Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1939.
Adm irador do m úsico paraguaio — quem não o era na Am érica Latina? — tratou de resolver-lhe os problem as, vários: visto de entrada na Inglaterra válido por vinte e quatro horas, revalidação da passagem , reserva de lugar no prim eiro vôo do dia seguinte para Viena. Levou-o a um hotel próxim o do aeroporto, pagou-lhe quarto e j antar, pela m anhã m andaria o chofer aj udá-lo no em barque. Tudo em ordem , para finalizar pediu o autógrafo do com positor: mi mujer canta en el bano sus guaranias.
Foi assim que, sobraçando a pasta repleta de partituras, da qual j am ais se separava, Asunción Flores chegou a Viena com atraso de um dia. Ninguém a esperá-lo, sua salvação foi a carta de Ghioldi para m im , no envelope o endereço da sede do m ovim ento da paz. Lá conseguiu chegar, m e encontrou, paguei o táxi.
Asunción m orria de fom e, com eçava a m orrer de fom e cinco m inutos após ter alm oçado, levei-o a um restaurante, estava conosco a cam arada que o Conselho Mundial da paz designara para m e servir de intérprete, austríaca gorducha e sardenta, baixota, Asunción dividia os olhares de gula entre ela e o goulash, faminto de comida e de mulher, assim se declarara ao abraçar-m e, exigindo que eu lhe resolvesse as aflições — era dos que acreditavam que eu poderia solucionar qualquer problem a. Fez-m e um a revelação: cidadão paraguaio, disse-m e, após quatro dias sem mulher já não leva em conta idade, raça e sexo, ele com pletara cinco dias.
A sardenta, vendo-o gesticular, ansioso, quis saber o que se passava, por que estava tão agoniado o cam arada Flores — de quem eu j á lhe dera as coordenadas, inform ando-a sobre as guarânias e a popularidade. Expliquei-lhe ser ele paraguaio e que um paraguaio após quatro dias sem m ulher etecetera e tal. Perguntei-lhe se ela não se dispunha a resolver o problem a do cam arada, ali estava excelente ocasião para pôr em prática o internacionalism o proletário. Ouviu-m e com atenção, depois m ediu Asunción de alto a baixo, gordo e calvo, a cabeça um queij o-do-reino, quis saber:
— Ele é m esm o m uito célebre?
— Três célebre! En Buenos Aires les fem m es se battent pour coucher avec lui...
Novo exam e do físico do paraguaio, o resultado pareceu-m e pessim ista:
— Célebre som ente na Am érica Latina, não é?
Vi a situação periclitante, Asunción em m aus lençóis, recorri aos princípios:
— Não esqueças que as m úsicas dele vão ser tocadas em Moscou, será a glória universal. — Senti que a abalara, fui decisivo: — Tarefa de partido, m inha bela.
Argum ento é argum ento, a sardenta sorriu para o careca. Paguei a conta, m e retirei discreto, deixei-os tête-à-tête, afinal Asunción m e acreditava capaz de resolver qualquer problem a, não podia abandoná-lo no alvéo.
Rio de Janeiro, 1939.
Os dez mais
A Revista Acadêmica, nascida órgão estudantil na Faculdade de Direito, transform ada em m agazine de cultura, ganha-pão de Murilo Miranda*, literato por analogia e parentesco, era de periodicidade irregular, saía quando Murilo arranj ava anúncios ou patrocínio, realizou em cinco ou seis núm eros um concurso para saber quais os dez m elhores rom ances brasileiros. Voltavam apenas escritores, a relação dos votantes fora publicada na revista, cada qual com punha um a lista de dez rom ances de sua preferência, as listas eram divulgadas nas páginas da Acadêmica.