Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 226 de 262

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Navegação de Cabotagem

Bahia, 1973.

Quando entrou no quarto j á estava nua, arrancara a cam isola, eu ainda de paletó e gravata, sentado à beira da cam a. Aj udou-m e a tirar a roupa, tinha pressa, ao ver-m e em pêlo buscou com a m ão o deus-m enino, teve um sobressalto ao constatá-lo um trapo. Experiente, recorreu à boquilha, nunca falhara, falhou.

Não deu m esm o, acontecera o revertério, não houve com o, nem m ão de fada nem língua da Rainha de Sabá. Noite de torm entos, ela em ânsia a esfregar-se, gata cm cio, arranhou-m e, m ordeu-m e, sugou-m e: não podia acreditar que j ovem tão j ovem perm anecesse insensível à sua gula — por m ais tivesse se esforçado não obteve resposta. Masturbou-se diante do tarado, aproveitei para m e vestir e ir em bora, gem ia baixinho quando fugi. Ao som dos passos a criança voltou a acordar e a cham ar: papá, papá. Saí correndo.

Garoto de dezoito anos, tesão para dar e vender, vivia de pau duro, brochei, ainda ouço o infante na saudade do pai, o cabrão devia ser o pai m ais am oroso.

Bahia, 1973.

Revisão

Matilde, viúva de Pablo Neruda, telefona de Caracas, virá por uns dias, m udará de avião no Rio, precisa conversar com igo. Fazia pouco tem po da m orte de Pablo — dois, três m eses, j á não recordo —, logo após a queda de Allende. Matilde conseguira salvar da sanha de Pinochet os textos do livro de m em órias e os enviara por via diplom ática para Miguel Otero Silva na Venezuela. Telefona-m e de lá, da casa de Miguel. Zélia e eu a aguardam os no aeroporto, ninguém sabe de sua vinda, no Passaporte estabelecido em nom e de Matilde Urrutia não consta o nom e de Neruda.

Com Miguel Otero, Matilde organizara os originais de Confesso que vivi, as m em órias do poeta, m as antes de entregá-las às editoras desej a consultar-m e sobre alguns detalhes, problem as políticos referentes a Cuba e China: Pablo confiava em ti, quero ouvir teu parecer. Desvendam os a Bahia a Matilde que m al a conhece da rápida passagem anterior, ela se deslum bra. Voltará anos depois para se despedir, sabia que lhe restava pouco tem po, o câncer se alastrara, deu a Zélia de presente um cinto de prata, antigo, de seu uso pessoal, beij ou-m e o rosto, não a vim os m ais.

Na China estivem os j untos os quatro(em 1957), quando se instalava a reação que iria conduzir ao m orticínio da Revolução Cultural, após a farsa das m il flores que tanta esperança nos havia dado. Na face dos am igos, Em i, Ai-Ching, Ting Ling, a angústia: desapareceram antes que em barcássem os de volta, Pablo de tão am argurado perdera o com edim ento. No banquete de despedida, quando o cam arada representante do governo ergueu um brinde ao maior poeta das Américas, Pablo Neruda, e ao maior poeta da Ásia, Mao-Tsé-Tung, Pablo m andou a prudência às favas e com sua voz arrastada disse ao agradecer que não lhe parecia j usto considerar m aior poeta da Ásia quem escrevera apenas dezessete poem as: foi quando fiquei sabendo o núm ero exato dos poem as de Mao. O assunto de Cuba eu o conhecia em detalhe, sabia quem redigira e quem assinara o m anifesto ignóbil, a posição de Depestre, exilado em Havana: negou-se a subscrevê-lo apesar das am eaças.