Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 198 de 262

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Rio de Janeiro, 1956.

Pagou m as não foi em bora: am abilidade insuperável, levou-nos a um bistrô, tom am os cappuccino, conversam os por m ais de m eia hora. O Conde Valentino Bom pianni, até hoj e sou-lhe grato.

Rio de Janeiro, 1956.

Ante-sala

Vou ao Palácio do Catete buscar o texto sobre Oscar Niem ey er prom etido por Juscelino Kubitschek, Presidente da República, para o núm ero especial que o Paratodos vai dedicar ao cinquentenário de nascim ento de seu diretor-presidente, o arquiteto de Brasília.

No Palácio não encontro Paschoal Carlos Magno, m eu contato com Juscelino, recorro aos bons ofícios de Cy ro dos Anj os* ofícial-de-gabinete. Dele conheço os rom ances, o personagem conheço pouco e m al. Gentil, coloca-se à m inha disposição, o Presidente está em audiência com um Ministro, devo aguardar. Oferece-m e cadeira, dispõe-se a cavaquear. Ora, eu andava tom ado de paixão pela literatura de Guim arães Rosa, j urava por Sagarana, babava-m e ao falar de Grande Sertão: Veredas, ninguém m e ganha em adm iração pelo m estre m ineiro. Sendo Cy ro igualm ente m ineiro pareceu-m e não existir m elhor tem a para ocupar o tem po de espera, desfaço-m e em elogios a Rosa: renovador da língua literária, criador im enso, a hora e a vez de Augusto Matraga, o sertão de Diadorim , a vida dos bravos, o am or e a m orte — quando adm iro não tenho peias na língua. Cy ro dos Anj os parece ouvir-m e com interesse, balança a cabeça, aprovativo, creio.

*Cyro dos Anjos, escritor.

Faço um a pausa, ele tom a a palavra. Guim arães Rosa, de acordo, tudo que eu disse é possivelm ente certo, mas repare, se detenha a examinar e verá que a obra de Guimarães Rosa se apoia sobre três suportes. Primeiro: o manejo dos dicionários para fabricação de palavras, para o que se fazem necessários paciência, método e tempo disponível de quem não tem obrigações a cumprir. Segundo: o conhecimento dos romances de cavalaria, o que é Grande sertão: veredas, me diga, senão um romance de cavalaria? Para finalizar, o terceiro: a sensibilidade feminina de homossexual, basta ler com atenção.

Juscelino encerra a audiência, m anda m e cham ar. Levanto-m e, atarantado recolho os restos m ortais de Guim arães Rosa. Cy ro dos Anj os retorna a seus papéis de burocrata.

Um conto se conta, não se explica e quanto ao personagem deve ser pessoa em carne e osso com sangue nas veias e miolo na cabeça, não um títere em mãos do romancista. Sinto que o personagem está posto de pé quando se recusa a fazer aquilo que não cabe no contexto de sua personalidade, acontece por demais, eu poderia escrever uma brochura contando casos sucedidos no decorrer de meu trabalho.

Por mais de uma vez referi o que se passou com dona Flor: quando eu me aproximava do fim da história de seus dois maridos, chegou à Bahia minha sobrinha Janaína*, sabia do romance, interessou-se em saber mais. Dona Flor no dilema, querendo dar a Vadinho, o primeiro marido, a saudade, o desejo de novamente transar com ele o tinham trazido de volta, viera da morte, cobrava o preço da viagem, dona Flor morria de vontade de pagar. Por outro lado ela era uma pequeno-burguesa amarrada aos preconceitos de honra conjugai, o casamento com o doutor Madureira a elevara da pequena à média burguesia, fortalecera-lhe o respeito às convenções, às leis, aos vetos, Dona Flor era o oposto da adúltera, jamais pensara trair o farmacêutico, pôr-lhe os chifres.

*Janaína Amado de Figueiredo, historiadora, professora universitária, filha de James.

Eu chegara exatamente às páginas que precediam a entrega de Dona Flor, o amor vencendo as barreiras, o amor acima das limitações. Disse a Janaína: está claro que ela vai dar, não deseja outra coisa. E depois, tio, com o vai acabar o livro, com o será o final?

Pesando os prós e os contras, recordando o ebó mandado fazer por Dona Flor para obrigar Vadinho a retornar ao nada de onde chegara, imaginei que não tendo resistido, tendo se realizado, a boa esposa ficara ao mesmo tempo morta de vergonha e de remorso por haver traído a confiança de Teodoro, na ânsia e no desespero ao ver o ebó produzir efeito, Vadinho se dissolvendo no ar, Dona Flor irá com ele em sua viagem do nunca mais. Penso uma página poética onde o leitor perceba que ela está delirante, febre e despedida, vai morrer junto a Vadinho, só a morte compensará seu crime. Bonito, elogia Jana.

A sobrinha viajou, prossegui no meu trabalho, como eu pensava Dona Flor chegou ao fim da resistência, gemeu de novo ais de amor na estrovenga de Vadinho, escrevi a cena à noite — naquele tempo, bons tempos, ainda escrevia à noite —, fechei a máquina, fui dormir. No dia seguinte retomei o romance, eis que estando Flor nua na recordação do gozo, um resto de desejo no xibiu, Teodoro Madureira entrou no quarto metido no pijama de listras, bonitão Ao vê-la nua, subiu-lhe o pau, desceu a calça do pijama, montou na esposa bem-amada, ele por cima ela por baixo como manda a boa educação. Deu-se que Dona Flor achou bom, nem por ser feita de mel e pimenta a vara de Vadinho anulava o gosto de chá de camomila da arma bem-proporcionada e valente do farmacêutico. Tendo gostado de um e outro e tendo perdido a viseira que lhe cobria a visão e limitava a aventura, Dona Flor sem me consultar, muito menos me dar satisfação, ficou com os dois maridos, o devasso e o bom doutor, ora apimenta, ora o chá de camomila, gostava do molho picante e da suave beberagem.

Zélia chegou à sala, eu comentei: essa tua amiga Dona Flor saiu-me uma salafrária, quem diria. Por falar em Zélia, até hoje me crítica por não ter feito no romance de Gabriela o casamento de Gerusa e Mundinho Falcão, eu lhe digo que não sou padre nem juiz, não faço casamentos, quem os faz é a vida, por amor ou interesse. O romance tem um tempo e um espaço, o tempo do romance de Gabriela chegara ao fim, o espaço se fechava, se Gerusa e Mundinho depois se casaram ou não, isso não sei, da história sei apenas o que está no livro.

Lembro-me de que durante a elaboração de Tenda dos Milagres onde narro de como se forjou a nação brasileira, ao criar a figura de Tadeu Canhoto, filho de Pedro Archanjo, imaginei fazê-lo o herói que prosseguiria e levaria adiante a luta do mulato. Imaginei-o militante, mais avançado, mais radical do que o pai, um resto de sectarismo ainda me marcava, não me dava conta que Archanjo atingira o limite justo, mantivera-se livre, não se amarrara à seita.

Para pôr a figura de pé nos termos imaginados, comecei a amassá-la no barro de Carlos Marighela e o inscrevi na Escola Politécnica, a prova de matemática em versos decassílabos feita por Tadeu é a que Marighela fez quando estudante de engenharia. Fui desdobrando os fios da meada, queria Tadeu fundador do Partido Comunista, esqueci-me de que a ação do romance se desenrola na realidade dos anos vinte e sobretudo esqueci de consultar Tadeu: eis que ele recusou a ideologia e a militância. Como os demais mulatose pobres de seu tempo o que ele queria era ser branco e rico, em vez de revolucionário tornou-se genro de fazendeiro, embranqueceu, deixou o Pelourinho pelo Corredor da Vitória: Pedro Archanjo foi a exceção, seu materialismo não o limitou, prosseguiu pardo, paisano e pobre, cumprindo obrigações de candomblé. Os personagens nos ensinam a não violar a realidade, a não tentar impor, não somos deuses, apenas romancistas. Nice, 1990.