Navegação de Cabotagem
Bahia, 1928.
*Halldor Laxness, escritor islandês, Prêmio Nobel.
**Jean Laffite, escritor francês.
***Alfredo Gravina, escritor uruguaio.
O furacão desaba, cerca o barco, faz dele gato e sapato, entendo por que se com para navio a casca de ovo na tem pestade, m arinheiros passam apressados, am arram obj etos, a anim ação decai, os literatos entreolham -se no cagaço e no m al do m ar em fúria, com eça a retirada. Zélia foi a prim eira, quase o vento a arrasta e a atira às vagas, um m arinheiro chegou a tem po de am pará-la, aj uda-a a descer para o wagon: nosso trem vai no boj o do ferry -boat. Em i, m arinheiro da poesia, segue-lhe o exem plo, Vercors e Gravina o im itam , Varela pede penico, Laffite resiste gosta de peixe cru, de súbito se levanta e parte com urgência, vom ita no corredor. Insensível que sou ao enj ôo no m ar, benefício das viagens do m enino, do adolescente entre a Bahia e Ilhéus nos navios da Bahiana, acom panho Halldor na m esa m as não na refeição, a aguardente sueca m e esquenta o peito. O rom ancista m e espia pelo canto do olho, até quando se m anterá a resistência do confrade brasileiro?
Sou leitor de Laxness desde m eus anos de exílio no Rio da Prata, lera edições argentinas de Salka Valka e El Pueblo Independiente, tenho sua novelística em grande estim a e o disse de público ao rem eter-lhe o Prêm io Internacional da Paz, do Conselho Mundial, alguns anos depois Laxness ganhará o Prêm io Nobel. Na Coleção Rom ances do Povo, publiquei a tradução brasileira de Estação Atômica, a Editora Vitória, do pecê, não lhe pagou direitos, tam pouco os recebi da editora de Rey kj avik que, a conselho de Halldor, traduziu Mar Morto ao islandês, ele o lera em alem ão.
O furacão brinca com o ferry -boat, o vento uiva, as ondas varrem o convés, estam os encharcados, Halldor dá por finda a refeição, oferece-m e o braço para chegarm os ao corredor, aceito, estou bêbado, rio à-toa: posso não ser tão bom rom ancista quanto tu m as sou um velho m arinheiro, capitão de longo curso. No wagon Zélia m e conta sua odisseia, a história cura-m e a cachaça, sinto-m e culpado, por que a deixei partir sozinha?
Em Estocolm o, Halldor leva-nos a ver a adaptação cinem atográfica de Salka Valka, film e sueco, Zélia aplaude, eu prefiro o rom ance. Em 1958, som os, Laxness e eu, os prim eiros escritores ligados por cordão um bilical à União Soviética a protestar contra a cam panha (vil) desencadeada em Moscou contra Pasternak, a quem havia sido atribuído o Prêm io Nobel: o Doutor Jivago era best-seller m undial. Rom ance de interesse lim itado, em com pensação a poesia do russo é desm edida.
Privei com Halldor Laxness, boa am izade dos tem pos da cam panha pela paz, m as, quando m e lem bro dele, eu o vej o na m esa do barco, a travessa de peixe cru em sua frente, para o rom ancista da Islândia era com o se o furacão não existisse.
Bahia, 1928.
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