Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 205 de 262

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Pequim, 1957.

*Na última (e sabotada) lista, além dos nomes citados, ainda estavam Pierre Gervaiseau, Charles Trenet, Jean Sablon, Pierre Barouth, alguns mais.

**João Hermes Pereira de Araújo, diplomata.

***Remy Kolpa Kopoul, jornalista, crítico de música de Liberation.

Mais feliz ainda se sentiu Sy lvie Pierre, a autora do livro sobre Glauber, sabe o cinem a brasileiro de trás para diante e ainda m ais: o Maire de Vincennes, cidade onde Sy lvie m ora, inform ado pelo Quai d'Orsay, prom oveu un vin d'honneur en hommage a notre compatriote Sylvie Pierre qui vient d'être decorée par une grande nation étrangère, le Brésil, assim rezava o convite. Com pareceu m ultidão de am igos, parabéns, felicitações, beij os, abraços, discursos e cham panhe, telegram a de Jack Lang, Ministro da Cultura, tudo a que ela tinha direito, au grand com plet.

Tudo m enos a m edalhinha, nunca a recebeu, j am ais a Em baixada entregou as condecorações aos condecorados, o decreto assinado, rem etido e divulgado virou pó de traque, fum aça de bufa — assunto desagradável, m esquinharias de palacianos quando o Presidente arrum a as m alas para entregar a faixa. Esse o segredo com partilhado por Sy lvie e Napoleão, ela o conduz com o bom hum or que é de seu feitio, ele safado da vida, não engoliu a salafrarice, quando se refere ao sum iço das m edalhinhas arrenega pestes.

Pequim, 1957.

Ting ling

Aproxim a-se o fim de nossa estada na China, desem barcáram os, Pablo e eu, na ilusão do discurso de Mao sobre as m il flores que a seu convite deviam se abrir ao sol do dia, constatam os que ao contrário os horizontes se fechavam . Um figurão do pecê da URSS m e dirá em Moscou, dias depois, que o discurso de Mao não passara de um a cilada: os adversários da ideologia dom inante foram na conversa, botaram as cabeças para fora, ficara m ais fácil cortá-las. Com o acreditar em tal interpretação? — Tanta coisa difícil de acreditar-se, verdades im possíveis.

As som bras descem sobre nós, encobrem os am igos, onde estão eles que sumiram, pergunta Pablo, a voz em bargada. Em i Siao foi o prim eiro a sum ir, logo chegou a vez de Ai-Ching, os dois poetas do regim e, Siao e Mao nasceram na m esm a aldeia, Em i escrevera a biografia do dirigente m áxim o. Por fim Ting Ling deixou de aparecer, não veio term inar o diálogo sobre os problem as da narrativa em que nos em penhávam os. São as antevésperas do terror denom inado Revolução Cultural, m al denom inado — houve no ocidente quem j urasse por Jiang Qing*, eu j á estava fora do circuito, curado do stalinism o, im unizado aos vírus dos radicalism os. Ting Ling era a m ais em inente personalidade da ficção chinesa, seus rom ances, clássicos da literatura revolucionária estavam traduzidos em dezenas de línguas, eu m esm o fiz traduzir e publiquei um deles, Sol sobre o rio Sang Kan, na Coleção Romances do Povo. A escritora participara da Grande Marcha ao lado de Mao, de toda a guerra de libertação, o povo a am ava, onde quer que chegasse era cercada de carinho, posso dar testem unho. A Revolução Cultural assassinou dirigentes da categoria de Li Shao Chi, que ocupava a Presidência da República, hum ilhou e degradou sábios da altura de Kuo-Mo-Jo, condenou à prisão e aos trabalhos m ais duros e penosos poetas, rom ancistas, cantores, cineastas, os criadores de todas as categorias. A Ting Ling retiraram os títulos e os cargos, era presidente da União de Escritores Chineses, destituíram -na, condenaram -na a lim par as latrinas do prédio da União, faleceu executando essa tarefa. Em i m orreu apenas posto em liberdade após dezesseis anos de prisão, em 1986 quando voltei à China só encontrei Eva, recordam os os dias alegres de Praga e os dias tristes de Pequim . Ai-Ching veio ver-m e apenas cheguei, trôpego, apoiado à bengala, quase cego, cum prira pena tão extensa quanto a de Em i, num a fazenda coletiva, proibido de escrever e publicar.

*Mulher de Mao Tsé Tung, chefe da Revolução Cultural.

No hotel de Pequim encontro o viúvo de Ting Ling, abre um a pasta de relíquias: fotos tiradas por Zélia em 1957, onde estam os, a rom ancista, Pablo e eu, fotocópias das cartas que escrevi à am iga, exem plar da edição brasileira do rom ance, conta-m e com o as coisas se passaram , nos olhos baços a luz de um a lágrim a.

Era alegre, daquela alegria contida dos chineses, tím ida, reservada, a m aldade e a hipocrisia repugnavam -lhe, sabia da luta por tê-la vivido, m antinha a confiança, não queria descrer, igual a Anna Seghers. Quando lhe falei das dúvidas que m e esm agavam o coração, ela m e respondeu: tu duvidas só porque constatas errou injustiças? Ting Ling não duvidava. Ou não adm itia duvidar? Me disse: se piso na lama, limpo os pés, sigo adiante.

Na últim a vez que nos vim os, ao despedir-se — am anhã prosseguirem os nossa conversa, sorriu triste, j á sabia que a versa não teria seguim ento —, Ting Ling voltou da porta para um a vez nos apertar a m ão, a Pablo, a Matilde, a Zélia e a m im , não nos dem os conta de que voltara para a despedida derradeira.

Os intelectuais da elite brasileira, os de esquerda e os de direita, irmãos gêmeos na pretensão e na tolice, uns quantos imitam os europeus, a maioria é fotocópia dos ianques, de brasileiros não têm quase nada: mesmo livresco e limitado, o saber os coloca acima da cidadania, sentem-se superiores, repudiam a criação popular viram a cara, tapam o nariz à rua, à praça, ao folclore, o povo fede e eles são uns senhoritos.

Tem razão Joãozinho Trinta que exerce a profissão brasileira por excelência, a de carnavalesco, os nossos intelectuais amam e desfrutam a miséria, capital para uso e abuso, rende juros políticos, dividendos. Do povo brasileiro só lhes interessam a miséria e a ignorância: ontem juravam pelos Estados Unidos os da direita, juravam pela União Soviética os da esquerda, vão acabar reduzidos ao Japão e a Cuba.

Existem exceções, confirmam a regra e honram a inteligência brasileira, nem toda ela inteligentzia. Vêem-me à boca no vício das citações nomes e títulos: Antônio Cândido*, Eduardo Portella, Antônio Houaiss, vão os três como exemplo mas aqui quero me referir a dois outros mestres brasileiros, venho de ler sobre eles nos jornais.

*Antônio Cândido, critico.

Declarações de Darcy Ribeiro** sobre educação, afirmações claras, corretas, ele sabe o que diz, sabe de ciência certa, pode ser gabola mas nunca será solene, sendo de fato douto não se farda de doutor, o Brasil é seu partido e o povo é o seu umbigo. Sei que leva a viseira no bolso para colocá-la quando as mesquinharias da política partidária o obrigam a usá-la mas, ao vesti-la, pisca o olho de malandro, a malandrice brasileira lhe é inata, não o deixa ser um a mais no meio do rebanho, Darcy, ovelha negra, mineiro e carioca, índio domato na aparência ingênuo ganha todas para os espertos da cidade. Ousa afirmar e quase sempre acerta.