Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 30 de 262

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Moscou, 1953.

Na portaria, à frente do grupo, Jean-Claude em punhava um a baguete de pão francês e um a garrafa de Château Chalon, vin j aune de m inha preferência, pronunciou breve discurso. Os franceses quando visitam os amigos levam pão, vinho e queijo, assim o fazemos Françoise e Jean, Nicole e eu ao chegar à vossa casa, à Bahia. Aqui está o pão, entregou a baguete a Zélia, aqui está o vinho, estendeu-m e a garrafa; quanto ao queijo aqui está ele, exibiu docum ento da alfândega, o cam em bert, o roquefort, o brie e o chèvre tinham sido apreendidos — é proibida a entrada de queij os no Brasil.

Não adiantou Jean-Claude dizer ao fiscal que le plateau de fromages m e era destinado. Gentil, porém insubornável, o funcionário riu na cara do editor francês: já sabemos, todos os queijos que aqui apreendemos são destinados a Jorge Amado, todos, sem exceção.

 

Moscou, 1953.

 

Os seios de Valentina

Ily a Erem burg aproveita a sessão do Bureau do Conselho Mundial da Paz para reunir em torno de Kuo-Mo-Jo am igos soviéticos e estrangeiros, um a dúzia de pessoas. Kuo-Mo-Jo, sábio chinês de fam a m undial, na Ásia seu nom e é um a legenda, trata-se do único linguista que conhece cinquenta m il ideogram as, para ler um j ornal basta conhecer três m il, um professor universitário sabe sete, um erudito dez m il. Duas vezes m inistro de Chang Kai-Chek, representando os com unistas nas alianças com o líder nacionalista, m em bro do Bureau Político do Partido Com unista que quatro anos antes, em 1949, assum ira o poder e proclam ara a República Popular da China, da qual é vice-presidente, vice-presidente tam bém do Conselho Mundial da Paz e do Júri do Prêm io Internacional Stalin, eis alguns dos m uitíssim os títulos que Kuo-Mo-Jo ostenta ou m elhor não ostenta, pois é hom em sim ples, sem arrogância, de trato am ável e extrem a sim patia. Um a das figuras m ais notáveis do m undo socialista, um dos líderes m ais respeitados do m ovim ento com unista internacional, anda pelos sessenta anos, não aparenta a idade, chinês não tem idade.

Na sala do apartam ento, a m esa baixa e longa na fartura dos com es e bebes: peixes defum ados, caviar, salm ão, as frutas, a vodca, o conhaque, os vinhos da Geórgia e da Moldávia. Nos dois lados da m esa e nas cabeceiras estam os sentados Konstantin Fedin, Konstantin Sim onov, Podovkine, os franceses Pierre Cot e Vercors, o rom eno Mihail Sadoveanu, o italiano Pietro Nenni* e o casal brasileiro. Sim onov trouxe a esposa, célebre atriz de teatro, elegantérrim a, de beleza cantada em prosa e verso, beleza eslava: os seios pródigos, alvos de leite, saltam do decote generoso, visão fatal. Cham a-se Valentina Ferova, para ela Sim onov escreveu um livro de poem as de am or, sensuais, quase eróticos, que m ereceu a reprovação de Stalin: por que as editoras gastam dinheiro na publicação de livros dessa espécie? Com o quê foi para o pau toda a poesia de am or da União Soviética, a com eçar pela de Maiakowski. Mulher fam osa, com o se vê, a sublim e Valentina: quando m orreu, de há m uito separada de Sim onov, ele com pareceu ao velório, depôs j unto ao esquife m il cravos verm elhos em m em ória, m il, nenhum a m enos.

*Fedin, Simonov, Podovkine, escritores e cineasta soviéticos; Vercors, escritor francês, Pierre Cot e Pietro Nenni, políticos francês e italiano; Sadoveanu, escritor romeno.