Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 68 de 262

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Nice, 1990.

Conta-m e um a história que dá nova dim ensão ao herói do m anual de História do Brasil. A expedição m ilitar que saiu do Rio de Janeiro com o obj etivo de expulsar os holandeses de Angola deveria ter contado com a bravura e a com petência com provadas de Henrique Dias. Designado capitão do batalhão dos negros im portante troço das tropas, na últim a hora foi destituído do com ando e afastado da viagem . Os secretas a serviço do governo da colônia haviam descoberto um plano subversivo, tram a do angolano — Henrique Dias não pretendia se lim itar à expulsão dos holandeses, seu proj eto libertário era botar para fora de Angola os invasores batavos e na m esm a vassourada os colonizadores lusos, proclam ar a independência.

Aqui fica a inform ação com o a recebi, nem tirei nem acrescentei, eu a deixo aos cuidados dos doutos da categoria de Thales de Azevedo, José Calasans, Dias Tavares, ou sej a, Luiz Henrique.

Nice, 1990.

 

A primeira-dama

No hotel, fim de tarde, tarde da Cote d'Azur, o sol de inverno descendo sobre o m ar, com entam os, Zélia e eu, o sucesso de Gil* no show da véspera, ele o m erece, sobretudo na hora da orfandade do filho, tão sofrida. O telefone soa, no hall a doutora Annie Sidro, doutora em sociologia e em carnaval — seu livro sobre o carnaval de Nice é um m onum ento — está com ela um a senhora, acaba de chegar de Bucareste via Paris, veio à França na com itiva do prim eiro-m inistro Pietro Rom an, em visita oficial. Deslocou-se até Nice para encontrar o professor de direito que a orientou quando, bolsista rom ena, preparava tese de doutorado, ao saber que estou na cidade desej a cum prim entar-m e. Resm ungo palavrões ante a invasão do nosso fim de tarde, noblesse oblige, descem os ao encontro da brava Annie.

*Gilberto Gil, compositor e cantor.

Noblesse oblige e vale a pena, pois deparam os com senhora m enor de trinta anos, de extrem a beleza e extrem a elegância, um pedaço de descam inho. Nervosíssim a, tensa a não m ais poder, na Rom ênia sucedem m otins e a violência tom ou conta das m as de Bucareste, m anifestações hostis ao governo provisório do Com itê de Salvação Nacional, presidido por Ion Iliescu. Postada no hall do hotel, os derradeiros raios de sol a ilum inam , ela fulge ao crepúsculo, declara cham ar-se Dana e desej a falar com igo.

Na m esa do bar, Dana m olha os lábios no copo de uísque, inicia discurso inflam ado, interm inável, conta de seu país em convulsão, da capital liberta e ocupada. Narrativa dura, de crueldade e espanto: a luta contra o regim e feudal de Ceaucescu, ditadura de terror e sangue, a tragédia dos torturados, dos assassinados, do m assacre; a tragédia do ditador deposto e de sua m ulher, os corpos expostos, o povo em cólera, a libertação substituindo o m edo e o silêncio pelo ódio e pelo desej o de vingança, caça às bruxas, confusa: quem é quem , quem deve ser preso agora e quem logo depois. A narrativa é tétrica, os dias vividos em cativeiro ela e o m arido, Dana estrem ece ao contar, acende cigarro sobre cigarro, esvazia o copo de uísque, as doses se sucedem . Annie, Zélia e eu estam os esm agados sob tam anha opressão, a vida intelectual reduzida a zero, a m iséria das m assas populares, a ditadura de Ceaucescu só é com parável às de Hitler e de Stalin.

Dana cita o m arido a cada instante, ele é ídolo e paixão, seu deus m enino, um grande hom em , declara, um professor, um m estre. Levantado contra Ceaucescu, a ele a Rom ênia deve em grande parte o fim da tirania, a queda do ditador. Tanto ela fala no m arido e em seus feitos que, curioso de saber, m e anim o a Perguntar: seu m arido, quem é ele?

— Sou Dana Iliescu — m e responde.

— A esposa do Presidente?

— Sou eu.

Porra!, exclam o, quer dizer, não exclam o, penso: esse cam arada Presidente tem bom gosto e apetite, j á sessentão escolheu para esposa m ulher m oderna, j uventude, elegância e form osura reunidas, a prim eira-dam a da Rom ênia é de ninguém botar defeito. A conversa se prolonga até a hora em que Annie Sidro, cônscia de suas obrigações carnavalescas, nos leva para o palanque. Despedim o-nos de Dana, tocados por sua angústia e seu devotam ento, ela deve regressar na m anhã seguinte para Paris. No palanque, vendo o desfile dos carros alegóricos, com entam os a aflição da prim eira-dam a: saída da ditadura, a Rom ênia busca o cam inho difícil da dem ocracia por entre m anifestações, protestos choques sangrentos, am eaças, pavores. Pelas últim as notícias Bucareste é devastado cam po de batalha.

No dia seguinte, após o alm oço, o telefone nos devolve Dana Iliescu, a viagem adiada por vinte e quatro horas, quer nos ver para cum prir ordens do m arido Presidente da República. Tivera-o ao telefone, contara do encontro com Zélia e com igo, ele ordenou que ela voltasse para nos oferecer um a taça de cham panhe, prova da estim a em que nos tem .

Dana quer vir im ediatam ente, ela precisa de apoio, a pobrezinha, com padece-se Zélia, coração m aterno, desisto da sesta, descem os ao encontro da prim eira-dam a da Rom ênia. Recuso o cham panhe, ofereço uísque, ela tam bém prefere, a conversa da véspera recom eça. Dana conta intim idades da fam ília, é a segunda esposa de Iliescu, viúvo quando ela o conheceu na Universidade e se apaixonaram : não consigo saber se ela era aluna, colega ou assistente dele, fosse o que fosse acabaram na cam a, casaram -se, são cônj uges felizes. Dana passou a m anhã com prando presentes para os netos do m arido, para o filho do prim eiro casam ento e para a nora, alim entos, vestuário e brinquedos, em Bucareste não há o que com prar. Ainda bem que a agitação dim inuiu, o Presidente pode respirar, Dana aproveita e nos convida a visitar a Rom ênia, fazem 30 anos que lá estivem os pela últim a vez. Aparece no hotel o m oço Tawil*, veio com binar alm oço para o dia seguinte, ao ver Dana fica deslum brado, ao saber quem é tom a da m áquina fotográfica, exerce a profissão de j ornalista. Dana traça o uísque com coragem , fala, fala, conta, conta sem parar, Tawil está nas nuvens, que reportagem vai m andar para A Tarde: a prim eira-dam a da Rom ênia, salve! Dana se despede horas depois, partirá pela m anhã, em Paris se reintegrará à com itiva do prim eiro-m inistro.

*Eduardo Jasmim Tawil, jornalista.

No terceiro dia, m anhãzinha, Dana ao telefone: seu avião partirá no fim da tarde, convida-se para o alm oço m arcado na véspera com o repórter, sim patia de rapaz, virá nos encontrar no hall do hotel. Abandono a ideia de pizzaria, reservo m esa em restaurante de classe, não se pode levar a m odesta pizzaria de pobretões um a prim eira-dam a, m esm o que sej a de um país tão conturbado, noblesse oblige.

Dana surge no apogeu da elegância, com prara uns trapos em Nice, uns quantos vestidos, blusas, pulôveres, sapatos finíssim os, algum a roupa íntim a, cam isola francesa. No aeroporto de Paris trocará de avião, assum irá o lugar de honra na com itiva do prim eiro-m inistro, à noitinha estará nos braços do Presidente m atando saudades. Esta noite vai ter! sussurro no ouvido de Zélia, ela m e fita, olhar de repreensão, o casal Iliescu a com ove, o am or a uni-los deixa Zélia exaltada, ordena-m e mais respeito, por favor — sinto-m e pequeno.

Alm oçam os bem e caro, Eduardo Tawil, repórter com petente, fotografa, tom a notas, redige, sai do restaurante direto para o fax que levará ao povo baiano notícias quentes de Bucareste em fogo, entrevista com a prim eira-dam a da Rom ênia, m atéria de prim eira página, e notícia do alm oço na coluna de July. Dana se despede pela terceira vez, j uras de am izade, à bientôt. Lá se vai ela prom enade afora, saltos altíssim os dos sapatos, elegância suprem a, xale ao pescoço e ao vento. Não posso im pedir-m e de im aginá-la à noite nos braços am orosos de seu Presidente, m as não m e atrevo a revelar a Zélia m eus pecam inosos pensam entos, salafrários: feliz noite, caro Presidente, form osa prim eira-dam a, am antíssim os!

O conhecim ento de Dana torna ainda m aior nosso interesse pelos acontecim entos da Rom ênia, acom panham os a cam panha eleitoral, os debates, as dificuldades, a eleição para a Presidência da República: Iliescu, candidato a continuar no posto não m ais devido a acordo político e, sim , eleito pelo povo — o que, aliás, aconteceu: votação consagradora.

Na ocasião leio em Le Figaro am pla reportagem sobre a Jornada eleitoral. Foto em duas colunas ilustra a m atéria: Iliescu em com panhia da esposa deposita o voto na urna. Grito:

— Zélia vem ver tua am iga prim eira-dam a votando... Zélia acorre:

— Quem , Dana? Me m ostre...

Um tanto quanto envelhecida, em verdade bastante. A prim eira-dam a da foto é outra, senhora sim ples e idosa. Zélia, de queixo caído, a voz dim inuída:

— Mas essa não é Dana...

— Dana não é a prim eira, deve ser a segunda-dam a. Em 1991 vam os à Itália, sou m em bro do j úri do Prêm io de

Literatura Latina da União Latina, será concedido pela segunda, vez. Da prim eira foi outorgado a Juan Carlos Onetti, m estre rom ancista uruguaio, o segundo será ganho por José Cardoso Pires, m estre rom ancista português. Faz parte do j úri o escritor rom eno Dan Haulica, tem os am igos com uns em Bucareste e em Paris, o fato dele ser leitor e adm irador de Luandino Vieira apressa nossa confraternização. Haulica é am igo de Iliescu, íntim o. Zélia conta-lhe a história de Dana: após a foto denunciadora, Zélia concedera-lhe categoria de am ante, im aginara história de am or adulterino, ilegal e exaltante paixão devoradora, nascida e vivida na luta pela liberdade, tentei concorrer com detalhes insinuados pela cam isola francesa, fui vetado: você só pensa nisso.

Dan Haulica ouve, surpreso, indignado, nega a Dana qualquer crédito, nem esposa, nem am ante, Iliescu é seriíssim o, corretíssim o, j am ais deu-se a aventuras, viveu e vive para o lar, cidadão recatado. Adem ais nunca teve filhos, m uito m enos netos, são ele e a esposa e se bastam . Digo a Zélia:

— Acabas de perder até os netos de Iliescu, quanto a m im perdi a noite de am or presidencial e a cam isola. Não nos restou nada.