em assentim ento, sem pre pensei que ela adivinhara, nunca havíam os tocado no assunto.

— Ainda bem .

O choro irrom pe incontrolável, podem os então recordar os dias de am izade.

Bahia, 1958.

O blefe

De passeio na Bahia, hóspede de Odorico, seu parente afim , Carlos Pena Filho incorpora-se à roda de pôquer: em Pernam buco é presença certa nos torneios em casa de Ruy Antunes ou de Paulo Loureiro, ao lado de Marcos e de Benaia. Ri com as histórias de Mirabeau, ele as escuta pela prim eira vez, nós as sabem os de cor e salteado, na opinião de Yves Palerm o, confirm ada por Odorico, além de falastrão Mirabeau é tram polineiro, narra os casos para desviar a atenção dos parceiros na hora do blefe.

Tam bém Carlinhos, sem intenção m alévola, conta anedota acontecida no Recife: literatos dados à boêm ia, Mauro Mota, Ariano Suassuna, Otávio Freitas Júnior, Marcos Vinícius Vilaça, Edilberto Coutinho, Marcos Accioly, outros que tais, bebem e discutem no Bar Savoy, celebrizado por Carlinhos num poem a: nas mesas do Bar Savoy / o refrão tem sido assim: / são trinta copos de chope, / são trinta homens sentados, / trezentos desejos presos, / trinta mil sonhos frustrados.

Entre os assíduos um am igo de Mauro, boêm io de m uita classe e poucas letras, passa horas a beber uísque e a ouvir as discussões sobre poesia, estética, m arxism o, o soneto e o concretism o, de Sartre a Ferreira Gullar, de Ascenço Ferreira a João Cabral, o neo-realism o, o form alism o, o realism o-socialista e outras baboseiras. Um dia, nos vapores do uísque, se enche, perde o respeito, abre o coração:

— Nunca vi se gastar tanto tem po discutindo assuntos tão sem propósito, tão áridos, tão chatos quando se poderia estar ralando de boceta, assunto lindo, conheço onze variedades...

Rim os, Mirabeau não ri, especialista, pesquisador, sábio buceteiro:

— Onze variedades, santa ignorância! Só de chupeta j á selecionei cinco categorias, na contagem geral cheguei a vinte e sete espécies de xoxotas.

Parado a ouvir, Odorico não replica a aposta, rápido Mirabeau recolhe a m esa, sem suspender o discurso, detalha a diversificação dos grelos, entre grandes (de m achonas), m édios e pequenos, roxos e róseos, pode citar para m ais de vinte tipos — não resiste, abate o j ogo sobre as fichas: dois pares brancos.

— Ladrão! Cínico! Vigarista! — brada Odorico fora de si.

Na m ão de Odorico, inútil, a sequência m áxim a, com seus dois pares de nove Mirabeau arrastou a m esa no blefe das bocetas.