Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1954.
Um dia chegou-m e à casa do Rio Verm elho um telegram a anônim o m andado de São Paulo. Com unicava que os ossos de Carlos Marighela, se não aparecesse pessoa da fam ília para reclam á-los, seriam atirados à vala com um : quem telegrafou não sei, porque a m im , entendo. Levei o telegram a ao irm ão de Carlos, funcionário da Petrobrás, e a Carlinhos, m eu sobrinho. Os dois tom aram o ônibus para São Paulo, foram resgatar os ossos.
A m em ória de Carlos nós a resgatam os tem pos depois ao enterrar aqueles ossos no Cem itério das Quintas, na Bahia, à som bra de m onum ento concebido por Oscar Niem ey er, pronunciei um as palavras, houve quem chorasse.
Rio de Janeiro, 1954.
A impaciente
Costureira, há dias na m áquina a pedalar, Quitéria conta e reconta sua vida: pernam bucana, da caatinga, em Recife costurava para nossa am iga Otília Barbosa*, veio para o Rio, Zélia a adotou. Sertanej a, troncuda, busto farto, rosto largo, olhos m iúdos, um fio de navalha, cabeleira presa, o pente de tartaruga enfiado no coque, um m onum ento: possuída por um espírito das trevas — é espírita m ilitante — certo dia soltou a cabeleira, a j uba inundou a sala de costura, coisa de ver-se. Quem inventou a expressão um breve contra a luxaria o fez, estou certo, pensando em Quitéria.
No m eio da conversa a revelação m e surpreende: Quitéria refere-se a um a filha, reside nos arredores do Recife, é casada, está grávida:
— Um a filha, Quitéria? Vai ter neto? E eu que pensava que você fosse donzela.
Quitéria fita-m e, percebo o protesto na nesga dos olhos quase fechados:
— Donzela? E eu lá tenho paciência para isso?
*Otília Barbosa, irmã do poeta Odorico Tavares.
Praga, 1950.
O secretário
Négre aux vastes espoirs, m eu conhecido das plaquetes publicadas por Pierre Seghers, editor de poesia, encontro René Depestre, rapazola, num beco sem saída em Praga-Posto fora da França, o exilado haitiano, m oço poeta, m ilitante com unista, recém -casado, buscara asilo na Tchecoslováquia, onde o Partido assum ira o poder, pátria socialista. Enfim em paz para dedicar-se à poesia e à luta pela liberdade de seu país distante e pobre.
Nem paz nem m eia paz, Praga vive o terror do processo Slansky *, o m edo e as denúncias, prisões repletas. Depestre tem e pela esposa, a bela Edith, j udia rum ena, suspeita de espionagem . Por que suspeita, ninguém sabe, m as a fuxicaria predom ina e as am eaças crescem . Os organism os que acolheram René vivem a covardia am biente, desconvidam o convidado, há quem lhe sugira solução conform e os tem pos: abandonar a esposa, renegar a com panheira, a suspeita é ela, não ele, o poeta reage, indignação e asco. Assim o encontro sem ter para onde levar a m ala de exilado e sua bela j udia, por j udia posta na pauta dos duvidosos.