Navegação de Cabotagem
Bahia, 1943.
O pedido de casamento
Durante o dia a agitação política, durante a noite a boêm ia Wilson Lins e eu inseparáveis, unha e carne. A azáfam a no j ornal, O Imparcial que o coronel Franklin* com prara dos integralistas, transform ara em órgão de com bate ao Eixo nazi-fascista. A gazeta nos tem pos dos galinhas-verdes fora dirigida por Mário Sim ões e Mário Monteiro, diretor de redação e diretor financeiro, m ereceram epigram a de Pinheiro Viegas, nunca j am ais ninguém usou a arm a baiana do epigram a com tam anha exatidão, pontaria tão certeira, com o fez Viegas: Mário Simões bis Monteiro / Remontaram o Imparcial / São quatro mãos no dinheiro / São quatro pés no jornal.
*Franklin Lins de Albuquerque (1881/1944), industrial e fazendeiro.
Após a virada da cam isa, Wilson e seu irm ão Teódulo dirigiram O Imparcial, Wilson na redação, Teódulo no caixa Wilson e eu redigíam os as m atérias políticas, Edgard Curvelo punha acento e pronom es em nossas ousadias, com punham a redação Lafay ete Coutinho, Acácio Ferreira e um sobrinho de Wilson, Napoleão de nom e e de esperteza, foca para todos os serviços, possuía cabeça descom unal, fora de todas as m edidas. Quando ele passava perto, o bom Waldom iro j á nas alturas — com eçava a beber ao acordar do porre da véspera — batia-lhe um tapa na cabeçorra, explicava: penso no que minha irmã sofreu para parir esse macrocéfalo! Teódulo, sóbrio e responsável, buscava controlar nossos excessos, em brião do político que viria a ser, parlam entar exím io nas conversações de bastidores, acordos obtidos nos corredores do Congresso.
Pela tarde, rotina quase quotidiana, no Largo da Sé, na Praça Municipal, no Cam po Grande, os com ícios: por baixo do pano da guerra, do apoio às Nações Unidas, o veneno da denúncia do Estado Novo na oratória de sotaque e sutileza. Wilson e eu éram os habitues dos palanques antifascistas, com Edgard Mata, Giocondo Dias, Luiz Rogério, João Falcão, Fernando Santana, bons tem pos aqueles, com andávam os a Bahia.
Pasquineiro tem ido, m estre dos m estres da crônica, de Ruy Espinheira Filho, Luiz Henrique, Arm ando de Oliveira, Adem ar Gom es, Oleone Coelho Fontes, José Berbert, Guido Guerra, na im prensa baiana a crônica floresce, Wilson escrevia os editoriais do j ornal, eu redigia um texto diário, assinado, Hora da Guerra, j untos, ele e eu, fazíam os m etade da gazeta. O m elhor da folha no entanto era um alto de página não m aior de dez ou doze linhas, grifo em um a coluna sob o título de José, o Ingênuo. Inventáram os dois personagens que fizeram época: além do crédulo José, baseado em nós m esm os, e João, o Sabido, cópia de intelectualoide dublê de latifundiário, m agnata dublê de com unista. Havia quem adquirisse o j ornal som ente para ler a boutade, a gozação, a farpa, a risada de José e João, o ingênuo não tão ingênuo, o sabido um tanto tolo.
Um dia, nos com eços de 1943, redigim os, Wilson e eu, editorial que provocou escândalo e quase fecha O Imparcial: propúnham os o estabelecim ento de relações diplom áticas entre o Brasil e a União Soviética, se estávam os j untos nas trincheiras da guerra contra o Eixo, por que continuar na política de avestruz, a cabeça enfiada no chão para não enxergar a realidade, por que desconhecer a URSS, tê-la de inim igo quando éram os aliados? Acontece que éram os aliados, sim , porém continuávam os inim igos, o tabu persistia, a interdição, a censura: os fascistas no governo, m uitos e poderosos, não adm itiam que se pensasse, quanto m ais reclam asse relações diplom áticas com o Im pério do Mal que, esperavam eles sem ousar dizer, Hitler estava em trem de destruir. O editorial desencadeou o fim do m undo, estabeleceu-se o j uízo final, não fossem os bons ofícios de Jorge Calm on o j ornal teria sido fechado. O coronel Franklin não soubera do editorial antes da publicação, não fora ouvido pelos tem erários certam ente tem erosos de seu veto, não teve porém um segundo de vacilação, assum iu a responsabilidade, declarou alto e bom som : fui eu quem deu ordens para escrever. Era assim o m andatário do sertão do São Francisco.
Durante o dia a política, a guerra, a luta antifascista, à noite o burburinho. Noite alta quando deixávam os a redação, partidos para a esbórnia, o cabaré, o j ogo, o tango arrabalero, as senhoras putas. Wilson, boêm io sem term o e sem m edida, chefiava um a caterva de valdevinos: Mirandão, Vadinho, Giovanni, Clóvis Am orim , Mirabeau Sam paio. Ceávam os nos castelos, com ia-se do bom e do m elhor, bebia-se cachaça e cervej a, o uísque ainda não estava em m oda. Tão inconsciente e incorrigível era Wilson a ponto de ter ido na noite do dia seguinte ao do casam ento de Mirabeau com Norm a buscar o com panheiro de farra: está na hora das putas, Mirabeau, venha logo. Norm a o expulsou:
— Fique sabendo que para Mirabeau só existe agora um a puta, sou eu, sua m ulher, as outras ficam todas pra você.
Íam os às nacionais e às estrangeiras, as portenhas, xodós, paixões violentas, Wilson am eaçava a argentina com o revólver, filho do coronel Franklin tinha fam a de truculento, sanguinário, era pom ba sem fel, nunca puxara do gatilho, não sabia atirar. Am eaçava com o revólver e com o corte das m ordom ias, a fam a da generosidade de Wilson corria no sul do continente, as cabronas vinham de Buenos Aires, de La Plata, de Montevidéu e Punta del Este atrás do perdulário. Cantavam no Tabaris, prim a-donas na m edida da aposentadoria, arriscavam fichas nas salas de j ogo, nos educavam no sessenta-e-nove e em outros refinam entos da civilização do Rio da Prata.
Não nos restringíam os às profissionais, gastávam os as am adoras, num erosas, filhas-de-fam ília, patriotas das Nações Unidas, com batentes da Bebecê, referência válida tanto para a cadeia inglesa de rádio que transm itia as últim as notícias do front quanto para a confraria de boca, boceta e eu, form ada pelas m eninas que davam de graça aos literatos e aos antifascistas, bravas com batentes da causa sagrada, nem por nacionais, j ovens e de boa fam ília, m enos capazes que as preclaras argentinas e uruguaias — paraguaia conheci apenas um a, m estiça de índia guarani, valia dez castelhanas de sangue azul. Havia um séquito de j udias, estudantes nas faculdades e na sinagoga: denunciávam os o anti-sem itism o na tribuna dos com ícios, nas colunas dos j ornais pregávam os a com unhão das raças, flertávam os as m eninas das tribos de Israel.
Nas areias de Mar Grande, em fins de sem ana, diante do oceano, despíam os Maria do Cabula, quase cunhada de Wilson por teúda e m anteúda de Teódulo, com igo não tinha parentesco e Wilson não cultivava preconceitos de afinidades fam iliares. Fosse na praia, fosse no consultório de Mirabeau, Maria do Cabula se fazia acom panhar por um a curriola de am igas, cada qual m ais cativante. Um a delas, funcionária pública, feia de cara, ótim a de corpo, noiva e virgem , habitue do consultório de Mirabeau, gostava de tom ar na bunda diante das j anelas que davam para o m ar e a cidade baixa, dali avistava a m atriz do Banco onde o noivo labutava de escriturário. Na hora do enrabanço debruçava-se na j anela, arrebitava as ancas, ao sentir a estrovenga penetrar, gritava em direção ao futuro esposo: 'tou tomando no cu, seu corno! Com o que atingia o orgasm o, o delírio, esqueci-lhe o nom e, será que Wilson ainda se lem bra?
Assim de luta política e devassidão se com punha nossa vida, defendíam os com coragem o direito do hom em à liberdade, à dem ocracia, e o fazíam os na descontração, não posávam os de heróis e não tínham os am bições, nos divertíam os — e com o! Wilson, Giovanni, Mirabeau, os três m osqueteiros, o quarto era eu, tínham os dos m osqueteiros o desprendim ento, a audácia e a fantasia, o am or à aventura.
Eu passava diariam ente na redação às onze horas para estabelecer com Curvelo o espelho da edição, Wilson aparecia som ente à tarde, não se levantava do leito rioplatense antes do m eio-dia. Assim m e surpreendi certa m anhã ao encontrá-lo no j ornal à m inha espera, m adrugara e estava nervoso. Levou-m e ao gabinete onde o coronel Franklin costum ava despachar assuntos da indústria de cera de carnaúba e dava instruções aos j agunços: de quando em quando um desatinado levava um a surra de facão na noite da falta de j uízo — pisam nos calos do Coronel. Devo dizer que as surras eram raras e, conform e pude constatar e posso testem unhar, todas m erecidas. O executor, um sertanej o m agro e desdentado, de voz m ansa, doce criatura, habitava na oficina do j ornal, viera de Pilão Arcado, especialista em bater sem deixar m arcas.
Fechada a porta, Wilson acendeu o cigano, nem apagam o outro posto no cinzeiro, m e disse: tu vais me fazer um favor, um grande favor. Hoje não é o dia de teu almoço lá em casa? Todas as terças-feiras eu alm oçava em casa do Coronel com ele e dona Sofia, sua esposa, com punha a m esa um a sobrinha, filha de irm ã falecida do velho Franklin, sua pupila. Por vezes um dos filhos, Franklin Júnior, Teódulo ou Waldom iro, nos fazia com panhia. O m otivo do alm oço sem anal era tão-som ente o trato da am izade, nenhum outro, o coronel m e tinha em grande estim a. Tão grande que, detestando o com unism o e m e sabendo m em bro do pecê, ao se referir à m inha posição política dizia-m e russista por não querer m e ofender classificando-m e de com unista, era hom em atento e delicado.
Um gigante na estatura e na conduta, chefe sertanej o de presença definitiva no São Francisco, com andante de j agunços senhor de Pilão Arcado, seus galões de coronel provinham da cam panha em que se em penhara à frente de tropa de cangaceiros, os com bates contra a coluna Prestes, ele a perseguira até vê-la cruzar a fronteira com a Bolívia. Não adm itia que se falasse m al de Prestes em sua frente, com batia-lhe as teorias m arxistas, tinha adm iração pelo chefe m ilitar. Tam anho hom em , de fam a tão considerável, rico e poderoso, j unto à dona Sofia m anso cordeiro. Roceiro analfabeto quando a conhecera professora prim ária, com ela se casara, fora ela quem lhe ensinara a ler e a escrever.
— É hoj e, sim . Tu vais com parecer? O coronel e dona Sofia vão ficar contentes, reclam am sem pre tua ausência.
— De j eito nenhum . Hoj e tu vais m e representar. — Wilson cheio de dedos, quase gaguej ava.
Por fim se explicou. Ele e Anita, a sobrinha, a pupila do Coronel, estavam de nam oro há algum tem po, queriam se casar, Wilson não se atrevia a falar do assunto ao Pai, o Coronel levava a peito seu com prom isso de tutor: a felicidade da sobrinha, seu futuro, queria para ela noivo abastado e sério, hom em de com portam ento irrepreensível, capaz de lhe dar o lar que Anita m erecia, o oposto de Wilson, Wilson o sabia. Tem eroso da reação do Coronel recorria a m eus préstim os, eu tinha prestígio, gozava da confiança do casal. Aceitei a prebenda, am igo é para as ocasiões difíceis, para desatar nó de m arinheiro.
Na m esa do alm oço — a com ida sertanej a de se repetir e pedir m ais — apenas o Coronel, dona Sofia e a própria Anita: espichava-m e uns olhos cúm plices, m ais coraj osa que o nam orado. Ao fim do rega-bofe anunciei ao casal que tinha assunto da m aior seriedade a conversar. Da maior seriedade? Diante de m inha afirm ativa o Coronel deu ordens para que abrissem a sala de visitas, am pla, com piano de cauda, de m arca am ericana Steinway, na fam ília ninguém tocava, os m óveis negros, pesados, de luxo, vestidos com capas de algodão para que não se estragassem . As salas de visitas dessas casas ricas só eram abertas em ocasiões solenes, para receber visitas im portantes, para o trato de assuntos de relevância. A sala de visitas do Coronel Ram iro Bastos em Gabriela não é outra senão a do coronel Franklin, na Lapinha.
Sentam o-nos os três, a voz grave, anunciei: vim aqui, hoj e, pedir a m ão de vossa sobrinha Anita, vossa pupila, em casam ento.
Sabendo-m e casado, m esm o estando separado, o Coronel estrem eceu nas bases, dona Sofia m anteve-se serena: Hem? Em casamento? Que quer o amigo dizer? De im ediato esclareci para acalm á-lo: não para m im , é claro, é para um am igo m eu, faltando-lhe coragem para vir em pessoa pediu-m e para lhes transm itir seu desej o de ser o esposo de Anita. Quem é o indivíduo? Que garantia nos dá de que fará Anita feliz? Tem condições de constituir e manter família? Para minha pupila não é qualquer um que serve.
Disse que o candidato, sendo filho de pais ricos, possuía de seu apenas em prego num j ornal. Jornalista? — o Coronel torceu o nariz, dona Sofia nem tugia nem m ugia. Ouça, Coronel, não quero lhe enganar, m entir a respeito do fulano só por ser m eu am igo, o cara não é lá essas coisas, pelo m enos no que se refere à m oralidade. Diverti-m e traçando um quadro negativo se bem veraz do dia-a-dia do candidato: boêm io, vivia na perdição da vida noturna, dado aos j ogos de baralho, desatinado apostava em par de oito na m esa de pôquer, frequentes casos com m ulheres de deplorável condição, bebia, tendo sido integralista virará a casaca para a esquerda, não queria saber de outra profissão senão a de escrever, j á publicara livro, am eaçava com outros, com o partido eu próprio concordava que não era dos m elhores. O rosto do Coronel se ensom brecera: diga-me o nome do atrevido! Vai dar ordens ao executor, ao habitante da oficina, pensei e ri por dentro.