Navegação de Cabotagem
Lisboa, 1980.
Ao contrário dos dem ais rebeldes, bando de fam intos, Cordeiro não vivia à m íngua, assim lhe com petia quase sem pre a despesa (ínfim a) da turm a nas tardes do bar Brunswick. Nos com eços do m ês, ao chegar do engenho de açúcar no recôncavo, a m esada no bolso, Clóvis Am orim bancava os gastos com direito a pinga, poucos dias. No geral, o anfitrião era Cordeiro, nos apertos a ele recorríam os, nos em prestava algum , de retorno duvidoso.
O m ais pobre de todos nós seria Edison Carneiro, m em bro de fam ília num erosa. O pai, professor Souza Carneiro, catedrático da Escola Politécnica, m al ganhava para as despesas inadiáveis da prole, consta que j am ais pagou o aluguel da casa dos Barris — nós a intitulam os de Brasil, por im ensa e suj a — com sótão e j ardim onde vivia com a m ulher e os filhos: todos vestidos com batas de professores da Politécnica, arrebanhadas pelo catedrático. O m ais velho deles, Nelson, na ocasião líder estudantil, term inou Presidente do Senado. Ainda hoj e é senador eleito pelo Rio de Janeiro, parlam entar de longo tirocínio, responsável pela lei do divórcio, batalha que em preendeu e ganhou com a aj uda de um bispo protestante do Rio Grande do Sul que fez a cabeça do presidente Geisel durante a ditadura m ilitar. O professor Souza Carneiro, um a das figuras m ais sedutoras entre quantas conheci: sua vida de pobreza, trabalho e bom hum or daria o m ais extraordinário rom ance picaresco, tão rica que nenhum de nós se atreveu a transform á-la em ficção.
Os m íseros tostões que ganhávam os nas lides j ornalísticas não nos perm itiam , a nenhum de nós, prodigalidades, esbanj a-m entos. Menos ainda a Edison, leitor incurável, salário recebido, salário entregue aos donos dos sebos na Praça da Sé ou a dom Paço, da Livraria Espanhola, recriado personagem , com am or, por Nélson de Araúj o* em novela sobre os galegos da Bahia. Para atravessar o resto do m ês, Edison ia esfaqueando a um e a outro, parentes e conhecidos, vítim a principal João Cordeiro. De quinze em quinze dias sacava do confrade um a nota de cinco m il-réis com o pretexto de ir ao m eretrício dar abasto ao corpo: estou no atraso e na lona, mestre Cordeiro.
*Nelson de Araújo, escritor, homem de teatro.
— Dou cinco m il-réis a Edison para ir às putas, desconfio que m e engabela, para tirar a lim po eu o sigo sem que m e vej a: o crioulo vai direto à livraria de dom Paço foder um livro.
Cioso do bem -estar do am igo, Cordeiro term inou por acom panhá-lo até o castelo, efetuar ele próprio o pagam ento da trepada, constatou que o negro Edison preferia as loiras.
Lisboa, 1980.
Os ancestrais
O prazer de ouvir Luís Forj az Trigueiros contar histórias, casos, só com parável ao de ler seus contos portugueses. Histórias várias, a m em ória fugidia em baraça-m e nas datas, nos sítios onde sucederam , nos personagens que participaram . Ainda assim não abro m ão de repetir um caso, quase um a anedota pois dá a m edida exata do que significam a unidade nacional e a cultura m estiça do povo brasileiro. Faltará ao conto a graça da narrativa de Luís, paciência.
Na versão de que guardei lem brança sucedeu pelos anos oitenta, os personagens são Maria Helena e Luís Forj az, Pilar e David Mourão Ferreira, além do grupo de pseudoj aponeses, a ação se desenrola no m ar Egeu durante excursão de barco pelas ilhas gregas — chatíssim as excursões, diga-se de passagem , tam bém a fizem os, Zélia e eu, salvou-nos do tédio a com panhia de Eunice e Chico Ly on.