Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 82 de 262

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Rio de Janeiro, 1970.

Quanto à venda, não podia m e iludir: dos m il exem plares da edição Schm idt, eu próprio devo ter adquirido m ais ou m enos m etade da tiragem para oferecer a am igos e conhecidos. Com o não recebi direitos autorais, o poeta dublê de editor era bom de poesia, ruim de pagam ento, a estreia em livro custou-m e parte considerável das m esadas rem etidas de Ilhéus pelo coronel João Am ado.

Não só m e pavoneava, tam bém nam orava, batia papo nos cafés e nas livrarias, ia à Faculdade fazer baderna, e lia, lia m uito. Sou desde m oço e até hoj e infatigável devorador de rom ances. Term inada a escrita do volum oso Ruy Barbosa número 2, dediquei-m e aos livros de sucesso naquele então: A Bagaceira, de Zé Am érico, Menino de Engenho, de Zé Lins, Judeus sem Dinheiro, de Mike Gold, Passageiros de Terceira, de Kurt Klaber, A Torrente de Ferro, de Serafim ovitch, A Derrota, de Fadeev, A Cavalaria Vermelha, de Babel — a fase inicial da literatura soviética possuía um a aura rom ântica, era ardente e vigorosa, ainda livre e criadora. Lendo A Bagaceira virei escritor brasileiro, lendo os russos, alem ão e o j udeu norte-am ericano desej ei ser rom ancista proletário. Escrevi Cacau, nada tinha a ver com O País do Carnaval. "Será um rom ance proletário?", perguntava na nota de entrada. Voltei a Gastão Cruls, pedi devolução dos originais de Ruy Barbosa número 2, em casa os destruí. Deixei com o contista os originais de Cacau para que os lesse e opinasse. Alguns dias depois Gastão — alto, elegante, finíssim o, o cigarro na ponta da piteira longa, ser civilizado — m e disse apontando para as páginas datilografadas de Cacau:

— Quase tudo que está aqui é bom , m as é pouco. Você, porém , ainda não pode fazer m ais. De qualquer m aneira Cacau vai ser um grande sucesso, vou publicá-lo im ediatam ente.

Assim fez. Com ilustrações de Santa Rosa, as prim eiras do desenhista que revolucionou as capas e as ilustrações dos livros brasileiros, Cacau esgotou em quarenta dias a edição de dois m il exem plares: a proibição de venda por subversivo, decretada pela polícia carioca, aj udou o sucesso de público. A liberação deveu-se à intervenção de Oswaldo Aranha* e a vigoroso protesto de O Globo.

Livrinho m aniqueísta, m as que livrinho retado!

*Oswaldo Aranha (1894/1960), político, na época ministro da Justiça.

Rio de Janeiro, 1970.

 

O batavo

Gilberto Am ado* chega da Europa, m e convida para j antar, é portador de carta que m e envia seu colega soviético na Corte Internacional de Justiça, som os prim os, dam o-nos bem um com o outro. Mestiço sergipano de boa cepa, cidadão im portante, Gilberto foi deputado, senador, em baixador no Chile e na Finlândia, é j urista em inente, em inente literato, personalidade de proa na vida brasileira, m ove-se cercado por um a corte de adm iradores.

*Gilberto Amado (1887/1969), escritor, jurista e diplomata.