Navegação de Cabotagem
Escorial, 1990.
*Éditions Universitaires, 1978.
*Dona Flor et ses deux m aris, Stock, Livre de Poche.
Bahia, 1991. Latinidade
Telefonem a de Paris, encom enda de artigo para um núm ero especial de Le Nouvel Observateur a propósito do quinto centenário da Descoberta da Am érica. Tem a: Brasil, país latino. Digo que sim , escreverei, ponho-m e a pensar.
Brasil, país latino? Som os latinos, nós, brasileiros? Um a espécie rara de latinos, a verdade é que som os m estiços, m ulatos m ais brancos ou m ais negros, da cor de cobre dos índios. Zélia, filha de pai e m ãe italianos, nascida em São Paulo, será ela latina? De sangue, vá lá, culturalm ente com certeza não.
Usam os na Bahia duas expressões, criadas am bas, penso eu, pelo norte-am ericano Donald Pierson*, para definir nossa proclam ada latinidade e nossa sonegada condição africana. Diz-se branco baiano àqueles m estiços de pele clara e alta posição social: brancos baianos foram , por exem plo, os irm ãos Mangabeira, João, o grande j urista, e Otávio, deputado, Ministro do Exterior, Governador do Estado. Diz-se mulata branca àquelas m estiças alvas, por vezes loiras, cuj a negritude desponta nos lóbulos das orelhas, nos lábios grossos, na bunda roliça e puj ante. O bom exem plo de mulata branca é Marta Rocha, a form osa baiana que não foi eleita Miss Universo por ter duas polegadas a m ais de ancas, as duas polegadas im ortais da m istura de sangue alem ão com sangue negro.
*Donald Pierson, antropólogo norte-americano.
Escorial, 1990.
Cachê
Convidados a participar dos cursos de Verão da Universidad Com plutense, ficam os hospedados no Escoriai em próprio da Universidade construído em priscas eras por Franco para hospedar convidados estrangeiros em visita ao "Valle de los Caídos".
Participarei de m esa-redonda que estudará a literatura de língua portuguesa no quadro de sem inário sobre a novelística espanhola, o colonialism o cultural espanhol reduz as literaturas de língua portuguesa a um a única literatura e a coloca com o apêndice da novelística espanhola, enquanto Zélia intervirá em outro sem inário cuj o tem a é "política e im igração". Além de m im estão na m esa-redonda o rom ancista português Cardoso Pires, o professor espanhol Perfecto Cuadrado, o poeta brasileiro Cláudio Murilo, diretor da Casa do Brasil.
O autor de Alexandrina Alpha m e pergunta se j á m e pagaram o cachê que nos é devido por nossa participação, m odestas 45 m il pesetas, ele, Cardoso, j á as em bolsou. Ainda não, m e queixo, ele propõe-se a m e acom panhar até o local do pagam ento. Lá vam os, recolho as pesetas, tim idam ente Zélia pergunta se ela não terá tam bém cachê a receber por sua fam ília de im igrantes e seus anarquistas. Não só tem com o lhe pagam , diante de nós, do rom ancista luso e do baiano, noventa m il pesetinhas, exatam ente o que recebem os ele e eu reunidos (e hum ilhados). Acusam os o colonialism o espanhol por tal discrim inação: literatura de língua portuguesa (literaturas, corrij o) 45 m il, im igração política, o dobro. Zélia, nas asas da ufania, pergunta se não querem os algum em prestado.
Sou deveras incompetente, inepto, a lista das coisas que todo mundo sabe fazer e eu não sei é longa. Aqui inscrevo apenas alguns exemplos: não sei dançar, cantar, assoviar, nadar, multiplicar, dividir por mais de dois números, empregar os verbos, pronunciar corretamente, dirigir automóvel (mas já soube andar de bicicleta com razoável equilíbrio). Não sirvo para grande coisa.