Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 254 de 262

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Monte Estoril, 1991.

Assim era o consultório do doutor Mirabeau Sam paio, com placa reluzente na porta do edifício. Vindo à Bahia para ilustrar um guia das ruas e dos m istérios da cidade, o pintor paulista Manuel Martins a recriou num a série m agnífica de xilogravuras, ladeiras, becos, igrej as e putas. Num a das salas do consultório de Mirabeau estabeleceu atelier onde ensinou pintura e sacanagem a m oças da sociedade dotadas de vocação artística.

Para não dizer que Mirabeau j am ais teve cliente a atender, desej o recordar que teve um , por sinal francês. Desem barcados de navio de turism o em escala na cidade, os europeus se espalharam nas ruas e nas praias, alguns m ais bem inform ados quiseram conhecer a culinária baiana, um deles tanto apreciou o vatapá, o caruru e as m oquecas de m inha com adre Maria de São Pedro que term inou pelo m eio da tarde com a m aior perturbação intestinal da paróquia: com as calças na m ão saiu em busca de doutor que o pudesse m edicar.

No centro da cidade deparou com a placa do esculápio à entrada do im ponente edifício — Doutor Mirabeau Sam paio, clínica geral —, o nom e Mirabeau despertou no enferm o patriotism o e confiança, devia tratar-se de m édico de prim eira, o francês tom ou o elevador.

Médico de senhoras, constatou ao vislum brar a clientela fem inina num erosa e galante que lotava as dependências do consultório. Quanto ao m édico, ainda j ovem , bem -posto, elegante, falando um francês fluente se bem um tanto acadêm ico, após conversa relaxante e sucinto exam e, tranquilizou-o: nada de grave, nem febre am arela, nem cólera, nem varíola, apenas caganeira natural a quem se iniciava no dendê e no leite-de-coco, na pim enta-m alagueta. Não só o receitou com o lhe forneceu rem édios — am ostras gratuitas que j aziam nos arm ários ao lado do vinho do Porto, do verm ute e do conhaque, nada lhe cobrou pela consulta nem pelos m edicam entos, o m áxim o em m atéria de assistência m édica na opinião do francês. Um único cliente, m as que glória!

Monte Estoril, 1991.

O ex da ex

Entre as com em orações do natal e do ano-novo assistim os na televisão à tragédia da destituição de Mihail Gorbachev, m ais um a vez hum ilhado por Boris Ieltsin. Nós o vem os, àquele que foi todo-poderoso, abandonar a m esa de trabalho, a Presidência da União Soviética, a ex: a URSS j á não existe. O rosto m arcado do estadista não esconde quanto lhe custam a queda, a exclusão, a renúncia a seu proj eto de um estado com unista e dem ocrático: seria possível? Digo a Zélia: cada vez gosto m ais de Gorbachev, cada vez gosto m enos de Ieltsin.

Redij o e envio telegram a a Gorbachev. Agradeço-lhe a ação decisiva com que pôs térm ino à guerra fria, tornou m ais distante e m ais difícil um a terceira guerra m undial, atôm ica, será o fim da vida sobre a Terra, m e disse Frédéric Joliot-Curie em Helsinque, em 1955. Agradeço-lhe igualm ente a ação decisiva com que abriu perspectivas para o estabelecim ento da dem ocracia nas nações que constituíram o im pério soviético e viviam sob a ditadura. Eu o saúdo e a Raisa, sua m ulher, tão gentil em Moscou no trato com Zélia e com igo: meu escritor predileto, Gabriela é meu livro de cabeceira, ainda não sendo verdade, apenas gentileza ou astúcia política, foi agradável de ouvir pois Raisa é bela e inteligente.