Navegação de Cabotagem
Tirana, 1950.
Harry Belafonte desem barca no Rio de Janeiro, os repórteres o aguardam no aeroporto, cercam -no, os m icrofones das rádios, as câm aras de televisão, ele os enfrenta, gozador:
— Que veio fazer no Brasil?
— Vim visitar m eu am igo Jorge Am ado.
— E que m ais?
— Mais nada, acha pouco?
No dia de m eu aniversário, invade-m e o apartam ento, traz de presente um a estatueta de gesso, m edonhosa, roubada no hall do vizinho.
Harry Belafonte não é tão-som ente o cantor fam oso, o astro de cinem a, é tam bém um lutador pelos direitos dos hom ens, o com batente contra o apartheid, o am igo de Martin Luther King. Ao vê-lo com andando o program a com em orativo dos vinte anos do assassinato de King, recordo outro grande negro de quem fui igualm ente am igo, Paul Robeson*. Têm os dois a m esm a estatura, a m esm a consciência, representam a dignidade do hom em .
*Paul Robeson (1898/1976), cantor norte-americano.
Term inado o j antar, Harry e Julie nos levam ao quarto de dorm ir: sobre a cabeceira do leito, em lugar de honra, um óleo de Cândido Portinari, o picadeiro de um circo, desses bem pobrinhos que vão de cidadezinha em cidadezinha — os artistas, os assistentes, um cavalo azul.
— Com prei ontem num a galeria onde fui ver um a exposição de Leger. Estava no acervo, tarei por ele.
Lá fora é o inverno, a neve cobre o pavim ento das ruas, no apartam ento dos Belafonte reencontro, além do calor da am izade, a cor, a graça, a poesia do Brasil.
Tirana, 1950.
Sangue
Ism ail Kadaré* se aproxim a de m im na recepção oferecida pelo Presidente Mitterrand aos quarenta escritores estrangeiros convidados para a abertura do "Fureur du Livre", invenção de Jack Lang — tam bém na relação os brasileiros Nélida Pinon e João Ubaldo Ribeiro, João não veio, desdenhou. O rom ancista albanês ouviu falar de visita m inha à Albânia, m as não sabe a data.
*Ismail Kadaré, escritor albanês.