Navegação de Cabotagem
Paris, 1991.
Judeu russo, Segall veio ao Brasil pela prim eira vez em 1912, ano em que nasci, voltou em 1918, tornou-se brasileiro para sem pre. A guerra contra o nazi-fascism o lhe inspirou três quadros belos e terríveis, grandiosos painéis: Pogrom, Navio de imigrantes, Guerra, sendo que o m enor dos três, Pogrom, parece-m e o m ais belo e o m ais dram ático.
Dos Estados Unidos chegou um rei de qualquer coisa, j udeu riquíssim o, m alas de dólares na bagagem , vidrou ao ver a tela do Pogrom, decidiu com prá-la. Pede preço, não está à venda, responde o pintor, o m ilionário declara que à venda ou não ele vai levá-la, faz oferta, alta, Segall recusa, engaj a-se a pelej a. O am ericano volta todos os dias, refastela-se na cadeira diante do quadro e tom e oferta em dólares e pagam ento à vista, o dinheiro está na pasta ao lado, o sádico exibe as notas verdes. No outro lado da trincheira, Segall recusa, disposto a conservar a tela em seu acervo. O desespero na voz, m e diz:
— Am igo, esse suj eito é um dem ônio, tenta-m e, oferece-m e cada vez m ais dinheiro, tanto nunca vi em m inha vida, não sei até onde posso resistir. Quer levar m eu quadro, tenho m edo de ceder, am igo!
Não cedeu, Segall gostava de dinheiro, m as gostava ainda m ais dos quadros que pintava, resistiu à avalanche de dólares, Pogrom perm anece no acervo do Brasil.
Paris, 1991.
Surrealismo
Extasiada na m esa do bistrô à m argem do Sena, Kristina Hering conta um a história surrealista, história de espantar m esm o no tem po em que vivem os, quando o im possível se faz quotidiano:
— Fiquei certa que tinha enlouquecido.
Tradutora de profissão, Kristina traduz do francês, do espanhol, do português para o alem ão, fala o português com pronúncia lusitana, vem de concluir a tradução do volum e das Conversations de Alice Raillard, está traduzindo livros de Zélia, veio a Paris conversar com suas autoras. Ainda lhe é difícil acreditar que pode inscrever-se num a excursão de fim de sem ana, em barcar num ônibus em Berlim , desem barcar em frente à Notre Dam e. Com o aceitar então o que se passara antes, durante sua estada em Cuba, não dava m esm o para acreditar.
Duas inform ações são necessárias para que se possa entender a história de Kristina. A prim eira saber-se que antes da reunificação da Alem anha ela era cidadã da República Dem ocrática, ou sej a, da Alem anha Oriental, habitante de Berlim Leste, suj eita a todas as restrições possíveis. A segunda refere-se a program a existente na União Soviética e em cada um dos países do socialism o real, patrocinado pelas uniões de escritores. Anualm ente distribuíam -se algum as bolsas a tradutores para que pudessem visitar durante um m ês país de língua de sua especialidade: ganhavam as passagens e um a aj uda de custo m ínim a para os gastos pessoais.
Durante exatos quinze anos Kristina candidatou-se a um a dessas bolsas para qualquer dos países de fala francesa, espanhola, portuguesa, a França encabeçava a lista, logo vinham a Espanha e o Brasil. Durante quinze anos esperou em vão, m as no décim o sexto foi contem plada com um a bolsa para Cuba, um m ês na ilha de Fidel. Cuba não encabeçava sua lista m as, enfim , Kristina não via razão para j ogar fora a oportunidade de viaj ar. Arrum ou a m ala, tom ou o avião em Berlim Leste para Havana.