Navegação de Cabotagem
Bahia, 1991.
A cada leitor francês que m e reconhece e vem dizer de sua estim a, repito a Zélia a recom endação feita a Anny na Pont Marie, quando a luz do outono refulgia no casario e nas águas do Sena: não contes isso no Brasil, os patrulhadores não perdoarão, no m ínim o serás acusada de em busteira e retirarão m eu nom e da resenha literária.
Bahia, 1991.
Família Caymmi
No dom ingo, Palom a telefona de Paris, ruído de conversação e riso quase lhe encobre a voz:
— Pai, estou oferecendo um alm oço à fam ília Cay m m i que se exibiu em Montreux com sucesso absoluto. Dorival vai te falar.
A fam ília Cay m m i, m inha fam ília. Certa tarde, em 1939, Sam uel Wainer e eu, de padrinhos, levam os Adelaide Tostes, quer dizer Stela Maris, um a vespa pela cintura e pelo resto, cantora de blues na Rádio May rink Veiga, e Dorival Cay m m i, o m oço Cay m m i, cantor das graças da Bahia, à Vara de Fam ília no Rio de Janeiro para que os nubentes assinassem a certidão de casam ento. Enquanto dizem sim ao m agistrado, Sam uel m e pergunta: pensas que ela ainda é virgem ou ele já a papou? — Com o lábio aponta Stela vestida de donzela pura. Conhecendo o noivo com o o conheço de outros carnavais, não escondo m eu ceticism o: é duvidoso.
Do casam ento da radialista e do com positor nasceram Nana, Dori, Danilo, partos felizes para a m odinha brasileira. Prim eiro andou cada qual para seu lado. Stela, com os encargos de m atriarca, aposentou-se dos blues, criar os dois m eninos e a m enina, três capetas, ai, não era brincadeira, a tarefa dem andava energia, firm eza de caráter, tem po e am or, Stela dedicou-se, ganhou a guerra. Dorival, de pouco trabalhar, trabalhou pra burro com pondo o que de m elhor por aqui j á se com pôs, soltou a voz a salvar o m ar, os pescadores, os m estres de saveiro, Itapuã, Yem anj á, Mãe Menininha, o povo da Bahia: para ensinar o que é que a baiana tem , desse sam ba desabrochou um a baiana universal, Carm em Miranda.
Os m eninos quebravam a cara no batente para levar avante a vocação herdada, a voz de Nana, o saber de Dori, o talento de Danilo. Até que um dia Stela os reuniu em torno do m oço Dorival, o m ais m oço do clã, foram de visita a Tom Jobim , cantaram j untos para bem dizer o am igo, e desde então a fam ília Cay m m i passou a ocupar espaço único, inconfundível, no panoram a da m úsica nacional. Agora atravessa as fronteiras, deslum bra os gringos em Montreux.
Nana, Dori, Danilo, filhos de sangue, paridos do ventre de Stela, m eus sobrinhos. Do conúbio de Dorival com Tom Jobim nasceram os dem ais, aqueles que hoj e com põem cantam a canção da luta e da esperança, do sonho brasileiro. São m uitos e m últiplos, vários, os caetano, os gilberto gil, os j oão gilberto, tantos. Todos nascidos na Bahia com o os três citados? Nem todos, alguns não tiveram o privilégio, nasceram por aí.