Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 221 de 262

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Navegação de Cabotagem

Fronteira Portugal x Espanha, 1976.

— O indigitado cham a-se Wilson Lins e é vosso filho.

Na aparência o Coronel não se abalou, ficou calado durante alguns segundos, o olhar perdido, decerto pesando consequências, estava em j ogo a felicidade do filho e da sobrinha bem -am ados, deve ter concluído que tal casam ento poderia significar a salvação de Wilson. Voltou-se então para dona Sofia: sabias disso? Ela confessou que desconfiava. E Anita, o que é que ela pensa? Levantou-se, era um gigante, andou para a porta de com unicação, a m ão no ferrolho de feno cinzelado, abriu a porta num repelão, cham ando: Anita venha cá, Anita, O ouvido colado à fechadura, Anita desabou na sala:

— Padrinho m e cham ou?

Sou bom casam enteiro, de enlace m ais feliz não sei, sei de uns poucos iguais na com preensão e no am or, o m eu e de Zélia, por exem plo.

Fronteira Portugal x Espanha, 1976.

Diferenças

Vam os no rum o da Espanha, sob o sol do verão, a fam ília toda. Com entam os as diferenças de caráter e costum es entre os dois povos da península, a m elancolia portuguesa, a dram aticidade espanhola.

Lem os nos m uros slogans ainda num erosos, restos da profusão com que a liberdade encheu as paredes nas cidades e nos cam pos após a Revolução dos Cravos. O sol raiará para todos, escrevera o anarquista, alguém , cético, rabiscou em baixo: E nos dias de chuva? Rim os, a polêm ica é cortês: gente am orosa a lusitana gente.

Atravessam os a fronteira e logo adiante, num a aldeia, a declaração ocupa toda a m urada de um terreno plantado de hortaliças: te odio, te odio y te ódio! A quem será dedicado tanto ódio, três vezes repetido e ponto de exclam ação? Estam os na Espanha, a violência e o desforço substituem a cortesia: nos slogans as diferenças de caráter e de costum es.

Londres, 1969.

O caderno de desenhos

Quando Norm a m orreu, em 1968, estávam os em Londres — Nancy, Cary bé, Zélia e eu —, hospedados em casa de Zora e Antônio Olinto. Ao receber a notícia Cary bé foi à papelaria em frente, adquiriu um caderno de estudante, lápis variados, com eçou a desenhar página a página até a últim a, m ais de cem desenhos, cenas de Londres, cenas da Bahia, no silêncio da sala a ausência da am iga, aquela que não se podia com parar com nenhum a outra. Cary bé assinou e datou cada um dos desenhos, m eteu o caderno num envelope acolchoado, tocou-se para o correio, despachou o pacote para Mirabeau àquela hora sofrendo as penas do inferno, órfão de Norm a, esposa, m ãe e com panheira.

Passaram -se anos, um dia Mirabeau trocou quatro ou cinco desenhos do caderno por m esa e cadeiras holandesas encontradas na Galeria Renot. Na Galeria Renot, segundo Odorico Tavares, podia-se encontrar e adquirir fosse o que fosse: além de arte baiana, antiguidades, potes de caviar russo, vinhos franceses, o que se procurasse, inclusive m odelos para pintores (ou am adores), m ulatas autênticas, ali Di Cavalcanti se abastecia quando na cidade. Negócio feito, Renot colocou os desenhos em passes-par-tout, os enquadrou e expôs à venda. Cary bé, ao vê-los pendurados na parede da galeria, dirigiu-se ao proprietário:

— Esses desenhos, Renot, o que quer dizer isso?

— Desenhos seus, eu os consegui, custaram -m e caro.

— Meus? Engano. Não são m eus coisa nenhum a.

— Com o não são seus? Troquei-os com Mirabeau por...

— Com Mirabeau? Está explicado, são desenhos dele, com o você sabe Mirabeau desenha m uito bem e im ita m inha assinatura na perfeição. Apenas não são m eus, não os coloque à venda com o obra m inha, eu seria obrigado a denunciar a fraude.

Tom ado de indignação, Renot partiu para a casa de Mirabeau, clam ando aos céus. Chegou aos berros, falando em roubo, Mirabeau o pôs porta afora:

— Fora daqui, depressa, antes que eu lhe dê um tiro, seu filho-da-puta. Cham ar-m e de ladrão! Ladrão é a puta que o pariu!

No vão da porta, rindo de m orrer, Cary bé: quem mandou negociar os meus desenhos?

Bahia, 1964.

La pazza

O físico m arcado pela idade, andar vacilante, as costas curvas, Ungaretti* conserva a picardia da j uventude, chega à sala pelo braço da nam orada, estudante de literatura, recém -saída da adolescência. Com o m estre e a discípula viaj a a avó da m oça — para garantir-lhe a virgindade? Pelo j eito o em penho é necessário, em estado de poesia Ungaretti revolteia em torno à j ovem , m ão boba e galanteio, parecem personagens de um conto de Bocaccio, a Renascença italiana acontece na cidade m estiça da Bahia, por que penso em Botticelli?

*Giuseppe Ungaretti (1888/ 1970), poeta italiano.

Minhas relações de am izade com Ungaretti vêm do tem po de sua cátedra no Brasil, antes dos anos quarenta, ele acom panhara com interesse a literatura brasileira, estim ulara o rom ance de trinta, de regresso à Europa não esqueceu a experiência do trópico.

Levo o poeta, a m usa e a avó a com er no Mercado Modelo o antigo, o que pegou fogo. Ungaretti se regala: a brisa do m ar a visão dos saveiros, a m oqueca de siri m ole, a pim enta-de-cheiro, o caldo de lam breta, afrodisíaco, dizem , digo-lhe. Ri o riso do Mediterrâneo, da Renascença, depravado: é do que ando preciso, m e responde. Aponta a estudante, a viração agita-lhe os cabelos, suspende-lhe a saia leve, m ostra no cais as coxas da ragazza. Ungaretti explica-m e o enredo: é pazza, tanto rapaz no mundo, garanhões, a pazza os desdenha por um velho bardo. Eu m e pergunto se será loucura ou se será sabedoria, a ítalo-paulista se dá ao luxo do poeta fam osíssim o, a astúcia da poesia a fascina m ais que os bíceps, não há robustez de galã que se com pare à língua de m el e fogo de um bardo renascentista, à m ão que desenha arabescos na bunda da pazza ao vento. O azeite-de-dendê escorre dos lábios da avó, um saveiro sob o sol cruza o Forte do Mar.

Bahia, 1991.

Me-ufanismo

Ocorre-m e gabar essa ou aquela circunstância brasileira, busco razão, m otivo sej a qual for para repetir o título do livro do conde Afonso Celso, Porque me ufano de meu país. O m e-ufanism o, pobre dele, hoj e anda por baixo, não som ente ignorado com o posto em ridículo, tão triste se nos apresenta a realidade de m iséria, fom e e consequente violência, dos assassinatos quotidianos de crianças, da destruição da natureza, das epidem ias — vam os parar por aqui, a relação além de trágica é infindável.

Por isso m esm o vale lem brar aquilo ou aquele que nos dá m otivo de ufanism o, existem m uitos, inúm eros, encobertos sob o lixo das m azelas. Vou buscar exem plo na televisão, tudo de péssim o se diz da televisão brasileira, pois bem : diante do vídeo no m esm o dia assisto a program as de Chico Anísio e de Jô Soares, inflo de orgulho patriótico. Não sei de televisão em qualquer parte do m undo, as cadeias m ais cultas da Europa, as m ais ricas dos Estados Unidos, que possua criadores da qualidade, da im aginação, da inventiva dos dois hum oristas brasileiros, realm ente m estres.

Jô Soares, Chico Anísio, únicos, não se parecem a nenhum outro em nenhum a parte, não im itam , não copiam , são criadores originais, cada um sua originalidade, são brasileiros, não são papel carbono dos gringos. Chico e Jô, cada qual pariu a população de um m icrocosm o, retrataram a unidade e a m ultiplicidade do Brasil, nas deficiências e nos acertos, na inteligência e no analfabetism o, na velhacaria e na ingenuidade, no m uito que existe de m elhor e naquilo que existe de pequeno e de m esquinho.

Encheria páginas escrevendo nom es de personagens, descrevendo tipos: os tiques, as falas, as singularidades da figura e do caráter, os habitantes num erosos, os de Chico City, os de Viva o Gordo, são o nosso povo. Os dois m estres hum oristas esbanj am talento, com preensão e solidariedade, sinto-m e m e-ufanista, respiro inteligência e confiança, sou patrício de Chico e de Jô, posso esquecer o podre e o suj o.

Lisboa, 1987.

O homem e o robô

Intelectual, político de pensam ento tão dogm ático, preso às m alhas da ideologia, entrincheirado na fidelidade leia-se obstinação, na irredutibilidade leia-se apego ao poder, Álvaro Cunhal, com unista histórico, irrem ovível, m ereceu sem pre de seus adversários, inclusive dos m ais raivosos, o reconhecim ento de qualidades positivas: coragem , honestidade, inteligência, firm eza. O que diz bem do cidadão.

Da pessoa hum ana revestida com a farda de secretário-geral, porém , pouco se sabe, com unista não tem vida privada: um a das leis da estupidez a fazer do ser de carne e sangue o robô de aço, com o sabeis stalin significa aço.

Por ocasião das com em orações do centenário de nascim ento do pai de Álvaro Cunhal, o advogado, hom em de letras e pintor Avelino Cunhal, leio no Jornal de Letras, do Zé Carlos, página do filho dirigente com unista sobre o pai burguês, tenho grata surpresa: o pequeno texto só é pequeno no tam anho, um grande, belo e com ovente texto, de exem plar dignidade. Álvaro Cunhal fala do pai com reconhecim ento e saudade, louva-lhe a condição de hom em livre, a generosidade, a honestidade, a isenção, os traços fundamentais do pensar, do caráter, do procedimento m as não se reduz ao louvor do cidadão, recorda-o com ternura e am or filiais refere-se à felicidade de ter tido um pai assim. Surpreso m e alvoroço, corro a ler o texto para Zélia. Volta-m e a recordação do j ovem revolucionário português, fugido da cadeia, com quem conversei um a única vez, em Paris, no Hotel Saint-Michel, nos idos de 1948. Depois só tom ara conhecim ento do sectário, só presenciara o dogm ático.

Eu sabia que o am or supera e vence a m orte, assim aprendi ao contar a história de Dona Flor e seus dois m aridos. O texto do cam arada de repente descido do pedestal m e ensinou que o am or supera e vence tam bém a pequenez da vida, faz desabrochar a rosa em terra safara, brotar a nascente de água no deserto.

Despido da farda e da intransigência, liberto da im postura e da intruj ice, o secretário-geral desce da estátua, deixa de exibir-se insensível robô do partido, fílho-da-seita, ei-lo de novo um ser hum ano, de carne e sangue, filho de pai e m ãe.

Rio de Janeiro, 1934.

Erico

A indústria editorial m oderna com eçou a existir no Brasil com Monteiro Lobato, com o é sabido, na década de vinte. De início a seu lado, Othales Marcondes* levou avante os proj etos de Lobato, fundou a Editora Nacional, tão im portante para a edição de livros e para a literatura quanto a Editora José Oly m pio. Personalidade aliciante, José Oly m pio perm anece com o sím bolo e referência, m as Othales, discreto, retraído, nada fica a lhe dever em im portância.

*Othales Marcondes Ferreira, editor.

Colecionador de m óveis antigos, reservado porém cordial e solidário, sabia cercar-se de colaboradores de alta qualidade, vale citar Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira — com Anísio foi de solidariedade a toda prova nas aflições de dezem bro de 1935. Na década de trinta as relações públicas da Nacional estavam em m ãos de Moacy r Deabreu, autor de um único livro m as de relacionam ento e prestígio am plos no m eio literário. Penso ter sido Moacy r quem inventou o prêm io instituído em 1934 por Othales para rom ances brasileiros inéditos, o livro prem iado seria editado pela Nacional. A organização ficou a cargo do Boletim de Ariel, a revista de Gastão Cruls e Agripino Grieco.

Literato fanático, eu não desgrudava da redação do Boletim, colaborador perm anente, cupincha dos diretores, a par de quanto se passava, do prêm io sabia tudo. Sabia quais os candidatos com possibilidades e com o se distribuíam os votos do j úri constituído por em inências: Gastão Cruls, Monteiro Lobato, Gilberto Am ado, Agripino Grieco — Moacy r Deabreu representava a Editora. Gastão era voto de Marajá de Marques Rebelo, Grieco preferia Totônio Pacheco de João Alphonsus, Monteiro Lobato sustentava Música ao Longe de Erico Veríssim o.

Dei conta a Erico da situação, naquele então nos escrevíam os cartas sem anais, vou cantar o voto do Gilberto para você, a resposta não tardou. Concorrente com um voto garantido e possibilidade de vitória, Erico m e fez saber que entre os originais enviados ao concurso estava os de um rom ance intitulado Os Ratos, de autoria de m édico gaúcho, naquele m om ento, por sinal, cum prindo pena de prisão, acusado de com unista — se eu pudesse fazer algum a coisa j unto a Gilberto que o fizesse em favor de Dy onélio Machado, assim se cham ava o fulano. Na opinião de Erico que conhecia o m anuscrito o rom ance do desconhecido era obra-prim a.

A carta despertou m eu interesse pelo livro e pelo autor: com unista e preso, credenciais m aiores. Na redação do Boletim os originais destinados à leitura de Gastão e de Grieco se encontravam num arm ário, procurei Os Ratos, encontrei, sentei-m e a um canto, devorei o rom ance. Vibrei de entusiasm o. Sabedor dos votos j á enviados e sabendo tam bém que Moacy r não pensava envolver-se, apenas concordar com o decidido, telefonei para Gilberto, fui visitá-lo. Prim os, cultivávam os boas relações, Gilberto dizia-se grato a m eu pai que o aj udara a form ar-se em direito.

Perguntei-lhe se j á lera todos os livros apresentados e se tinha Candidato em quem votar. Não lera nenhum , nem pretendia ler, m e declarou, ali estavam os originais virgens com o haviam chegado, não tinha tem po a perder, votaria com Gastão Cruls em cuj o gosto e parecer confiava. Contei-lhe então da carta de Erico: apesar de estar no páreo recom endava um desconhecido, o que m e fizera ler os originais: rom anção, novidade em m atéria de ficção brasileira. Consegui interessar Gilberto: veja se o descobre aí — apontou o m onte de originais ao lado de um a estante —, se encontrar me dê, vou ler, se achar que o Erico e você têm razão até posso votar nele. No dia seguinte m e telefonou: livro extraordinário, muito mal escrito mas que romance! Voto nele.

O prêm io da Editora Nacional foi dividido entre quatro livros, Othales concordou em editar os quatro, os quatro obtiveram sucesso m as foi o rom ance de Dy onélio que sacudiu o palanque. Conto a história para que se saiba com o era Erico Veríssim o, perdeu-se a form a de confrade igual à dele, j á não se faz hoj e em dia.

Bahia, 1985.

Júlio

Thom as Borge* m e escreve de Manágua, pede-m e um texto sobre Júlio Cortázar, para um livro dedicado ao escritor argentino, Nosotros te queremos, Júlio, dá-m e pressa. Vou para a m áquina de escrever com satisfação, tenho pelo hom enageado adm iração de confrade, estim a de com panheiro.

*Thomas Borge, político e escritor da Nicarágua.

Onde e com o conheci Júlio Cortázar** não m e lem bro, sei, isso sim , da sim patia m útua e de um as tantas proezas que realizam os j untos. A últim a delas foi um program a de televisão, na Alem anha, denunciando os regim es m ilitares em nossas pátrias da Am érica Latina, os governos da tortura m onstruosidade e vergonha de argentinos e brasileiros. Em seu apartam ento de Paris acertávam os os ponteiros de nossos relógios na hora do com bate à ditadura. Durante um tem po foi casado com nossa am iga Ugne Karvelis***. Falando de Júlio, Zélia costum ava dizer que no m undo da literatura não existia figura m ais bonita e cativante, Júlio sofria um a enferm idade rara, não envelhecia aos poucos com o toda a gente, aos sessenta anos parecia não ter com pletado os trinta. Autor de obra literária que levou seus livros a leitores de um m undo inteiro, cidadão de m ilitância e solidariedade, a luta foi seu quotidiano. De literatura e luta falei no texto que escrevi e enviei a Borge.

**Júlio Cortázar (1914/1984), escritor argentino.

***Ugne Karvelis, escritora francesa.

Poeta e m inistro do governo sandinista, Borge acusa recepção, inform a que a edição está um tanto atrasada. É natural que assim sej a pois a prom oção é proj eto de poetas. Tem o pelo futuro do governo sandinista tantos são os poetas que o com põem , a prim eira-dam a do país, Rosário Murilo, é poeta de qualidade, publicou coletâneas de poem as, o sectarism o não consegue elim inar a em oção, seu m arido Daniel Ortega, presidente, tam bém com ete versos, não sei dizer se são bons ou m aus, não tive ocasião de os ler. Bom poeta é Cardenal, outro m inistro, creio que da cultura, padre da teologia da libertação, padre m elancia para usar a expressão de Ibrahim Sued, não é de todo inj usta: a batina de Cristo, o boné proletário de Lenine. Mem bro do j úri do Prêm io Internacional Pablo Neruda — o prêm io se acabou j unto com a União Soviética — com satisfação dei-lhe m eu voto, sou leitor do poeta Cardenal.

Passa-se o tem po, recebo a visita de um am igo de São Paulo, Gilberto Mansur, diretor da re vista Status: colaborador antigo, não tenho o artigo que ele reclam a para o núm ero de aniversário e não m e sobra tem po para escrevê-lo. Gilberto anda pela casa, abre as gavetas, vasculha os papéis, depara com cópia da m atéria sobre Cortázar. Pertence aos sandinistas, aviso, suspende os om bros, não quer saber leva-a consigo, é o que precisa para o núm ero especial.

Na revista, aprecio o texto apresentado com aparato: foto de página inteira do m ais belo escritor do m undo, opinião de Anny -Claude*, Misette discorda, para ela o m ais belo é Jorge Sem prun. Para Zélia nenhum se com para a Paul Eluard, esse sim era de fato belo, cada qual seu gosto, quanto a m im estou no páreo dos m ais feios e m ais deselegantes, acum ulo. Releio o escrito, penso ter feito j ustiça ao escritor e ao com batente, sei que Júlio está hospitalizado, m eto a revista num envelope, boto o envelope no correio endereçado para Paris, explico que escrevi o artigo para o livro da Nicarágua. Não tarda, recebo carta de Júlio, gostou do texto, agradece, fala da Nicarágua e da am izade.

*Anny-Claude Basset, aeromoça e ecologista.

Quatro dias após a alegria da carta leio nos j ornais a notícia da m orte de Júlio. Nosotros te queremos Júlio, o livro encom endado pelos sandinistas para hom enagear o escritor argentino foi Publicado m eses depois: coroa com as flores da saudade e do am or, colocada sobre a m em ória do m ais bonito e cativante, do m ais solidário escritor de nosso continente latino-am ericano, o sol se apaga no Rio Verm elho.

Ah, meu apego às coisas velhas, sofro críticas, recriminações. Zélia vem de me dizer: já é tempo de jogar no lixo esse par de chinelas, estão feias e inúteis, dificultam-te o andar. É verdade, reconheço, mas são tão cômodas, chinelas novas são desconfortáveis, apertam os dedos, entram mal no pé e, ademais, esse par foi presente de Misette que o trouxe de Cabo Frio ou foi de Angra dos Reis? Não consigo comover Zélia mas vou tapeando, vou enrolando, conservo as chinelas.

Tenho camisas que comprei na Índia no ano de cinquenta e sete, já não as visto pois engordei e já não me cabem, ainda assim as guardo, quem sabe um dia emagrecerei, é duvidoso. Raramente uso gravatas, em troca dão-me muitas de presente, a maioria nem chego a utilizar, passo adiante, mas, quando sou obrigado a usar tal peça, uso sempre as mesmas, cinco ou seis que acho bonitas, combinam com qualquer roupa, penso, engano-me, sou o oposto do elegante. Existe, inclusive, uma colunista em Brasília que se escandaliza com as minhas gravatas, grita de público seu horror, tenho-a em alta estima. Por mais incrível que pareça possuo uma gravata — acho-a linda, em geral não acham — comprada quando o navio Atlantique veio ao Rio pela primeira vez, no ano de 1930, houve visitação, podia-se comprar nas butiques de bordo, na ocasião contei os trocados e a incorporei ao meu patrimônio, onde persiste.

Tenho centenas de objetos inúteis, não me servem para nada, não posso viver sem eles. Meu pai, um democrata, jamais criticava os hábitos alheios, por vezes não se continha, comentava com Lalu:

— Nunca vi ninguém botar tanto dinheiro fora em coisas inúteis como Jorge. Não herdou de mim, nem de ti, é engraçado, penso que herdou do Álvaro, que também é esbanjador. Só desejo que não comece a trocar os guarda-chuvas.

Referia-se a meu tio Álvaro Amado, seu irmão caçula, pobre e perdulário, jogador de pôquer, batoteiro, herói a imitar. Esbanjador, sem dúvida, dava-me notas de um mil-réis, tio Firmo* não passava de um cruzado, tio Fortunato**, outra figura singular, de um tostão furado, os três me ensinaram a intrepidez, a inconsequência, a inventiva, coronéis do cacau no risco da vida e da morte. Meu tio Álvaro tinha hábitos que me deslumbravam, o dos guarda-chuvas referido por meu pai era um deles, eu o via sair com o guarda-chuva velho, esperava vê-lo de volta, o riso no canto da boca, o guarda-chuva novo em folha pendurado ao braço. Dia chuvoso, a prática repetia-se: tio Álvaro partia levando o objeto imprestável, onde chegasse — bar, restaurante, casa de amigos, casa de putas — colocava-o no porta-chapéus, ao retirar-se ali o deixava, escolhia em troca o de melhor qualidade e menos uso. Terei saído a ele, como temia o coronel João Amado?

*Firmo Ferreira Leal (1885/1964), irmão de Lalu.

**Fortunato Ferreira

Meu tio Álvaro Amado, tão grande figura, o mais fascinante personagem de minha infância, nunca ousei colocá-lo herói principal de um romance. Quando aparece é sempre em segundo plano: tão se mostrava, agia na discrição. Amava as coisas velhas, terno seu durava uma eternidade, saí a ele.

Rio de Janeiro, 1991.

Fardão

Envergo o fardão, há m uito que não fecha, quando fui eleito* era esbelto beletrista, a barriga apenas despontava, hoj e, trinta anos após, é aquela pança, uso o fardão com o se fosse casaca, assim faziam Joaquim Nabuco e Alceu de Am oroso Lim a, assim o faz Barbosa Lim a Sobrinho, ínclitos exem plos.

*Eleito em 1961.

Há quanto tem po não o visto? Serviu-m e quando participei da com itiva de Sarney na visita a Portugal**: Fernando Santana, João Conde, além de um a dúzia de Acadêm icos, em ridículas casacas de aluguel, pavoneio-m e de fardão, algum a utilidade term inou por ter. Na Academ ia serviu-m e raras vezes, avesso às sessões de gala fuj o às solenidades, m al-educado não com pareço à posse dos confrades. Essa é a segunda vez que nele m e enfio para receber um colega, a prim eira foi para dar as boas-vindas a Adonias Filho, am igos de infância nas roças de cacau, nas ruas de Ilhéus, adversários políticos desde a j uventude, ele integralista, eu com unista, fraternos a vida inteira. De Dias Gom es sou am igo, am igo antes de tê-lo conhecido, pois seu irm ão Guilherm e foi m eu colega na Academ ia dos Rebeldes, o atual Acadêm ico usava calças curtas. Dessa vez recebo não um adversário e, sim , um correligionário da esquerda, a luta reforçou ainda m ais nossa am izade; som os com padres, não carregam os preconceitos: Zélia e eu, ateus, batizam os a filha do outro ateu.

**Viagem a Portugal em 1986.

Quando ele m e telefonou convidando-m e para saudá-lo no dia da posse eu preveni com lealdade: estás com etendo um erro, com padre, sou incapaz de fazer a análise que tua obra m erece e reclam a. Porque não convidas um papa da crítica literária — tens dois na pequena bancada baiana, Afrânio Coutinho e Eduardo Portella e, nas fileiras da esquerda, nosso m estre Antônio Houaiss que pelo saber e pelas virtudes m erecia ser baiano. Não aceitou m eus argum entos, tive de envergar o fardão e m andar brasa.

Alegrou-m e o coração fazer o elogio do dram aturgo, o do palco e o da televisão, criador de tantas figuras que reunidas são o povo brasileiro, louvar o cidadão cuj a vida decorreu na luta por um a sociedade m elhor, m ais j usta, m ais digna para esse povo do qual é filho e pai ao m esm o tem po. A obra de Dias Gom es é um a dessas poucas que se incorporam à criação anônim a da gente brasileira. Zé do Burro não é apenas personagem de peça de teatro, de film e de cinem a, é sím bolo e referência. Os heróis de suas peças deixaram de lhe pertencer, sua criação virou dom ínio público, bem de todos, patrim ônio nosso. Glória m aior não pode desej ar um escritor.

Ressaltei em m eu discurso a im portância da dram aturgia televisiva. Sendo um de seus criadores, dos m aiores, sem dúvida de todos o m ais popular, com ela Alfredo presta serviço ao povo, fonte de sua inspiração, com a m esm a lealdade e paixão com que o serve nas peças levadas à cena nos teatros. Apenas com a televisão alcançou um público im enso, pôde influir sobre m ilhões, am pliou as fronteiras de seu com bate. Sua novelística de televisão proporcionou aos brasileiros as horas de diversão tão necessárias, forneceu-lhes m atéria viva para a reflexão e a ação. Sei que falar em divertim ento na tevê ou de qualquer outro tipo é tocar num tabu dos intelectuais. Não posso esquecer Oriana Fallacci, literata italiana, radical brasileira, na sacada do hotel de cinco estrelas em Copacabana, indignada ao ver o povão no banho de m ar: gente ignara no vício da praia em vez de em punhar as arm as da guerrilha. Mesquinhos e estreitos, os papas de nossa inteligentzia, não lhes parecendo punição suficiente a vida m iserável a que a população brasileira está suj eita, querem lhe retirar o direito ao ócio, à diversão, à descontração, ao riso: nossos intelectuais têm horror ao povo.

Ao lem brar que j ornal português atribui-m e a autoria de um a de suas novelas de televisão, O Bem Amado, contei da tribuna um a história que se passou em Lisboa, o protagonista foi João Ubaldo Ribeiro — aproveitei a circunstância para propor a candidatura à Academ ia desse escritor universal: tam bém baiano e tam bém com padre.

Em com panhia de João Ubaldo, fazíam os com pras no Rocio, Zélia e eu: na loj a um a das vendedoras m e reconheceu, foi aquele burburinho, a novela adaptada de Gabriela por Walter Georges Durst obtivera sucesso em Portugal, por isso, com frequência, sua autoria m e é atribuída, a dela e a das dem ais: as balconistas queriam saber se eu era o gaj o que escreve as novelas de televisão. É ele, sim, o autor de todas elas só que às vezes em lugar de assiná-las com o próprio nome, as assina com o pseudônimo de Janete Clair.

Janete Clair, ela tam bém pioneira da dram aturgia televisiva, a prim eira esposa, m ãe dos filhos m ais velhos de Alfredo, das m eninas m enores a m ãe, m inha com adre Bernadete, resplandece feliz no dia da posse do m arido na Academ ia. Esquecia-m e de consignar que o novel Acadêm ico foi eleito apesar de m ilitante com unista, bem haj a, com o se diz em Portugal. Ao recebê-lo, eu lhe digo axé, em língua negra da Bahia.

Zurique, 1948.

Rato de livraria

Aos quatorze anos eu lia Vargas Vila, escritor venezuelano, adquiria os livros na Librería Española, do galego Leon Santos, Dom Paço, na Praça da Sé. Que fim teria levado Vargas Vila? Não lhe encontro o nom e no Petit Larousse, tam pouco no Petit Robert.

Já no Rio, aos dezenove anos, li os rom ancistas revolucionários, com eles m e identifiquei, decidi ser um a m ais na predica da j usta causa. O rom ance de Kurt Klaber, com prefácio de Thom as Mann, Passageiros de Terceira, proclam ava-se romance proletário. Mais do que a técnica, redigido todo em diálogos, m ais do que a descrição da viagem de volta à pátria de em igrantes alem ães desencantados com os Estados Unidos, a qualificação m e seduziu. Cacau subtitulou-se romance proletário.

Na Europa, em 1948, busco m e inform ar sobre o destino do escritor alem ão que m e influenciara, em Paris ninguém sabe dele, em Rom a nem o nom e lhe conhecem . Em Zurique, porém , um rato de livraria, Madam e Utzel, os cabelos despenteados, as m ãos suj as de tinta, m e dá notícia do desaparecido. O rom ancista proletário, com a tom ada do poder pelo nazism o, asilara-se na Suíça onde vivia.