Navegação de Cabotagem
Monte Estoril, 1992.
Conto-lhe da existência de um a avenida de tam arindeiros seculares em Periperi, para vê-los e fotografá-los vale a pena deslocar-se até o bucólico subúrbio dos aposentados. Chegam os, deparo com escavadeiras, gruas, m áquinas infernais, operários, está sendo aberta um a estrada, passa exatam ente sobre a avenida dos tam arindeiros, parece de propósito. Das dezenas de pés de tam arindo restam apenas quatro, m ais correto dizer três, pois o quarto j á se encontra com as raízes à vista, no ponto de ser arrancado pela grua.
Volto à Bahia espum ando de raiva, dou pressa a Aurélio, tom o do telefone, falo com Antônio Carlos, prefeito da cidade, clam o aos céus. Ele m e dá razão m as nada pode fazer, pois a estrada é estadual, assunto para o governador. O governador é Luiz Viana Filho, de nada sabia, fica alarm ado, garante providências. Vai em pessoa a Periperi, constata a violência, determ ina um desvio no traçado da estrada, salvam -se os quatro últim os tam arindeiros. Salvaram -se porque Maureen Bissiliat foi à Bahia fazer fotografias.
Monte Estoril, 1992.
Mídia
Escrevem os no Monte Estoril, Hotel Atlântico, o calendário m ente ao anunciar inverno: a prim avera se antecipou. No j úbilo do sol nos debruçam os na varanda do apartam ento sobre a opulência da baía de Cascais, Zélia alim enta pardais e gaivotas antes de sentar-se ao com putador na redação de seu quinto livro de m em órias, os turistas ingleses desfilam no calçadão em m angas de cam isa.
Nos intervalos da escrita leio j ornais brasileiros datados da véspera, tom o um porre de noticiário carioca e paulista, o escândalo e a catástrofe. Espanta-m e a pobreza atual dos suplem entos dedicados às artes e às letras, neles estruge o estrépito dos grupos de rock and roll de todas as procedências, a isso se reduz a m úsica bem vista pela m ídia, um concerto de Pavarotti no Pacaem bu é tratado no deboche, vira potin em coluna social.
Busco os grandes artigos, consagradores, as análises da obra, por ocasião dos noventa anos de Lúcio Costa*, nosso orgulho, nossa glória, encontro duas notas breves contando sua ida a Brasília, dez linhas em cada j ornal, não m ais que isso. Michael Jackson, páginas e páginas.
*Lúcio Costa, arquiteto e urbanista.
Bahia, 1929.
O engabelador
Por ser o m ais idoso, andaria pelos vinte e cinco anos, senhor casado, por exercer em prego público rem unerado, não um borra-botas com o nós outros, João Cordeiro era um a espécie de Presidente da Academ ia dos Rebeldes. O posto não existia m as ele o exercia no trato da am izade, poder m oderador em nossas aleivosias literárias.
Em 1932, por aí, publicou Corja — o título original era Boca suja, o editor Calvino Filho não gostou, trocou —, rom ance da classe m édia baiana que lhe deu certa proj eção na época. Herberto Salles, ao tem po em que exerceu a direção do Instituto Nacional do Livro, pretendeu reeditar o rom ance de Cordeiro, devolvendo-lhe o título dado pelo autor, m as os herdeiros, vagos herdeiros a viúva m orrera e não houvera filhos, se assanharam acreditando que a edição significaria incalculável som a de dinheiro, fortuna em direitos autorais, im possível tratar com eles, a boa ideia de Herberto não se concretizou.