Navegação de Cabotagem
Madri, 1986.
Do sangue derramado na luta pela posse da terra, adubo sem igual, não floresceram apenas as roças de cacau, os frutos de ouro da riqueza, floresceu também a cultura grapiúna, singular. A poesia e a ficção nasceram da conquista da mata, da colonização de sergipanos e árabes, da luta contra o feudalismo — os primeiros sindicatos rurais do Brasil surgiram nas lavras do cacau e a lei medieval foi rompida por moços socialistas, João Mangabeira exerceu a Prefeitura de Ilhéus.
Os coronéis do cacau queriam orgulhar-se de filhos doutores, advogados, médicos, engenheiros, lá fomos nós para os colégios da capital, os dos padres jesuítas, maristas, salesianos, os leigos, o Ginásio Ipiranga de Isaías Alves de Almeida*. Nos internatos aprendemos português e aritmética, nas roças, nos povoados, na gestação das cidades aprendemos a vida. Assim brotou a flor da poesia, Sosígenes Costa, Florisvaldo Matos, Teimo Padilha, amadureceu o fruto da ficção, Elvira Foeppel, Adonias Filho, James Amado, Sônia Coutinho, Hélio Pólvora, Cyro de Mattos, Euclides Neto, o árabe Jorge Medauar, o sergipano Marcos Santarrita, os doutores do cacau, filhos dos coronéis. Sou um deles, possuo um mérito, único: ter sido aquele que primeiro começou a contar a saga das terras grapiúnas.
*Isaías Alves de Almeida (1888/ 1968), educador.
Madri, 1986.
O ipsilone
Rafael Alberti* term ina a leitura do texto afetuoso, honrou-m e vindo dizer de sua estim a da tribuna desta Sem ana do Autor dedicada a m eu trabalho**, a sessão é suspensa, os leitores se aproxim am , trazem livros, pedem autógrafos. Um a senhora de m eia-idade, pim pona, m aquiada, lábios no acinte do batom verm elho, sobe ao estrado, se apresenta, recorda:
*Rafael Alberti, poeta espanhol.
**Realizada em 1987.
— Eu lhe escrevi para a Bahia há vários anos querendo saber com o era o ipsilone de Tieta, se lem bra...
Lem bro-m e m uito bem , em m eio às cartas de leitores a dela cham ara-m e a atenção, m ostrei-a à Zélia: vej a esta carta, engraçada... Havia sido lançada a edição espanhola de Tieta do Agreste, pastora de cabras. Tieta, com o sabe quem leu o livro, era disposta, não usava m eias-palavras e não tinha m eio-term o em sua atuação pública e privada, nos deleites de cam a doutora de borla e capelo, sabia os abecês inteiros, o latino, o gótico, o cirílico, todos os dem ais, sem esquecer o Kam a Sutra da prim eira à últim a página. Entre os refinam entos, o rom ance refere o ipsilone, especialidade de Tieta: praticava o ipsilone sim ples quando devorada pelo desej o, em desvario de paixão recorria ao ipsilone duplo.
A leitora espanhola estende-se em percalços de vida e de Cam a. Casada com m arido pudibundo, lim itara-se ao papai-e-m am ãe por m ais de quinze anos, só após a m orte do cônj uge veio a conhecer o orgasm o pleno e o prazer do corpo, um prim eiro am ante iniciou-lhe a educação, outros a com pletaram , form ou-se, fez m estrado e doutorado, igual a Tieta é honoris causa, sabe tudo na ponta da língua e do grelo, ai, só não sabe o ipsilone, j am ais o praticou, desej a praticá-lo, o quanto antes Pede-m e os detalhes do requinte. Sai dessa!, diz-m e Zélia devolvendo a carta.