Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 208 de 262

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Navegação de Cabotagem

Kandi, 1957.

Levantam o-nos todos em alvoroço, o grandalhão andou para Giovanni, o sorriso de galã prelibando o rabo do neófito, ia pousar-lhe no om bro a m ão de proprietário, recebeu o soco na cara, tão inesperado que não reagiu de im ediato. Quando gritou seu filho-da-puta e partiu para acabar com o ousado, Giovanni desferiu-lhe um ponta-pé nos culhões, o m enino sertanej o calçava borzeguins ferrados por m edida de econom ia no salto e na ponta, um a catapulta; o fanchono se dobrou em dois, soltou um vagido de dem ente, escapuliu porta afora segurando os quim bas.

Giovanni ganhou de vez e para sem pre respeito, adm iração e am izade, a classe em peso o aplaudiu. O recado que recebera passou de m ão em m ão, frase curta, m ensagem ardente e delicada: Gió, peço-te encarecidamente o cu.

Kandi, 1957.

A jaca e os cocos verdes

Vestidos de turistas, Matilde e Pablo, Zélia e eu viaj am os a ilha do Ceilão — j á então país independente ainda não era Sri Lanka. Ao volante do carro arcaico, sobrado da colônia, o chofer, cinquentão inglês, usa gravata e chapéu gelo, um senador da República. Não digo que nos olhe com desprezo, m as pouco falta.

Maratona de tem plos budistas, m aom etanos, brâm anes, cam pos de esculturas, os deuses terríveis do Oriente, Vishnu, Civa, a dos braços de serpentes, os Budas im ensos, os elefantes: nos painéis, nas paredes de granito, nas fachadas de pedra, nos bronzes, exibem -se posições do Kam a Sutra, acrobacias. Descalço, em Kandi, m archo quilôm etros tentando esquivar-m e das cusparadas verm elhas de bétel para chegar à entrada do Dala Maligawa, santuário onde se venera um dente de Buda, relíquia única segundo os m onges que recolhem as espórtulas. Soube depois que na China existe outro dente de Buda, tam bém único.

Obtive dois triunfos na excursão cingalesa, causei sensação, recolhi aplausos: quando rasguei a j aca e expus os bagos e quando dei a beber a água de cocos secos, vanglorio-m e.

Os cocos secos, m eia dúzia, estavam expostos na porta da quitanda perdida na m ata, ao vê-la gritei alvíssaras, m orríam os de sede:

— Água-de-coco, viva! Estam os salvos. Seria m elhor de coco verde m as de coco seco tam bém serve.

O senador desceu — ou elevou-se — do posto de m otorista ao de tradutor, queríam os com prar os cocos para beber-lhes a água, os roceiros do Ceilão, gozadores iguais aos brasileiros, divertiram -se à grande: com o iríam os fazer? Queriam ver. Tom ado de escrúpulos, o dono do negócio, um velho de barbicha, explicou aos turistas, decerto bárbaros norte-am ericanos, que a água dos cocos se derram aria quando os partíssem os, se quiséssem os com er a polpa, saborosa, valia a pena com prá-los, pela água era j ogar dinheiro fora. Óbvio!, acrescentou por conta própria o senador, esboçando um sorriso de escárnio. Ri do óbvio britânico e dos escrúpulos do quitandeiro pois j á vira o prego na parede da vendola: deixem com igo.

Um prego caibral, a ponta apenas enfiada no adobe, foi fácil arrancá-lo. Com ele furei o olho cego de cada um dos cocos, bebem os a água com avidez, o senador aceitou participar: coube-lhe um coco inteiro, sorveu a água, com eu da polpa. Aplaudido Pela assistência, forneci de graça a tecnologia brasileira aos cingaleses.

Após visitar as ruínas do palácio do rei Kasy apa em Sigiriy a, cansados da escalada do rochedo — cansados eles três, Zélia, Matilde, Pablo, eu não, não sou de escalar rochedos para ver ruínas —, m ortos de fom e os quatro, avistam os um a palhoça à som bra de palm eiras e nela à venda alguns legum es e um a j aca, exclam ei eureca, grito de triunfo. Descem os do autom óvel, aproxim ei-m e, apalpei a fruta enorm e e perfum ada, j aca-m ole no ponto de ser com ida: sou conhecedor, papa-j aca desde a infância nas roças de cacau. Em frente à choupana alguns vadios m atavam o tem po em conversa fiada, viram -m e apalpar a casca da j aca, trocaram olhares de zom baria. Com a aj uda do senador, outra vez intérprete, perguntei o preço, paguei, a gozação dos nativos cresceu, fitavam -m e com curiosidade, diziam -se coisas, riam , ansioso por saber que diabo eu iria fazer com aquele tram bolho.

Para m anter o suspense, antes de tom ar da j aca, sentei-m e num caixão vazio, pedi a Zélia o canivete do qual não se separa arranquei um as taliscas das folhas das palm eiras, com ecei a transform á-las em palitos e os distribuí pela equipe do autom óvel — sobraram alguns, coloquei-os sobre o pedaço de tábua que servia de balcão, sorri para os im pacientes à espera, levantei-m e.

Botei a j aca de pé sobre o caixão, com a m ão esquerda segurei o cabo do bagunço, com a direita rasguei-a de alto a baixo com o se faz na zona grapiúna — não é difícil —, expondo à luz os bagos am arelos: o m el escorria, dava água na boca. Arranquei o bagunço, com ele rem ovi o visgo que cobria os bagos, tarefa delicada — experim ente quem a im agina fácil —, quando vi a superfície lim pa enfiei a talisca, retirei um bago e o saboreei, estava suculento, estalei a língua. Matilde, Zélia, Pablo, o senador por fim rendido às m inhas habilidades regalaram -se, os aplausos dos nativos afagaram -m e a vaidade. Sendo descom unal, a j aca perm itia a generosidade, distribuí palitos, fiz sinal de convite aos presentes: aceitaram , desprezaram os palitos, foram de dedos aos bagos com o se faz nas roças de cacau. Jaca m ais gostosa não com i em m inha vida, a salva de palm as lhe concedera sabor especial.

Gabei-m e dos êxitos, não devo escam otear a derrota: vencidos pelo colonialism o britânico batem os em retirada, cabeças baixas, os narizes tapados com os dedos. A m eta da prim eira j ornada era Kandi, capital do antigo reino do Ceilão, lá devíam os pernoitar e passar um dia. No desej o de aprofundar nosso conhecim ento da vida e da gente do país, com unicam os ao senador a decisão de não tom ar aloj am ento em hotel inglês, queríam os hospedaria nacional. O chofer tentou nos dem over, iríam os com eter um erro, não nos convenceu, Pablo quase se zangou, fiz pé firm e, as donas nos apoiaram : ficaríam os onde ficavam os cingaleses: abaixo os resquícios do colonialism o! O senador não discutiu, apenas não nos acom panharia, m anteria seus hábitos. Ao chegar a Kandi parou diante de um a porta sem i-aberta, dava entrada para terreno plantado de capim , sobradão ao fundo: o m elhor hotel cingalês da cidade.

O senador não perm itiu às senhoras descerem do carro, aconselhou que esperassem com odam ente sentadas enquanto Pablo e eu iríam os reservar os aposentos. Tam pouco retirou as bagagens do porta-m alas nem se propôs a nos acom panhar até a recepção, com um gesto indicou-nos a porta. Após atravessá-la não avançam os m ais de dois ou três passos. Recuam os diante da suj eira e da fedentina: o terreno servia de latrina, m ontes de bosta sobre o capim , poças de m erda, um hóspede de cócoras defecava.

Cabisbaixos retornam os ao autom óvel, o senador não tripudiou, tom ou do volante em silêncio, nos conduziu à higiene inglesa, água com cloro, gosto de iodo, odor de desinfetante. Revalidam os nossa posição anti-im perialista indo j antar frango ao carril em restaurante hindu, um tanto quanto suj o m as não dem ais.