Navegação de Cabotagem
Paris, 1991.
*Jorge Calmon, jornalista, diretor de A Tarde.
Paris, 1991.
A injustiça
Pela m anhã, José Guilherm e Merquior ao telefone: um dos prazeres durante as estadas em Paris, o bate-papo descontraído com Zé Guilherm e. Nem sequer o fato dele saber tanto sobre tem as nos quais sou a sum a ignorância chega a perturbar o gozo da conversa, pois ele torna fácil o assunto m ais árido, não cultiva a presunção, não se arroga a professor.
Nossa am izade percorreu cam inho de pedras, em priscas eras Zé Guilherm e desancara não sei m ais qual dos m eus rom ances ou todos eles, j á não recordo, recebi na circunstância vários recortes da reprim enda — sobram sem pre os prestativos, os pressurosos que rem etem , com palavras de repúdio, repúdio no papel, j úbilo no coração, o que se escreve de negativo sobre o confrade, artigo positivo ninguém perde tem po e selo de correio com envio e com entário. Não sou dos que consideram inim igos os colegas pouco afeitos aos m eus livros, persisti a ler e a adm irar o j ovem erudito. Quando nos vim os pela prim eira vez ele pareceu-m e estranhar a cordialidade do defunto. Estabeleceu-se entre nós relacionam ento cortês que pouco a pouco cresceu em am izade bem m ais valiosa para m im do que elogio em artigo de j ornal.
Zé Guilherm e conta-m e com verve e agudeza alm oço de casam ento na aristocracia francesa, com pareceu à festa no Castelo m edievo da fam ília m aterna, a paterna vive em iates e aviões, possui m ultinacionais, convescote de fidalgos e m ilionários, m ij o-m e de rir. Não foi, porém , para caricaturar a festa do casório que m e telefona, m as para m e dizer que, vizinho de m esa de Maurice Druon, por ele soube...
Antes que m e diga o que soube, eu o interrom po para falar de Druon*: tu sabes o que é am or à prim eira vista, m as tinhas conhecim ento de am izade à prim eira vista? Am izade à prim eira vista a que nos ligou, ao rom ancista de La fin des hommes e a m im , conhecem o-nos em j antar de Josué Montello de quem é parente por serem os dois m estiços m aranhenses, dem o-nos conta de im ediato que éram os am igos de infância, tem os m uito em com um o potentado das letras e o pobretão. Estim o a novelística de Druon, a qualidade da escrita e a força da narrativa, m ais além dos títulos acadêm icos sua presença se afirm a na popularidade dos leitores.
*Maurice Druon, escritor francês, secretário-perpétuo da Academia Francesa.
Correção de diplom ata, Zé Guilherm e não m e interrom pe, escuta-m e até o fim , quando acabo de gastar os adj etivos ele concorda nos elogios a Druon e m e diz que tam bém o dito-cuj o ralam bem de m im e lhe anunciara o que decerto eu j á sabia... Sabia o quê, Zé Guilherm e? O prêmio, homem! Que prêm io? Ao dar-se conta que não sei de nada, lastim a-se da inconfidência, desconversa, fala de outra coisa, assunto não lhe falta. Em barco com ele em riso e em gozação, o bate-papo com Zé Guilherm e é o que se pode pedir de m elhor para com eçar a j ornada, esqueço por com pleto a inconfidência interrom pida.
Três ou quatro dias depois, durante coquetel na Gallim ard, outro am igo, outro potentado da literatura francesa de quem sou devoto não é de hoj e, Jean d'Orm esson, m e felicita pelo Prêm io Mundial Cino del Duca que vem de m e ser concedido, m em bro do j úri presidido por Druon, votou em m im . Ao lado, Zé Guilherm e m e cutuca, gozador: era o prêm io a que se referira na conversa ao telefone.