Navegação de Cabotagem
Bahia, 1928.
Coluna social
De volta de Paris com a com enda da Legião de Honra, recebo telefonem a de Ibrahim Sued, abraço de felicitações. Jornalista bem -inform ado, revela-m e que sou o único Com endador da Legião de Honra existente no Brasil, Com pleta, fofoqueiro am ável:
— Roberto Marinho e Nascim ento Brito vão m orrer de invej a, são apenas oficiais.
Dias depois leio na Coluna de Ibrahim que Roberto Marinho foi prom ovido a Com endador, ainda bem , j á não estou sozinho. Fico sabendo tam bém que existe um a associação dos brasileiros condecorados com a Legião de Honra, entro de sócio, m as não frequento.
Bahia, 1928.
Academia dos rebeldes
A Academ ia dos Rebeldes foi fundada na Bahia em 1928 com o obj etivo de varrer com toda a literatura do passado — raríssim os os poetas e ficcionistas que se salvariam do expurgo — e iniciar a nova era.
Colocada sob a égide de Pinheiro Viegas, poeta baudelairiano, recordo verso de um soneto: "acho o mundo, afinal, drolático e macabro", panfletário tem ido, epigram ista virulento, o oposto do convencional e do conservador, personagem de rom ance espanhol, espadachim , faleceu em 1932. A antiacadem ia sobreviveu ao patrono, durou ainda um ano, o últim o a obter ingresso em suas hostes foi Walter da Silveira.
Único vivo do grupo que com pôs a Academ ia, no exercício da saudade faço o balanço dos livros publicados pelos Rebeldes, por cada um de nós. A Obra Poética e Iararana, de Sosígenes Costa: sua poesia, nossa glória e nosso orgulho; a obra m onum ental de Edison Carneiro, pioneiro dos estudos sobre o negro e o folclore, etnólogo em inente, crítico literário, o grande Edison; os Sonetos do mal-querer e os Sonetos do bem-querer, de Alves Ribeiro, j ovem guru que traçou nossos cam inhos; os dois livros de contos de Dias da Costa, Canção do Beco, Mirante dos Aflitos; os dois rom ances de Clóvis Am orim , O Alambique e Massapê; o rom ance de João Cordeiro, devia cham ar-se Boca Suja, o editor Calvino Filho m udou-lhe o título para Corja; as coletâneas de poem as de Ay dano do Couto Ferraz, a de sonetos de Da Costa Andrade; os volum es de Walter da Silveira sobre cinem a — som e-se com m eus livros, tire-se os nove fora, o saldo, creio, é positivo.
Não varrem os da literatura os m ovim entos do passado, não enterram os no esquecim ento os autores que eram os alvos prediletos de nossa virulência: Coelho Neto, Alberto de Oliveira e em geral todos os que precederam o m odernism o. Mas sem dúvida concorrem os de form a decisiva — nós, os Rebeldes, e m ais os m oços do Arco & Flexa* e os do Samba** — para afastar as letras baianas da retórica, da oratória balofa, da literatice, para dar-lhe conteúdo nacional e social na reescrita da língua falada pelos brasileiros. Fom os além do xingam ento e da m olecagem , sentíam o-nos brasileiros e baianos, vivíam os com o povo em intim idade, com ele construím os, j ovens e libérrim os nas ruas pobres da Bahia.
*Arco & Flexa, revista literária, de 1928 a 1929.