Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 75 de 262

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Casablanca, 1989.

*Produção da Metro-Goldwyn-Mayer, em 1983.

Prom eto ir com Zélia, o prefeito m e inform a que Roberto Marinho tam bém se com prom eteu a com parecer, vai ser festa de arrom ba.

Casablanca, 1989.

 

A história da mulher de seu Vieira

Aproveito para contar a história da m ulher do senhor Vieira, tal com o se deu, tintim por tintim , circulam versões desencontradas, cada qual conta o conto à sua m aneira, a m aioria ouviu o galo cocoricar m as não sabe da m úsica a m etade.

Estávam os Calasans Neto e Auta Rosa, Zélia e eu em

Casablanca, hospedados em um dos dois m elhores hotéis da cidade, Auta descobriu um a barata no quarto, com unicou a Zélia, o hotel foi para a lista negra. Com o viaj aríam os naquele m esm o dia para Marrakech, decidim os visitar o outro m elhor hotel, no lado oposto da praça, bisbilhotar conforto e lim peza, nele reservar acom odações para nossa volta, um a sem ana após, se valesse a pena.

Na portaria buscávam os inform ações sobre os quartos quando um senhor ainda j ovem , bem -posto, ar esportivo, que m e fitava curioso, perguntou-m e se eu era brasileiro, escritor e se m eu nom e era... Efusão patriótica, troca de gentilezas, o com patriota ao saber ao que vínham os elogiou o hotel, lim píssim o, nem som bra de baratas, propôs m ostrar-nos seu apartam ento para que j ulgássem os. Tentei recusar, quem disse, dona Rosa e dona Zélia queriam com provar as vantagens, aceitaram , im puseram , acom panham os o senhor Vieira — Vieira, de Santa Catarina, se apresentara — ao oitavo andar. Tom ou a frente, bateu à porta, foi aberta por um a criança de seus cinco anos. Onde vai a corda vai a caçamba, disse o anfitrião, não sei por que a declaração m e fez im aginá-lo viúvo a correr coxia com a filha órfã. Entram os às apalpadelas pelo corredor ao lado da casa de banho, o apartam ento m ergulhado na m ais negra escuridão. Vieira adiantou-se quarto adentro, direto para o j anelão, eu atrás dele, os dem ais atrás de m im . Num repelão Vieira abre as cortinas, a luz m atinal de Casablanca invade a habitação, ouve-se um grito de m ulher: Vieira, o que é isso? É Jorge Amado, minha filha, explica o bom leitor no auge do contentam ento, aponta-m e com o dedo, em seguida m e inform a: essa aí minha esposa. Olho e vej o essa aí estendida nua em pêlo no leito de casal, êxtase, visão, com o direi? Não direi nada, nada disse, apenas arregalei os olhos, essa aí ergueu o busto, a luz banhou-lhe os seios, aleluia! Dona de casa civilizada convidou-m e a sentar na cam a, convite que não estendeu aos dem ais, certam ente por não lhe terem sido apresentados: o m arido pronunciara apenas o m eu nom e.

Sentei-m e por um instante fugidio, pois Zélia j á dava por visto e aprovado o apartam ento, agradecia e se m andava, arrastando-nos na pressa de sair, ainda hoj e não entendo o m otivo de tanto açodam ento: Vieira acom panhou-nos à porta, a criança pela m ão, dissem os m uito obrigado, despedim o-nos. A cam inho do elevador com entei com Calasans, as senhoras iam à frente:

— Lavaste os olhos, hein, Cala?

— Lavei os olhos, com o?

— Ora, com o! Com a nudez da m ulher de seu Vieira.

— Nudez? Que m e contas, que história é essa?