Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1979.
Maestria
Assum o o telefone, ligo para a Bahia, um a cham ada atrás da outra, ao Governador, ao Prefeito, ao diretor da Bahiatursa, a am igos: a José Calasans*, autoridade m áxim a a respeito de Antônio Conselheiro e da guerra dos pobres, a Antônio Celestino, ao historiador Luiz Henrique Dias Tavares, ao escultor Mário Cravo que talhou no tronco da m angueira a figura do enviado de Deus, ao pintor Sante Scaldaferri: com as tintas suj as da m iséria e da opressão, com a tinta rubra da esperança, Sante pintou o sertão, a fom e e a luta. Busco abrir cam inho para a travessia da caatinga proj etada por Mário Vargas Llosa: planej a escrever um rom ance sobre a saga de Canudos — e o escreve, La guerra del fin de mundo.
*José Calasans, historiador.
Em Londres o rom ancista peruano m e falara de seu intento, não m e entusiasm ei, m ostrei-m e reticente: um rom ance com o tem a da guerra sertanej a, o Brasil dos beatos e cangaceiros? Tem i que Mário fosse se m eter em cam isa de onze varas, pois sendo, com o sou e se sabe, lim itado no que se refere à criação literária não sei trabalhar senão a realidade que conheço por tê-la vivido, sou ficcionista de dois tem as únicos, as terras do sem fim do cacau, a vida popular da cidade da Bahia, voltej o em torno deles, repito cenários, personagens, em oções. Daí ter-m e assustado com a notícia.
Tem a suntuoso o de Canudos, onde o grande rom ance braseiro a recriá-lo? Inspirados pelo livro de Euclides, alguns tentaram fazê-lo sem m aior sucesso, ninguém conseguiu igualai a grandeza de Os sertões. Dispõe-se agora um índio peruano, m estiço de espanhol, a enfrentar o desafio, eu o vi perdido nas trilhas do sertão, em m eio aos j agunços, incapaz de entendê-los. Mario, porém estava entusiasm ado, calei m inhas reservas, prom eti-lhe apoio.
Em j ulho de 1979, Mario chega ao Brasil para presidir Congresso do Pen Club, cobra-m e a prom essa de colocá-lo em contato com quem possa ser-lhe de utilidade na Bahia, tom o do telefone, falo com m eio m undo, encom endo e recom endo, boto de pé sua estada. Quando dou a tarefa por term inada, Patrícia m ulher de Vargas Llosa, em tom de zom baria, louva sorrindo m inha m aratona ao telefone:
— Só faltaste arranj ar m ulher para Mario.
— Para isso ele não precisa de aj uda — respondo ao sorriso e à zom baria.
Guia e passaporte do rom ancista, Renato Ferraz m e conta que na caatinga hom ens e m ulheres diziam -no o argentino, as m ulheres apaixonaram -se, os hom ens se fizeram seus am igos. Quanto ao rom ance, ao receber o exem plar da edição espanhola que o autor m e enviou, ainda tem eroso, não o li de im ediato. Só o fiz quando Mario reclam ou opinião. Enganei-m e, Deus sej a louvado! Aquilo que nós, brasileiros, não arriscam os fazer, o peruano o fez com m aestria, por fim se escreveu o rom ance de Antônio Conselheiro, a saga sertanej a de Canudos ganhou dim ensão universal.