Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 99 de 262

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Bahia, 1956.

Term inado o j antar Zélia e eu costum ávam os descansar no Pátio onde corria a brisa, eu lhe contava os acontecidos do dia, ela ouvia ávida por detalhes sobre a atuação da bancada com unista — a prim eira num parlam ento brasileiro. Por vezes adorm ecíam os no em balo da rede. Num a daquelas redes cearenses, de casal, João Jorge foi feito, em noite de lua cheia, à luz das estrelas e ao ruído dos grilos.

Bahia, 1956.

O jumento

Na década de cinquenta, o alem ão Karl Hansen vivia num a cabana na praia de Am aralina, na Bahia, em com panhia da m ulher Rosa e dois filhos, a m enina, o m enino e de um j um ento batizado Sigm und Freud, anim al de estim ação da fam ília, m ontaria do alem ão. Sendo o j egue pequenino e Karl grandalhão, o cavaleiro fazia a alegria dos pescadores e dos capitães da areia, ao vê-lo m ontado no asno, os pés tocando o chão indo de visita a Cary bé no Rio Verm elho. Naquele então, Am aralina era um dos extrem os da cidade, o m ais distante fim das linhas de bondes.

Mocetão, Karl viera de Ham burgo para o Brasil com um irm ão arquiteto, o irm ão perm aneceu em São Paulo, ele descobriu a Bahia, ali assentou a tenda de cam panha, casa de barro batido, adquirida a crédito a um peixeiro. Vivia pobrem ente do com ércio de arte gráfica, cavava a m adeira, nela gravava a vida da gente da cidade, era xilógrafo. Da j anela do bar São Miguel, no Pelourinho, observava o vaivém das putas e dos m arginais, o resultado foi um álbum de gravuras, hoj e preciosidade. Eu o conheci quando o realizava, prefaciei a edição. Dez anos depois escrevi o texto para outro álbum de Hansen, tam bém gravuras do Pelourinho, via crucis de um a nação de pobres: artesãos, raparigas, bêbados, desordeiros de todo tipo, crianças sem pai nem m ãe. Profeta e m arinheiro, deixara de ser Karl Hansen era Hansen Bahia, na saudade, na aflição da distância j untam o nom e da cidade ao de fam ília para m arcar o chão de sua arte, a pátria de adoção. Trouxera com ele das brum as de Ham burgo a segunda esposa, Use. A j ovem alem ã, Walkiria de trancas loiras, desem barcara traj ando m anto bordado em Adis Abeba. leões e lanças, a pantera e o Leão de Judá, o casal vivera na Abissínia, fundara e dirigira a Escola de Belas-Artes, capricho do Négus. Em dois tem pos a ham burguesa virou baiana de saia rendada e turbante na cabeça, os pescadores diziam -na Inaê, rainha do m ar.

Ao rever Ilse que deixara m enina ao partir de Ham burgo para viaj ar o m undo, Hansen se apaixonara pela m ocetona: aprendiz de artista ela o olhava com olhos de discípula em êxtase, Hansen sonhou casar-se. A diferença de idade porém o assustou, resolveu consultar pessoa experiente, seu pai (lá dele), abalizado bebedor de cervej a, habitava casa de cam po nos arredores. Pediu-lhe a bênção, explicou-lhe o dilem a: sofria paixão de adolescente na idade m adura, a noiva, lolita rechonchuda. Não seria m ais certo escolher noiva j á entrada em anos? O pai refletiu, considerou:

— Mulher velha com e tanto quanto m ulher m oça, até m ais, adoece m uito m ais, gasta dinheiro em rem édio. Case com a m oça, faz m elhor negócio.

— Meu papai é um poeta — com enta Hansen ao contar o caso.

Casou e foi feliz, Ilse se devotou por com pleto a seu m estre de arte e de am or, não conheci casal assim unido, tão perfeito. Quando ele m orreu, ela não resistiu à solidão, foi reencontrá-lo na Rua dos Gravadores no céu das putas, dos vagabundos e dos artistas.

Durante a prim eira residência na Bahia na década de cinquenta, um dia, de m anhã cedinho, o alem ão Karl encontrou na soleira da porta, na areia, um a enorm e pedra de âm bar, pesava quilos, o m ar ali a deixara de presente para o artista m ais pobre do Brasil e da Alem anha reunidos. É âmbar, não é âmbar, desentenderam -se Karl e Rosa, o gravador recolheu um a am ostra do pedregulho, tom ou o bonde, deu a am ostra a exam inar aos irm ãos Moreira*. Âmbar, dos melhores, se a pedra é grande, vale fortuna, você está rico para o resto da vida.

*Manolo e José Alberto Moreira, proprietários da Casa Moreira, antiquários.

Laudo em punho, Hansen som ou os níqueis, tom ou um taxi para chegar m ais depressa com a notícia alvissareira. Chegou, Rosa dorm ia ao sol, ao saber da pureza e do valor do âm bar, contou-lhe o sucedido: Sigm und Freud, o j egue, esfom eado, fom e de séculos, fom e nordestina, devorara com gosto e rapidez a dádiva do oceano, fruto do m ar, inesperada gulodice, fizera as honras à fortuna do alem ão. Hansen não se alterou não era de alterar-se por tão pouco, que iria fazer com a dinheiram a, um a dor de cabeça, dela se livrara: alisou o focinho do j egue, beij ou-lhe a testa, foi trabalhar a m adeira, seu ofício.

Recebo presentes de comer e de beber, guloseimas de amigos espalhados pelo mundo, mimos de bem-querer: excitam o paladar, exaltam o coração.

Sou tarado por pitu, só de pensar em pitu escalfado em ovos fico com água na boca. Fruto-do-rio mais saboroso que qualquer fruto-do-mar, camarão, lagosta, lagostim, seu reino é o rio Cachoeira, na região do cacau, tem o gosto de minha infância grapiúna. Dois amigos, fazendeiros de cacau e letrados (não há contradição, existem em número maior do que se pensa, basta citar Adonias Filho, Itazil Benício dos Santos, Florisvaldo Matos, Hélio Pólvora), abastecem-me de pitus: Moysés Alves, de Itabuna, Raymundo Sá Barreto, de Ilhéus. Moysés ama a pintura, coleciona quadros; Raymundo ama a literatura, escreve memórias de Ilhéus, vale a pena ler.

Do Piauí, Liete, princesa da família Tajra, envia ainda quente do forno um prato de raro sabor, sublime: frito de capote, sabem o que é? Se não sabem tomem o avião para Teresina, lá descobrirão, quitute de se comer até fartar: galinha d'angola e farinha de mandioca, parece simples, mas não é.

Nascido para artista de cinema, reduzido pelos fados à pá de pedreiro, pobre de Jó, Rufino gasta as economias que não tem, toma uns cobres emprestados, traz-me o teiú que encontrou à venda no subúrbio da cidade. Escrevi sublime para o frito de capote, digo divino para o teiú moqueado. O teiú é um lagarto, ao vê-lo nas mãos dadivosas de Rufino, o banqueiro Antônio Celestino torceu a cara, convidei-o para o almoço do teiú, traçou três pratos e pediu mais.

O senador Lourival Batista, vice-presidente do Comitê Mundial da Luta Contra o Tabagismo, com sede em Londres, ex-governador do Estado de Sergipe, nasceu baiano em Feira de Santana, fomos colegas no Ginásio Ypiranga. Envia-me isopores repletos de sorvetes, ah, incomparáveis, da Sorveteria Cinelândia, de Aracaju: são mais de quarenta sabores, vão da jaca ao umbu, do jenipapo ao tamarindo, do cacau à pinha, do caju ao cajá, da graviola à pitanga, um desperdício, um abuso! Um detalhe: os sorvetes da Cinelândia não engordam.

Os requintes da doçaria portuguesa: o pão-de-ló mandado de Viana do Castelo, prenda de dona Custodinha e siô Manuelsinho, Custódia e Manuel Natário, pasteleiros de Nossa Senhora da Agonia. Os pastéis-de-nata, os de Belém, encomendas de Clarinda e Nuno Lima de Carvalho a cada portador: às vezes o portador não resiste, come-me os pastéis-de-nata, melaram na viagem me disse um deles quando cobrei a remessa. Nuno Simões, fidalgo de esquerda militante anti-salazarista, fornecia-me vinho fino, aquele que os desalumiados intitulam vinho do Porto, de velhas idades, de safras preciosas, ainda possuo meia dúzia de garrafas. Outro que também já morreu, José Machado Leite, mandava-me caixas de conhaque Macieira, começou a mandá-las quando saiu a edição portuguesa de Tenda dos Milagres, em 1968. Invadiu o Hotel Tivoli no comando de duas caixas, duas dúzias de garrafas, me disse: à página 278 de Tenda dos Milagres Pedro Archanjo bebe conhaque Macieira. Já que falo de portugueses, quero lembrar os quilos de bacalhau que Alves Redol nos enviava para Paris quando eu e Zélia lá vivíamos na pobreza do exílio.

Começara a escrever Dona Flor e seus Dois Maridos, pedi a minha comadre Norma Sampaio para ir visitar a proprietária da Escola de Culinária Sabor e Arte — eu copiara o nome da placa à porta da casa na rua do Sodré — para lhe explicar que iria usar e abusar do nome de sua Escola no novo romance. Norma voltou com a autorização e a novidade: dona Edna Leal era prima carnal de Lalu, minha prima em segundo grau. De então para cá nas festas de aniversário, nas de fim de ano, de São João, no Dois de Julho, a qualquer pretexto, Edna nos envia bolo sem tamanho, delícia confeitada, obra de arte, presente de Dona Flor: publicado o livro, os vizinhos passaram a designá-la com o nome da personagem.

Glutão que sou, guloso, comilão, adoro receber esses de-comeres, as garrafas preciosas de vinho fino — invenção de Deus inspirado pela paisagem do Alto Douro —, mas não sei fritar um ovo, cozinhar uma salsicha, parvo também em culinária. Apesar disso em meus romances reproduzo receitas da cozinha baiana — não perde em refinamento para nenhuma outra. Posso garantir pela qualidade e exatidão das receitas, são testadas, podem utilizá-las sem receio, foram-me fornecidas por cozinheiras mãos-de-fada: Anália, patroa do Yemanjá, ai, as moquecas de Anália, Dete, da Ilha de Itaparica, aí, o mingau de puba, o cuscuz de tapioca de Dete, ai! As receitas de dona Flor eu as copiei do caderno de Dorothy Alves, esposa de Moysés: quando Aldemir Martins recorda os pitus que comeu na mesa farta e esmerada dos Alves lambe os beiços e suspira.