Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 15 de 262

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Nice, 1990.

— Maria dos Anzóis Carapuça está apaixonada por m im , com padre. Desesperadam ente! — Habituado, considerava o fato norm al, m as um a dúvida o perturbava. — Será que ela m e am a, a m im , o hom em , Nicolás, ou será que se entrega devido aos poem as de Guillén? Que pensas, com padre? — Dúvida atroz, exigia a verdade: — a verdade, com padre, diga-m e!

Minha resposta foi sem pre idêntica, no Rio, em Paris, em Praga, em Moscou, em Havana, praças onde o vi às voltas com loiras loiríssim as, as preferidas se bem não exclusivas: Rosa* é m ulata, das Antilhas, Rosa, tu melancólica..., seu am or da vida inteira:

*Rosa, mulher de Nicolás Guillén.

— Apaixonada por ti e por teus poem as, com padre, am a o hom em e o poeta, os dois num só, Nicolás Guillén.

Nicolás sorria em concordância, passava o pente nas m elenas, contente da vida, não era outra sua opinião. Mas em seguida nova dúvida se im punha, a consum i-lo:

— E se os poem as não existissem , tu pensas, com padre, que ela m e am aria? Sem os poem as, ainda assim , m e am aria?

Nice, 1990.

O triste fim

Do carnaval de Nice endereço cartão-postal a Paulo Loureiro* no Recife. Durante anos com panheiros no Partido Com unista, parceiros na m esa de pôquer com Carlos Pena Filho** e Ruy Antunes***, anfitrião sem igual na praia deslum brante, gozador e solidário, am igo de toda a vida, Paulo e eu nos tratam os de velhos bolcheviques, irreversíveis — j untos rim os da tolice e da fanfarronada: "Presido o Júri do Carnaval dos Carnavais, m eu Paulo, triste fim de um velho bolchevique."

*Paulo Loureiro, químico, professor universitário.

**Carlos Pena Filho (1930/1960),poeta.

***Ruy Antunes, advogado, professor universitário.

Bahia, 1964.

Golpe de estado

Desperto com a notícia, nem por esperada m enos infeliz: os gorilas tom aram das arm as, depuseram o governo de João Goulart. Na véspera, em conversa com Luiza e Jenner Augusto*, eu previra o golpe para daí a quinze, vinte dias.

*Jenner Augusto, pintor, Luiza, sua mulher.

Os telefonem as se sucedem , sabem os de prisões, casas invadidas, estam os preparados, Zélia e eu, para o que der e vier, quem veio foi Wilson Lins** ideólogo dos m ilicos. Ao ouvir o anúncio do nom e do visitante, Zélia se arm a em guerra, com ento para arrefecer-lhe o ânim o: Wilson vem nos ver porque é nosso am igo. Poderia acrescentar: o am igo que j am ais m e faltou, nos m om entos m ais difíceis sem pre presente e solidário.

Conversam os literatura e outras baboseiras, com o se os acontecim entos não tivessem acontecido. Ao despedir-se, Wilson recom enda: qualquer coisa m e telefonem em seguida, se eu não estiver Anita** saberá onde m e encontrar. Wilson Lins: nunca falhou.

*Wilson Lins, escritor e político.

**Anita, mulher de Wilson Lins.