Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 19 de 262

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São Paulo, 1981.

Arrasado escuto da boca dos presentes no atropelo da língua húngara, na tradução im placável, histórias de arrepiar, detalhes que m e atingem no coração, m e destroçam , sinto-m e desonrado, conspurcado m eu orgulho com unista: torturam, sim, e como! Os policiais que servem e defendem o regim e são os m esm os do tem po da ocupação nazista, a profissão de guardião da ordem está acim a e além das ideologias.

Com febre e frio atravesso a prim eira noite de dúvida, o coração traspassado, o estôm ago em brulhado, ânsia de vôm ito: a polícia com unista m e espanca e pisoteia, obriga-m e a confessar o que não fiz. Assim com eçou m inha travessia do deserto.

São Paulo, 1981.

Esperança vã.

A fundação do Partido dos Trabalhadores, em pleno regim e m ilitar, m e entusiasm a, o PT nasce nos sindicatos, parido pelas greves dos m etalúrgicos, auspiciosa notícia. Vam os ter, por fim , pensei, um verdadeiro partido operário, integrado, orientado, dirigido por trabalhadores. Acaba-se o tem po dos falsos partidos operários — os partidos com unistas e trotskistas, os trabalhistas — nos quais intelectuais, em sua m aioria m edíocres e presunçosos, pequeno-burgueses arrogantes e vazios, ditam ordens com acento portunhol, arrogam -se representantes do proletariado, em seu nom e sonham assum ir o poder e m andar brasa. Fardam -se com uniform e de dirigentes revolucionários, lêem , sem m uito entender, brochuras traduzidas do russo ou do chinês para o espanhol, consideram -se sábios, arrotam teorias, j uram por Marx e Lenine, por Stalin (ou Trotsky ) e Mao, seriam grotescos se não fossem perigosos: no poder não há quem os segure, serão capazes de qualquer estupidez, de qualquer m onstruosidade, com o está sobej am ente provado — Stalin continua a ser o ídolo a im itar.

Conheci e tratei com m uitos desses indivíduos, em escalões diversos do poder — por vezes o pequeno poder de um a célula do Partido —, alguns não eram m ás pessoas, m as estavam todos deform ados. De repente perdiam a fisionom ia hum ana, bonecos repletos de ideologia de segunda m ão, de m arxism o, de leninism o, de m aoísm o, aprendida de oitiva, pois não são de m uito ler — no particular não lhes nego certa razão, pois Marx reinventado em soviético é dose para elefante, fica tão estulto quanto chato.

Ah! o bode perde o pêlo m as não perde o ranço, ao saber da fundação do PT bati palm as, veem ente, tom ado de entusiasm o, rasguei elogios nas colunas dos j ornais, congratulei-m e com Eduardo Suplicy. A ilusão durou pouco, logo o PT virou frente de grupelhos e de siglas radicais, os m esm os subintelectuais dos Pecês (acrescidos dos padres coraj osos e sectários da teologia da libertação), sob o com ando de ex-dirigentes stalinistas e m aoístas que perderam toda e qualquer perspectiva política, j á não acreditam em nada: são apenas aproveitadores. O PT ficou igual a qualquer dos antigos partidos operários, a qualquer dos partidos brasileiros, um saco de gatos.

Em verdade não existem partidos políticos no Brasil com princípios e com prom issos, existem frentes onde cabem todos os segm entos ideológicos, onde convivem direita e esquerda no vaivém dos interesses pessoais. Não são partidos, são siglas que se intitulam dem ocráticas, trabalhistas, social-dem ocráticas, liberais, socialistas, sem que tais denom inações tenham a ver com tom ada de posição, razão de luta ou de governo, um a desfaçatez. E ainda por cim a pretendem estabelecer o parlam entarism o. Parlam entarista que sou, trem o de m edo. Parlam entarism o sem partidos, ah! esse parlam entarism o à brasileira vai ser um a graça, um a bam bochata!