Navegação de Cabotagem
Budapeste, 1951.
Sorriso angelical, Maria da Bahia, nascida em Palm eira dos índios, faz um m uxoxo, olha para o chão:
— Obedeci, que podia fazer? — Levanta os olhos, aj eita o cabelo negro e liso: — Ordens de um soviético, tinha de obedecer. Depois, ele m e disse: peça ao Jorge que lhe fale do Congresso, pode pôr em m inha boca o que ele lhe disser. — Maria da Bahia tom a do papel e da caneta, pronta para a entrevista.
Saído do inferno da guerra, batido pela vida, Ily a andava pelos cinquenta anos, aparentava m ais, nós lhe dizíam os o velho. Entendo que Maria vá para a cam a com Enrique Am orim , galã latino, m as com Ily a, por quê? Por que, Maria da Bahia?
Aquele sorriso cândido, os olhos puros, sonhadores;
— Pra quando eu escrever m inhas m em órias.
Não teve tem po de escrevê-las, m orreu num desastre de autom óvel ao voltar ao Brasil, dois anos depois. Mas a entrevista — Ily a Erem burg, em Wroclaw, fala à nossa enviada especial — obteve sucesso, despertou polêm ica.
Budapeste, 1951.
Honra e orgulho
Estou em Budapeste em efervescência, em pleno processo Raj k*, os processos da era stalinista vão se renovar, agora de país em país, em todas as dem ocracias populares. A ruptura de Tito com Stalin deu o sinal de partida para a grande purga, o Santo Ofício com unista inicia as visitações. Crédulo, incondicional, acredito nas histórias de com plôs e traições, vej o em cada um dos acusados inim igo j urado da Revolução, da classe operária, do esplendor do am anhã.
*Processo político que condenou à morte o dirigente comunista húngaro Lázlo Rajk(1909): executado em 1949, reabilitado em 1955.
No terraço do bar alguns am igos se encontram para beber com igo, conversar, saudar o cam arada brasileiro, escritor bem -visto pelos leitores, as traduções de Jubiabá e de Terras do Sem Fim obtêm sucesso. O tradutor, com unista m agiar, vivera durante anos em São Paulo, regressara à pátria após a derrota do nazism o, está Presente, aj uda na conversa: quase todos falam francês, m as quando a língua húngara dom ina, ele m e perm ite seguir e entender a discussão.
Sucede invariavelm ente nas reuniões onde um estrangeiro é o centro das atenções que, a partir de certo m om ento, esgotados os tem as de conversa com o hóspede, im põem -se os assuntos de interesse dos nativos, o adventício de participante passa a ouvinte. Assim sucedeu naquela noite em Budapeste: a discussão do processo Raj k deixou de lado as am abilidades literárias, a m iséria do terceiro m undo, o erotism o das m ulheres tropicais, o bate-papo pegou fogo.
O j ovem poeta se exalta, contente de exibi-lo, não abre m ão de seu francês sem acento, será que entendo o que afirm a, conclusivo? Diz que a confissão de um dos acusados — de todos, contam -m e depois — foi arrancada à base de torturas praticadas nos cárceres pela polícia política. Tortura? Devo ter ouvido m al, não falou tortura, certam ente, o que foi que ele disse? — pergunto em dúvida, em agonia. Minha honra e m eu orgulho consistem em saber, de certeza absoluta, que num regim e com unista, num a sociedade socialista, j am ais, j am ais, nunca j am ais, um preso poderá ser subm etido à tortura: intelectual, m oral, m uito m enos física. Meu espanto, m eu pasm o provoca chalaça, debocham de m inha santa ingenuidade, devo ser o últim o dos idiotas, quem não sabe que a tortura com e solta?