Navegação de Cabotagem
Aracaju, 1936.
O camisu
Venho a Aracaj u cobrar uns dinheiros devidos pelo Estado à Editora José Oly m pio, tenho direito a pequena com issão, os trocados serão bem -vindos à pobreza franciscana do desterro. Tenciono voltar a Estância pelo ônibus do fim da tarde, m as, adiado o pagam ento para o dia seguinte, devo aguardar. Hotéis repletos, os poucos que existiam , sou obrigado a pedir dorm ida a um tio de Matilde, m ilitar posto na reserva no grau de coronel.
Sou acolhido com gentileza, a tia prepara um café gordo — não tem os o costum e de j antar, explica. Inham e, aipim , cuscuz de puba, de tapioca, banana frita, bolachão, sem falar nas frutas, no suco de graviola e no de pitanga. Me regalo que nem bispo em m issão apostólica, deixo os hospedeiros satisfeitos.
O quarto de hóspedes preparado, debaixo da cam a o pinico de porcelana, perfum e de alfazem a, sobre os lençóis vej o, em lugar de pij am a, m odernice, um a cam isa de dorm ir; flores azuis bordadas nos punhos e no pescoço. O dono da casa, idoso, aposentado, nunca se habituara ao uso do pij am a, indum entária incôm oda, desculpa-se sorrindo, m eio encabulado.
Envergo o cam isu, lem bro de m eu avô José Am ado de Faria, em Itaporanga, eu ia com m eu pai visitá-lo no fim do ano, ele usava cam isu o dia inteiro. Apesar da lem brança do velho patriarca, senti-m e violentado em m eu m achism o, que era grande e soberbo, as flores azuis nos punhos e no pescoço pareceram -m e ridículas, que diriam os cam aradas se m e vissem assim vestido? Felizm ente ninguém verá nem saberá.
Deito-m e, passo os olhos num j ornal da terra, fecho a luz, adorm eço. Constato: para dorm ir na com odidade nada igual ao cam isu, am plo, solto, leve, o conforto. Um dia ainda hei de adotá-lo, vencerei a inibição, os preconceitos grandes e pequenos que discrim inam , ridicularizam , interditam o cam isu.