Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 35 de 262

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Navegação de Cabotagem

Rio de Janeiro, 1932.

 

Cobra Norato

Do oceano Índico onde navega num m aru qualquer no rum o do Japão, Raul Bopp m e envia os originais dos poem as que escreve a bordo m argeando a costa da África: ninguém m ais convicto da negritude brasileira do que o poeta gaúcho descendente de alem ães.

Andej o, Bopp trilhou os cam inhos do m undo, os m ais longos foram os da Am azônia, ele a entendeu e am ou, do encontro com o rio e a selva nasceu o poem a brasileiro por excelência, nada m aior nos deu o m odernism o, intitula-se Cobra Norato. Os poem as negros, a Ariel os editou, reunidos sob o título de Urucungo, com capa de Santa Rosa, a prim eira que o paraibano desenhou no Rio.

Juntos com Carlos Echenique alugam os casa em Ipanem a — em 1932 o bairro apenas com eçava a se erguer sobre as areias — para nela residir e receber senhoras de nossas relações, não dem orou vivia tanta gente, tanta, na sala e nos dois quartos que Raul teve de m udar-se para um quarto do outro lado da rua. Ficam os am igos no dia em que nos conhecem os e o fom os até o fim de sua vida.

Cônsul no Japão, na viagem dos poem as ia assum ir o consulado, revelou-se o m ais eficiente diplom ata, term inou em baixador tam bém de extrem a com petência. A obra que im ortalizou seu nom e , Cobra Norato, data de antes, dos idos da antropofagia. Por volta dos anos sessenta, publicou-se um a edição fora de com ércio, a norato ilustrada com gravuras de Oswaldo Goeldi, o que se pode denom inar de ouro sobre o azul.

 

Rio de Janeiro, 1971.

 

Casamento

Um a fotografia m ostra-m e entrando na Igrej a de São Bento, arrastando Palom a pela m ão, vê-se na foto, entre outros am igos, Eduardo Portella, José Mauro Gonçalves, Carlos Ribeiro e Antônio Houaiss. Atravessam os a porta do tem plo na hora m arcada, dez horas em ponto, nunca se viu coisa igual em casam ento de certa relevância: unem -se fam ílias de dois beletristas conhecidos, de presença significativa na vida cultural. Pedro vem correndo para o altar, encontrava-se no confessionário, na sacristia. Aprendi a pontualidade nos anos vividos na Europa, no Brasil hábito infeliz, sou o único brasileiro pontual, o que m e causa os m aiores em baraços. Será que desta vez não estou exagerando? Palom a ainda retoca o cabelo, eu j á m e encontro na porta do elevador. Quem sabe o faço para deixar claro que não vou m e dobrar aos costum es da fam ília Costa, de im pontualidade legendária, contam -se histórias, algum as hilariantes. Palom a casa-se com Pedro, filho de Nazareth e Ody lo Costa, filho.

A cerim ônia é presidida por dom Tim óteo* que chegou expressam ente da Bahia. Figura adm irável, de rara sensibilidade, distante do habitual dogm atism o católico, tão habitual e estreito quanto o com unista, dom Tim óteo é subversivo capitão das hostes da resistência à ditadura m ilitar reunidas em torno de dom Hélder Câm ara, Arcebispo de Recife e Olinda, que, nos em bates da vida, evoluiu de posições de direita para alianças de esquerda.

*Dom Timóteo Amoroso Anastácio, monge beneditino, abade do Mosteiro de São Bento, na Bahia.

Casam ento ecum ênico, o noivo católico praticante, de fam ília tradicionalm ente católica, sobre Ody lo li, em artigo de crítico respeitado, tratar-se de poeta católico, a classificação pareceu-m e lim itadora de um a poesia que se eleva acim a de tais contingências ideológicas; a noiva filha de pais ateus, criada à m argem de qualquer religião — inclusive das religiões populares, de origem africana, apesar do pai ser obá de Xangô. A esse casam ento ecum ênico dom Tim óteo em presta a graça m ágica da poesia, a ternura da am izade, usa palavras sim ples para falar da vida e do am or, não consigo defender-m e da em oção.

Não posso tam pouco deixar de sentir certa inquietação, certo tem or: conseguirá Palom a adaptar-se à nova fam ília, de usos e costum es tão diferentes dos nossos? Observo o casal diante do m onge, atento às palavras sábias e belas. Pedro, m enino delicado e frágil, perfil de j ovem erudito, devorador de livros, será capaz de m astigar a vida? Por vezes eu o estranho, sogro por dem ais grosso para genro de natureza tão sensível, tim idez e orgulho. Será Palom a capaz de resistir às dificuldades do dia-a-dia, aos azares e crueldades da vida, da vida e do convívio, às crueldades do am or? Conseguirá atravessar as grandes torm entas e as pequenas m isérias? Conseguirá relacionar-se bem com os sogros, com as cunhadas, com os cunhados? Espero que sim , Palom a se parece com igo, tanto, som os iguais em quase tudo. Diferente de João, filho de sua m ãe Zélia, a bondade em pessoa, a aceitação da vida, a tranquila segurança, a alegria tranquila. Eu e Palom a som os m ais com plicados, m enos bondosos, m enos generosos do que Zélia e João, som os m ais egoístas, m ais rudes. Em troca possuím os certa m alícia, certa flexibilidade, conseguim os contornar os im pulsos que podem levar à incom preensão, conduzir ao desastre. Pensando em m im próprio e em m inha vida em com panhia de Zélia, concedo um voto de confiança a Palom a.