Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 255 de 262

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Bahia, 1987.

Com Gorbachev estive apenas um a vez, no j antar que ofereceu a Sarney, no Krem lin: citou-nos, a m im e a Oscar Niem ey er, no discurso com que saudou o presidente brasileiro. Vej o-o no vídeo no m om ento em que deixa o poder, não o faz com o desafogo de quem se liberta de um fardo e, sim , com desencanto, decepcionado, vencido, perdeu as últim as batalhas da guerra que em preendeu para m udar a face da URSS e do com unism o.

Gosto cada vez m ais de Gorbachev, em verdade devo dizer que voltei a m e solidarizar com ele no m om ento do golpe de estado, os ortodoxos em desespero na investida final para dar m archa atrás e proclam ar ainda um a vez o stalinism o. Dele eu m e distanciara quando, tem eroso do futuro, tentou sustar o processo que ele próprio desencadeara com coragem , patriotism o e clarividência, buscou aliar-se com os conservadores, os reacionários, em lugar de disputar o com ando dos progressistas, na m esm a ocasião em que Chevardnadze pediu dem issão do cargo de Ministro do Exterior — ainda ouvirem os falar desse georgiano, tenho certeza. Ao duvidar, ao recuar, Gorbachev com eçou a despedir-se do poder.

Vendo-o abandonar o gabinete onde trabalhou, veio-m e à m em ória a profecia de Ignacio Silone, m estre italiano do rom ance, quando disse a Palm iro Togliatti*: A luta final se dará, um dia, entre os comunistas e os ex-comunistas. Entre o com unista soviético Mihail Gorbachev e o ex-com unista e grão-russo Boris Ieltsin.

*Palmiro Togliatti (1893/1964), político italiano, por muito tempo secretário-geral do PC.

Ainda meio dormido, as vésperas dos oitenta anos, estendo o braço, toco teu corpo, sinto teu calor, tua respiração. Amanhece, a luz do novo dia desponta tênue na barra da manhã, penso nos privilégios que detenho, mordomias. Teus olhos, teu sorriso, os seios, o ventre, a bunda, o coração, a inteireza, a decência, a mansidão, o devotamento. A vida nasce de ti na madrugada.

Bahia, 1987.

Odorico

Sonhei com Odorico Tavares, vinha ao m eu encontro trazendo o neto pela m ão, levantara-se da cadeira de rodas, liberto da paralisia, de novo grandalhão e ruidoso a desafiar-m e para o pôquer: venha se é hom em , hoj e é m eu dia, arruíno todos os canalhas, vocês todos.

Cortava-m e o coração ver Odorico, um com andante, para-lítico, reduzido, no fracasso do esforço para se exprim i; o neto o salvou do pior, um a réstia de alegria. Godofredo Filho m e telefonava: vam os lá, vam os visitá-lo, Godô ia todos os dom ingos, eu o acom panhava se para tanto reunia coragem . Um dia foi Maria* quem m e telefonou: Odorico pedia-m e para ir sem falta naquela tarde, assunto urgente a tratar com igo, lá m e fui. Com o neto ao lado, m e sorriu, nada de im portante a conversa, era para despedir-se que m e queria ver. No decorrer de um a sem ana m orreram ele, Gersina e Jader, pai, m ãe e filho, uma tragédia, disse-m e o sogro de Jader, Uly sses Mascarenhas**, estrangulando um soluço.

Conheci Odorico em 1933, publicara no Recife, em co-autoria com Aderbal Jurem a***, um a coletânea de 26 Poemas, de tem ática social e afirm ação política, dois j ovens com unistas. Encontram o-nos pela prim eira vez na instalação do Congresso Juvenil Estudantil Proletário e Popular no Teatro João Caetano, no Rio: realização do pecê, no conflito com a polícia Aderbal levou um tiro no pé, Odorico e eu escapam os ilesos.