Navegação de Cabotagem
Colônia, 1970.
*Personalidade notória da TV francesa.
Falou-se da França, da Espanha, do Brasil, da Europa em construção, do m undo em decom posição, os im possíveis do leste europeu, os espantos — Zélia e eu partirem os para Moscou daí a dois dias, vam os ver com nossos olhos que a terra há de com er. Dizer que o alm oço foi agradável é pouco dizer: eu diria pequena obra de arte, m iniatura belle époque. Grande painel das eleições presidenciais francesas, o rápido esboço de um a aparição na tevê, sem pre obra de arte, de perfeita execução e fino acabam ento, assim vej o e aprecio a presença e a atuação de François Mitterrand: m ais do que hom em político — e com o ele o é! — um artista no encargo e no prazer da criação.
Após a refeição, a visita ao Castelo, a conversa se prolonga, aqui nasceu Villegaignon, term inou ilha na Baía de Guanabara, a cadela negra salta em torno a seu dono, Mitterrand afaga-lhe a cabeça, chega a hora de partir, o Presidente da França tem m uito o que fazer, o helicóptero da Presidência esquenta os m otores, Jorge Sem prum em barca. Apresentam os nossas despedidas, Mitterrand nos convida a ir com ele no helicóptero, pega-m e de surpresa — Zélia se assanha inteira, da cabeça aos pés, o convite a encanta, adora voar e se a m áquina voadora é presidencial, ah que convite mais gentil, mais bem-vindo, mais irrecusável. Antes que abra a boca e aceite, deleitada, falo eu, o grosso.
Recuso o irrecusável, recuso de pé firm e, sem deixar lugar à dúvida, à discussão: m uito obrigado, Presidente, m erci, M. le Président, não serei eu a entrar nessa m áquina infernal. Se não Sabem , fiquem sabendo: tenho horror aos aviões, m as esse horror é nada, coisa algum a, se com parado ao pavor que tenho dos helicópteros — aquelas pás no alto do aparelho a se m overem m e aterrorizam : podem parar a qualquer m om ento.
Mitterrand insiste, vôo de quinze m inutos até o Palais de l'Ely sée, m andará o carro nos levar ao Quai des Celestins, por que fazer cem fatigantes quilôm etros de autom óvel? Zélia desfeita repete a pergunta do estadista: por quê? A voz dura da senhora m e alarm a, sei o que m e espera, m as faço das tripas coração, com provo m inha condição de hom em , de m acho: recuso-m e a entrar no helicóptero, m orro de m edo, Presidente, essa a verdade. Não olho para Zélia, não sou doido.
Cem quilôm etros de carro até Paris, estrada ótim a, refastelados num Citroen cara-de-sapo do m aior conforto, m ordom ia m inisterial, não consigo arrancar um a palavra de Zélia, sorriso nem pensar — a cabeça no helicóptero presidencial. A doce face faz-se severa, o olhar perdido no desgosto, puxo conversa, com ento o alm oço, recordo a inteligência, o bom hum or, a m alícia dos convivas e do anfitrião, digo gracinhas, exibo-m e, exagero. Silêncio de túm ulo, o autom óvel, m ísera m áquina do com eço do século, é um a acusação em m ovim ento.
A m anifestação das enferm eiras dissolvera-se na Praça da Bastilha, um cartaz abandonado j unto à ponte acusa os potentados, a indignação contra as inj ustiças da vida som breia o rosto de Zélia, fechado nas copas do desgosto. O ruído das pás cortando o ar, um últim o helicóptero da polícia sobrevoa, a baixa altura, o autom óvel da decepção.
Colônia, 1970.
A batina
Arlete Soares nos leva pelas estradas da Europa, de Portugal à Escandinávia, nas asas da longeva quatre-elles, nem um único incidente em m ilhares de quilôm etros. Vive em Paris, na Cite Universitaire, com anda na Maison du Brésil o com bate ao regim e m ilitar, os espiões do SNI destacados no estrangeiro a espionam dia e noite, Aríete não dá bola, faz o sol e a chuva, dita a lei entre os bolsistas brasileiros. Ela própria bolsista, redige tese de doutorado sobre os pescadores da praia de Jauá na orla da Bahia, governa hoste de m oças contestatárias. Cida, Rina, Dina, Saula, Marta, a portuguesa Rosa, botão de rosa, cada qual m ais linda escrava. Para levar a tese avante, Aríete trabalha de balconista em butiques de perfum e, de dom éstica na casa de Miguel Angel Asturias e da com adrita. Entre a política e o am or não term inou a tese que prom etera m e dedicar: cadê a tese, Aríete?
Em Colônia (ou foi em Munique?) pendura-se horas ao telefone, eu a vej o de volta toda prosa, quero saber o porquê da euforia:
— Dei sorte, o padreco estava na paróquia, falei com ele, m arquei encontro.
— Nam orado?
— Não sabias que sou nora de Deus?
Conta os am ores com sacerdote católico, tam bém ele bolsista, se hospeda na Cite quando em Paris, um alem ão loiro o corpo todo, da cabeça aos pés, um a espiga de m ilho. Aríete ronrona.
— Prêtre ouvrier? — Os padres operários estão em m oda, são de esquerda e Aríete est une radicale de gauche.
— Não, vaticano puro no tem or de Deus, na obediência ao Papa. Veste batina, só a retira na hora agá e olhe lá: em cim a da pele branca, a batina negra. Foi a batina que fez m inha cabeça.
Tom a do volante da quatre-elles, parte ao encontro do servo de Deus que por am or a ela renegou os votos de castidade, tirou a batina, perdeu a virgindade, praticou o pecado da carne, pecado m ortal, Aríete é o Tentador em figura de gente.
Devo e não nego, a deus e ao mundo, ao diabo e à mãe-de-santo, ao grande e ao pequeno, influências que sofri, sofri não é o termo justo, só me trouxeram benefícios. Se devoro livros até hoje, eu o devo ao pai Dumas, o mulato Alexandre, foi ele quem me deu o gosto de ler, o vício: aos onze anos encontrei abandonado no navio para Itaparica o exemplar de Os Três Mosqueteiros, contraí o vírus da leitura para sempre.
Devo a Rabelais e a Cervantes, deles nasci. Devo a Dickens: me ensinou que nenhum ser humano é de todo mau, a Gorki: me deu 0 amor aos vagabundos, aos vencidos da vida, os invencíveis. Devo a Zola, com ele desci ao fundo do poço para resgatar o miserável, a Mark Twain devo ter soltado o riso, arma de combate, a Gogol, o nariz, as botas e o capote.
Devo a Alencar o romantismo e a selva, a Manuel Antônio de Almeida a graça da picardia, do burlesco, na praça do povo soltei o verbo com Castro Alves, denunciei a infâmia, com Gregório de Matos aprendi a generosidade do insulto fui boca de inferno, cuspi fogo, pela sua mão descobri as ruas da Bahia, o pátio da Igreja, a viela das putas.
Devo ao cronista anônimo do Mercado, ao contador de casos da feira de Água dos Meninos, ao trovador devo o arroubo, a invenção ao mestre de saveiro: namorou Yemanjá nas cercanias da ilha de Itaparica, dormiu com Oxum no leito de águas mansas do rio Paraguassu, possuiu Euá na cachoeira de Maragogipe, derrubou-a na fonte de caracóis e pétalas de rosa. É necessário saber e inventar.
Devo ao poeta de cordel, devo.