Navegação de Cabotagem
Wroclaw, Polônia, 1948.
Antes que cheguem Ody lo e Magalhães Júnior, tam bém convidados, Gilberto leva -m e ao gabinete, desdobra sobre a m esa e trabalho preciosidade recebida de presente em Am sterdã, onde estivera: pergam inho antigo, m apa traçado quando da derrota dos holandeses, ao fim da tentativa de colonização das terras do nordeste. A carta m ostra lugares de Pernam buco, Alagoas, Sergipe, norte da Bahia, localidades nas quais fam ílias vindas da Holanda ou constituídas no Brasil pelos invasores deixaram -se ficar, não quiseram voltar à pátria de origem . Lá está em Sergipe, m ais exatam ente em Estância, terra de nosso avô José Am ado, de nossos pais, o nom e de fam ília dos Am ado. Gilberto aponta com o dedo:
— Som os holandeses! — exulta com a descoberta.
— Será? — exponho m inhas dúvidas: — Não te esqueças que na com itiva de Nassau vieram para a colônia holandesa os j udeus que ao fugir da Inquisição em Espanha e Portugal se abrigaram na Holanda, Nassau os trouxe para o Brasil, m uitos aqui ficaram . Não te esqueças tam bém que existe Am ado às pam pas em Portugal, na Espanha, no Médio Oriente, quem sabe esses Am ado de Estância eram j udeus sefardins? Batavos ou j udeus, gente boa.
Gilberto olha-m e com pouca sim patia, enrola o m apa, guarda-o na gaveta, que eu saiba não voltou a exibi-lo nunca m ais.
Não existe, nunca existiu, decerto jamais existirá guerra tão estúpida, tão monstruosa, tão fratricida quanto esta em que se confrontam judeus e árabes no massacre de populações civis, no terrorismo, no holocausto de inocentes, no preconceito, no atraso, no racismo. Guerra de família, ah o ódio entre os irmãos!, não há guerra assim tão desatinada, despida de qualquer razão, guerra para servir a interesses dos fabricantes e traficantes de armas, dos comerciantes da morte: deviam estar na cadeia, estão nos palácios, dão ordens aos governos. No Oriente Médio, semitas uns e outros, primo-irmãos, árabes e judeus matam e morrem por terceiros: fruto da guerra fria, telecomandada de Washington e Moscou, essa guerra, mais que outra qualquer, é a negação do humanismo, é o cancro do racismo, a lepra da intolerância, a aids do espírito de seita: tenta apresentar-se luz do tabernáculo, pedra sagrada de Meca e de Medina, quando é o oposto da fé e da cultura.
Ah, essa guerra entre irmãos judeus e árabes, noite da Idade Média na madrugada do século XXI, é necessário terminar com ela o quanto antes. Para que existam, livres e fraternos, o Estado de Israel, pátria de judeus, e o Estado da Palestina, pátria de árabes, a poesia do rei Salomão, a inventiva de Sheerazade, Moisés e Maomé nasceram do mesmo ventre de mulher na travessia do deserto.
Quando da guerra dos seis dias, na cidade de São Paulo, no país Brasil onde as raças se misturaram, uniram-se judeus e árabes, brasileiros uns e outros, desfilaram no mesmo cortejo de paz e humanismo, juntos disseram não à carnificina, ah, o orgulho de ser brasileiro cresceu dentro de meu peito, orvalhou meu coração. Depois as missões diplomáticas dos países árabes e de Israel impediram, usando de todos os meios de pressão, que a manifestação se transformasse em exemplo para o mundo. Velho brasileiro mestiço, tenho em minhas veias sangue judeu e sangue árabe, prossigo na passeata de São Paulo: enquanto durar a guerra imunda não aceitarei convite ou honraria que me venha do estado judeu, do mundo árabe, sou o irmão de Amos Oz*, o mabaça de Naguib Mahfuz**, quero atravessar a fronteira dos Estados da Palestina e de Israel, no dia da paz, quando a família dos semitas de novo se sentar à mesa para repartir o pão.
*Amos Oz, escritor israelense.
**Naguib Mahfuz, escritor egípcio, Prêmio Nobel de Literatura.
Wroclaw, Polônia, 1948.