Navegação de Cabotagem
Bahia, 1965.
As ânforas do recôncavo
Naqueles tem pos divertia-m e enviando aos am igos de passagem na Bahia potes de barro, porrões para guardar água, os m aiores e m ais feios que encontrava à venda na Feira de Água dos Meninos, m antinha em casa um a dezena de reserva para atender às eventualidades.
Na década de sessenta, o único hotel decente da cidade era o da Bahia, situado no Cam po Grande, lá se hospedavam os visitantes de categoria. No dia do regresso, na hora da saída para o em barque, o viaj ante recebia a prenda: envolto em papel de presente, o porrão de barro, sem o m enor valor artístico, em com pensação descom unal, um tram bolho daqueles. Acom panhado de cartão gentil — cheguei à perfeição de m andar im prim ir cartões de visita com os nom es dos lordes: — receba o ilustre amigo essa lembrança de viagem, ânfora do recôncavo, peça de artesanato, recordação da Bahia. Entregue quando o ilustre am igo estava a sair para o aeroporto, que j eito senão j untar o m im o à bagagem . Mim o? Podia ser menor, ouvi Afrânio Coutinho m urm urar, eu presenciava sem pre que possível o bota-fora do hom enageado. Ouvia os resm ungos, não passavam de resm ungos, pois o cartão a acom panhar o presente revelava a identidade do ofertante, figura de realce: o governador Luiz Viana Filho, o prefeito Antônio Carlos Magalhães, o j ornalista Odorico Tavares, o diretor do Museu do Estado Carlos Eduardo da Rocha, o banqueiro Clem ente Marianni. Quem iria largar no hall do hotel lem brança atenta e decerto valiosa de Sua Excelência? Um estorvo sem dúvida, mas que delicadeza!
Rio de Janeiro, 1970.
Tema de conversação
Adolfo Bloch oferece no edifício da Manchete alm oço em hom enagem ao editor português Francisco Ly on de Castro, reúne m esa graúda, diretores da em presa, escritores, Fernando Sabino, Carlos Heitor Cony, Pedro Bloch, Paulo Mendes Cam pos, os acadêm icos Ray m undo Magalhães Júnior, Adonias Filho, Josué Montello. De Adonias e Josué — e de Dalcídio Jurandir, Wilson Lins, Antônio Callado — Chico Ly on irá publicar edições portuguesas em série brasileira dirigida com devotam ento e com petência por Álvaro Salem a.
Na m esa, após o habitual protocolo das m atérias de interesse do forasteiro, no caso problem as editoriais, a censura salazarista agride a indústria e a literatura, a conversa recai em tem a de agrado dos nacionais. Vem à baila assunto apaixonante, em polga a assistência — à exceção do hóspede português, todos os dem ais convivas são conhecedores do tem a, teóricos com m aior ou m enor prática, a m atéria lhes é fam iliar desde a j uventude: as casas de putas, nacionais e estrangeiras. Não o baixo m eretrício, é claro: castelos, pensões elegantes, discretas, caríssim as, o supra-sum o. A erudição dos vários debatedores, diretores da em presa e escritores é vasta, abrange a geografia e as especialidades. Explicam , narram detalhes, relem bram m om entos, incidentes, personagens, fornecem endereços.
Ray m undo viveu anos nos Estados Unidos, traça os m apas da luxúria ianque, o que sabe em teoria e prática daria para m ais de um volum e. Adolfo é universal, globe-trotter, Europa, Ásia, Am érica. Fernando por dem ais im aginoso parece-m e pouco confiável. Desfilam ao sabor da conversa as m aisons-close, os m otéis, os castelos, os puteiros para m ilionários e personalidades, de cidade em cidade, os roteiros da libertinagem . Ao que m e recordo Cony foi de bom aviso no que se refere ao produto nacional.
Chico Ly on ouvia, pareceu-m e siderado, a conversa sem peias, a tagarelice libidinosa transcende os hábitos, ultrapassa as contingências do editor lusitano. Em certo m om ento um dos peritos — qual deles? Diretor da em presa, escritor? Se fizer um esforço de m em ória talvez possa recordar, valerá a pena? — A voz severa, m astigando o filé m acio, aponta o garfo para o peito do convidado, queixa-se veem ente e am argo:
— Em sua terra, m eu am igo, é terrível, o hábito intolerável...
— O que lhe parece intolerável? — Chico feliz com a volta da conversa aos assuntos políticos, quer saber que coisa m ais terrível é essa, assim tão insuportável, em Portugal, decerto a censura, as prisões, a perseguição...
— Nem censura, nem perseguição, m uito pior. Entro num a Pensão, escolho um a cachopa, vou com ela pro quarto, na hora agá a gaj a m e pergunta: com o poderei servir m elhor Vossa Excelência? Não há tesão capaz de resistir a Vossa Excelência, m eu am igo, brocho cada vez que ouço.
Na pausa do riso, pergunto a Ly on de Castro:
— Diga-m e um a coisa, Chico: num alm oço de escritores e editores na Europa-Am érica, esse tem a de conversação seria debatido à m esa, com o aqui?
Hábitos de recato, hábitos de dissim ulação, os costum es severos pudicícia ou fingim ento, realidades do além -m ar. Atropelado na távola redonda da Manchete, perplexo, Chico estrem ece na cadeira, esquece a fina educação, deixa escapar o que lhe vai no pensam ento:
— Nem na Europa-Am érica, nem em nenhum a m esa portuguesa.
Vossa Excelência! rosna Adolfo, ainda inconform ado.