Navegação de Cabotagem
São Paulo, 1945
Rio de Janeiro, 1977.
Amor
O enferm eiro em purra o veículo (com o se cham a? não sei) que transporta Glória Machado do quarto da Casa de Saúde Doutor Eiras para a sala de cirurgia onde Paulo Niem ey er vai operá-la do cérebro. Glória se despede do m arido Alfredo, dos filhos, de Zélia e de m im que viem os visitá-la, sendo cardíaca tem e não voltar.
Tam anho hom em , tão seguro de si, inabalável, inflexível, em pedernido, Alfredo Machado* se entrega, chora que nem um a criança.
*Alfredo da Cruz Machado (1922/ 1991), editor.
São Paulo, 1945
O desafio
Quando, durante o Prim eiro Congresso de Escritores Brasileiros, reunido em São Paulo nos inícios de 1945, m e apaixonei por Zélia, com uniquei ao poeta Paulo Mendes de Alm eida, m eu am igo e am igo dela, apontando-a entre as m uitas senhoras e m oças que acorriam às sessões, um as poucas para acom panhar os debates, a m aioria para nam orar.
— Aquela ali vai ser m inha m ulher.
Paulo riu na m inha cara:
— Aquela qual? Zélia? Jam ais, não é m ulher para teu bico. Mulher honesta, m eu velho, não é dessas que andam por aí dando a uns e a outros, essas que você...
Naquele tem po, solteiro após ter-m e separado de Matilde*, eu rosetava de leito em leito: m ulheres em abundância, tantas, eu quase não dava abasto, sobravam da agenda em grande parte ocupada pela atividade política. Tendo brigado com igo, Oswald de Andrade, de súbito pudico, m e intitulou de Rasputin da Linha Justa na prim eira página de um quotidiano paulista. Linha Justa, referência ao discutido proj eto de restauração dem ocrática do Partido Com unista que passava pelo apoio a Getúlio Vargas, Rasputin nem tanto, exagero de Oswald: eu apenas descansava das lides políticas no regaço de casadas e solteiras (Maria Quatrocentona chegou donzela) m as, ao conhecer Zélia, arriei bandeira e pedi paz.
*Matilde Garcia Rosa (1916/1986), primeira mulher de J. A.
— Não é o que você está pensando, Paulo. Falo de viverm os j untos, dela ser m inha com panheira, esposa, se você faz questão da palavra.
— Zélia? Você está m aluco? Conheço Zélia, você não a conhece. Mulher direita está ali, não há duas. Não perca seu tem po, desista.
Coisa parecida m e disse o pintor Clóvis Graciano, tam bém am igo m eu e dela:
— Zélia? Ela é casada e séria, você não sabe? Nem pense, tire da cabeça.
Não desisti, não tirei da cabeça, estava m e roendo de paixão, fiz o que o diabo duvida, não deu outra, em j ulho Zélia veio m orar com igo. Não vai durar seis m eses, agouraram , dura até hoj e.
São Paulo, 1945.
Fofoca
Foram dizer a dona Angelina, m ãe de Zélia, que a filha dela tinha largado o m arido para ir viver com o escritor Monteiro Lobato. Dona Angelina, coitada, endoidou.
Bahia, outubro de 1989.
Campanha eleitoral
Sentado na velhíssim a (e arruinada) cadeira-do-papai, tão feia quanto côm oda, acom panho na televisão o desenrolar da cam panha eleitoral, ouço os diversos candidatos à Presidência da República e seus sequazes. Espio com um olho só, o direito, estou caolho: a pálpebra esquerda tom bou há duas sem anas em Moscou, tanto o m eu coração se confrangeu com a situação do Im pério e dos povos soviéticos — não havia pão nas padarias e m eus am igos, im portantes dignitários ou gente sim ples, previam hipóteses sinistras, guerra civil ou golpe de estado com a volta da repressão — sucedera na China —, o retorno ao obscurantism o. Conversas inim agináveis ainda há um ano, quando eu ali estivera na com itiva de Sarney e encontrara ainda uns restos de esperança e de entusiasm o, apesar das dificuldades econôm icas.
Vej o com um olho só, m as escuto com os dois ouvidos e não quero acreditar no que ouço, tão asquerosa e virulenta é a baixaria na disputa dos votos, tão pobres, indigentes, os discursos dos candidatos, todos eles. O m elhorzinho, por evitar a dem agogia e os insultos, ainda é — quem o diria! — o do candidato do Partido Com unista Brasileiro, o j ovem deputado Roberto Freire, ao m enos propõe um a reflexão sobre o Brasil. Não chegará a lugar nenhum , se bem obtenha certo sucesso de estim a — terá votação pequena, não tanto por ser com unista, sobretudo por ter se declarado ateu.
Atento, acom panho nos vídeos a traj etória de Lula, candidato do poderoso Partido dos Trabalhadores, cuj a fundação durante o regim e m ilitar tanto m e alvoroçou. Não conheço Lula pessoalm ente, dele falam -m e bem e acredito. Parece-m e hom em direito, hoj e coisa rara, sua atuação de dirigente sindical nas greves dos m etalúrgicos, durante a ditadura, foi exem plar. O alarm ante sectarism o de seu discurso eleitoral, ao que tudo indica, não é inerente à sua personalidade, decorre da própria cam panha, influência talvez dos ideólogos do PCdoB que a dirigem e orientam . Discurso de um atraso pasm oso, com o é possível im aginá-lo diante dos acontecim entos do leste europeu, ao fim de um a época, quando ruem teorias e estados, desm orona o socialism o real, se assiste ao funeral da ditadura do proletariado? Discurso classista, aponta exatam ente para a ditadura do proletariado: tão antigo e superado, dá pena.
Cham o a atenção de Zélia para o fato de que j am ais, no decorrer dos dois program as diários de propaganda eleitoral, em nenhum m om ento o candidato do PT pronunciou a palavra povo, nem ao povo se dirigiu. Fala em nom e da classe operária e a ela se dirige, am anhã no poder será a ditadura em nom e dos trabalhadores, em nom e do socialism o. Zélia não se altera, m antém íntegro seu entusiasm o cívico, trauteia, em resposta, o belo j ingle de Chico Buarque: Lula-lá. Eu lhe digo, para atazaná-la:
— O discurso de Lula parece escrito em Tirana pela viúva de Enver Hodj a*.
Dou-m e conta de que estou dizendo a pura verdade.
*Enver Hodja (1898/1985), ditador albanês de 1945 a 1985.
Do ponto de vista do autor, as boas traduções de seus livros são aquelas que ele não pode ler, em meu caso a imensa maioria. Negação que sou para línguas, a começar pelo português — escrevo em baianês, língua decente, afro-latina — só posso ler em francês e em espanhol, em italiano com dificuldade, dicionário à mão, e acabou-se o que era doce.