Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 250 de 262

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Paris, 1990.

 

Os suicidas

Malas feitas, de partida para Madri, vam os participar, Zélia e eu, dos cursos de verão da Universidade Com plutense, acabam os de cham ar o táxi que nos levará ao aeroporto, o telefone soa, atendo, é Jacques Danon:

— Mestre Jorge, acabo de chegar em Paris, preciso te ver, falar contigo com a m aior urgência, estou perdido, não sei o que pensar, não consigo entender o que está se passando, o m undo vem abaixo, estou m e esvaziando, sofro pra caralho.

Fala sem parar, em agonia, repete um a, duas três vezes que precisa m e ver, falar com igo, som ente eu posso lhe explicar. Porque confia em m im , eu sei, Jacques veio m ocinho para Paris com bolsa de estudo de ciências, eu o apresentei a Irene e Frédéric Joliot-Curie em cuj o laboratório foi trabalhar, ali iniciou a carreira que faria dele no correr dos anos cientista de renom e m undial. Tam bém fui eu quem o apresentou a Madam e Leclerc*, m ãe de Anny ** com quem Jacques se casou.

*Françoise Leclerc (1908/1983), dirigente do movimento da paz.

**Anny Prouvost Alvarez, cientista.

Entre os expulsos da França, na leva dos vinte e tantos castigados, estava Jacques, na polícia disseram -lhe o m otivo por que o punham fora das fronteiras: por ser secretário de Jorge Am ado — em verdade cam arada de partido, de ideias, am igo. Se existe alguém no m undo que confia em m im , esse alguém é Jacques Danon.

Quanto desespero, Jacques não é o único nem o prim eiro, sei de m uitos. Hom ens e m ulheres, pessoas m agníficas, de súbito se encontram desam paradas, esvaziadas, m ergulhadas na dúvida, na incerteza, na solidão, perdidas, à beira do suicídio. O m undo do leste, o do socialism o real, se esboroa, aquilo que inspirou e conduziu pela vida afora m ilhões de criaturas, o ideal de j ustiça, de beleza pelo qual se bateram , pelo qual tantos sofreram perseguição e violência, exílio, cadeia, tortura, se transform ou em fum aça, em nada, em coisa nenhum a, foi apenas m entira e ilusão, m ísero engano, ignom ínia. De m uito sei nos lim ites da angústia, com o se a noite eterna, sem esperança de luz do dia, se houvesse abatido sobre o m undo de vez e para sem pre. Ainda há poucos dias, com Joelson e Fanny vieram nos visitar um m édico de São Paulo e sua m ulher, m eus velhos conhecidos da m ilitância com unista. Faltavam -lhes as palavras para falar das transform ações, do fim de um tem po, sobravam o nó na garganta e a dor no peito, os olhos úm idos do cam arada, as lágrim as de sua com panheira.

Canso-m e de explicar aos que perderam o norte: de m im não vej o m otivo para desespero e suicídio. Perm anecem atrozes e urgentes os problem as por cuj a solução nos batem os, o sonho que sonham os perm anece íntegro em seu fascinante desafio. Apenas rasgou-se o véu da fantasia, viu-se exposta ao sol a indigente nudez das ilusórias ideologias que cerceiam e dim inuem o ser hum ano, arm as de opressão, fábricas de ditaduras: veio abaixo o que era falso e feio, podre e perverso.

Não se trata, com o os reacionários desej am fazer crer, da batalha final no confronto histórico entre capitalism o e socialism o, o com bate se trava entre dem ocracia e ditadura. Não é o socialism o que está acabando, e, sim , contrafação fraudulenta e desum ana, o cham ado socialismo real, im posto por déspotas através da m ais m onstruosa m áquina de em buste e opressão. Socialism o sem dem ocracia significa ditadura e nenhum a ditadura presta, sej a de direita, sej a de esquerda, a m esm a m erda.

Há dois séculos a Revolução Francesa m udou a face do m undo, novos valores, m aiores, se estabeleceram , a vida tornou-se m ais j usta e m ais bela. Mas os cam inhos da dem ocracia foram abandonados para dar lugar à ditadura sangrenta do Terror, ainda m ais degradante porque exercida em nom e do povo, houve volta atrás sem elhante à que hoj e acontece na URSS e nos países ditos socialistas. De Napoleão à restauração dos Bourbons, o avanço da sociedade parecia term inado, acontecia o regresso às trevas. Tal retorno ao passado não significou, no entanto, o fim , a liquidação dos valores novos e m aiores trazidos no boj o da Revolução Francesa, o m undo não voltou a ser o m esm o de antes, aquele que a Revolução destruiu, liquidou para sem pre. Tam bém a Revolução de Outubro, a Revolução Socialista, m udou a face do m undo e a vida dos hom ens, e o fez para sem pre. Os valores novos e m aiores por ela proclam ados persistem m ais além da suposta derrota de hoj e. Foi válida a luta que nos coube lutar por m ais grosseiros e terríveis tenham sido os erros com etidos.

Foi válida e persiste pois o capitalism o perm anece o m esm o sistem a econôm ico e político falho e inj usto que sem pre foi, em nada m elhorou e, no Brasil, os problem as se agravaram . O quadro atual da sociedade brasileira é deplorável, trágico quotidiano de m iséria e fom e, a guerra contra m ilhões de crianças condenadas ao crim e, o latifúndio sem ifeudal, a devastação do solo, a extinção das florestas e das espécies anim ais, a degradação da natureza, o abastardam ento do caráter das elites. Nosso retrato nacional m ostrado diariam ente nos vídeos de televisão dá vontade de chorar.

Tem os de prosseguir na luta se ainda desej am os ter pátria e chão, se desej am os que a cordialidade e o riso retornem , que o brasileiro retom e suas virtudes de povo, reencontre o canto, a dança, o futebol, o carnaval, a festa.