Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 4 de 262

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Moscou, 1952.

 

Os desmemoriados

Ily a Erem burg* e eu chegam os silenciosos de um a conversa com figuras gradas nos altos escalões a propósito de nosso am igo Jan Drda**, atendendo pedido que ele m e fez em Praga, de onde venho para receber o Prêm io Internacional Stalin da Paz: o prêm io m e credencia. Estam os em j aneiro de 1952, vinte graus abaixo de zero, vento gélido varre as ruas de Moscou, em borcam os os cálices de vodca no apartam ento da rua Gorki, Ily a m e diz: Jorge, somos escritores que jamais poderemos escrever memórias, sabemos demais. No abalo da conversa que acabam os de ter, balanço a cabeça concordando.

* Ilya Eremburg (1891/1967), escritor soviético.

** Jan Drda, (1915/1970), escritor tcheco.

Afirm ação categórica, não im pediu que, alguns anos depois, durante o período de Kruchev, ao se abrir um a brecha no obscurantism o soviético, ao despontar de um a pequena luz no m eio das trevas, o autor de Degelo publicasse sete tom os de m em órias, sete, nada m enos: no sétim o Zélia e eu figuram os, sim páticos personagens. E isso não é tudo, pois Irina*** m e contou, em 1988, estar pondo em ordem os papéis do pai com o fim de editar vários volum es de m em órias inéditas que ele não conseguiu publicar sequer durante a abertura de Kruchev: Ily a sabia dem ais.

*** Irina Eremburg, filha de Ilya.

Durante m inha traj etória de escritor e cidadão tive conhecim ento de fatos, causas e consequências, sobre os quais prom eti guardar segredo, m anter reserva. Deles soube devido à circunstância de m ilitar em partido político que se propunha m udar a face da sociedade, agia na clandestinidade, desenvolvendo inclusive ações subversivas. Tantos anos depois de ter deixado de ser m ilitante do Partido Com unista, ainda hoj e quando a ideologia m arxista-leninista que determ inava a atividade do Partido se esvazia e fenece, quando o universo do socialism o real chega a seu triste fim , ainda hoj e não m e sinto desligado do com prom isso assum ido de não revelar inform ações a que tive acesso por ser m ilitante com unista. Mesm o que a inconfidência não m ais possua qualquer im portância e não traga consequência algum a, m esm o assim não m e sinto no direito de alardear o que m e foi revelado em confiança. Se por vezes as recordo, sobre tais lem branças não fiz anotações, m orrem com igo.