Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 64 de 262

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Bahia, 1981.

Só voltei a ver Oswald um a vez, pouco antes de sua m orte, num coquetel em São Paulo, estava num a cadeira de rodas, apertam o-nos as m ãos, nos em ocionam os os dois, sou de choro difícil, saí da sala para não chorar em público.

Bahia, 1981.

 

A solução

Vou ao Cham e-Cham e visitar Mirabeau no dia de seu aniversário, com pleta setenta anos, saúde de ferro, está inteiro, segundo m e diz, querendo dizer que não nega fogo, as nam oradas aí estão de prova.

Viúvo, Mirabeau vive sozinho na casa da rua Ary Barroso onde nos reuníam os para o pôquer aos sábados e dom ingos — ele, eu, Odorico Tavares, Wilson Lins, Yves Palerm o, vez por outra David Araúj o e Carlinhos Mascarenhas, o m ão-de-gato — residência, atelier, m useu. As m esas holandesas vindas da loj a dos Moreira* os arm ários, as escrivaninhas, os pesos de papel, os quadros de Cary bé e Jenner Augusto, as esculturas de Mário Cravo e as dele próprio, Mirabeau Sam paio, escultor prem iado, no hall de entrada o Cristo e a Pietà, duas peças de m adeira, belas. E a coleção inigualável de santos antigos, cerca de quinhentas im agens — a Nossa Senhora de Frei Agostinho da Piedade, um a das quatro únicas peças assinadas pelo m estre santeiro, o m aior após Aleij adinho, não há dinheiro que a pague, custou m eia pataca a Mirabeau.

*Casa Moreira, um dos principais antiquários da Bahia.

Pintor, recria em suas telas as santas da coleção, vende bem , clientela num erosa e fiel, confidencia-m e: para manter a tarifa, faço abatimento se me pagam à vista, aumento o preço se o pagamento é parcelado. Certa feita perdi a cabeça, dei um quadro de graça, sabes a quem ? A Fafá de Belém, já lhe havia feito abatimento, pois gosto de ouvi-la cantar mas quando ela se dobrou na gargalhada e espiei pelo decote do vestido, perdi o bom-senso, dei-lhe a tela de presente. Desenha e pinta, com e com apetite, ouve m úsica, conversa com os am igos, seu prazer m aior, o preferido. O preferido? Não sei, pois Mirabeau nam ora m uito e o gosto do nam oro é pelo m enos igual ao do convívio dos am igos.

Eu o vej o quase todos os dias e todos os dias ele tem um a história a m e contar, referente às nam oradas, são m uitas, todas elas de vinte e três anos incom pletos, m enos as contemporâneas dos tem pos d'antanho, saudosistas, que lhe trazem presentes, gravatas, lenços, cuecas de agasalho. Catitas e dadivosas todas elas, de categoria social e estado civil variáveis: estudantes, balconistas, secretárias, bem ou m al-casadas ou por casar, noivas em flor, cândidas, vigaristas, personagens cativantes. Por vezes coincido com um a delas, Mirabeau a apresenta e rápido a despede. Revela-m e em segredo que não confia em Cary bé: além de lhe roubar im agens, tenta bolinar suas nam oradas. Tam bém Cay m m i se com porta m al, tom a liberdades com as m oças.

Na visita dos setenta anos Mirabeau m e narra historinha exem plar que revela seu bom caráter e a finura de aflita pretendente. Era ela esposa de um am igo de seu filho Artur, vitorioso executivo. Conhecera-lhe o m arido ao tem po em que os dois m oços frequentavam a Escola de Adm inistração, com parecera à festa de form atura e ao casam ento do rapaz: esteta, casara-se no m eio artístico. Bailarina de profissão, m orena de truz, levada dos diabos, a esposa am a as artes e os artistas do palco e do pincel, se apaixona fácil, presenteia o m arido com chifres esculpidos, cinzelados. Com o não podia deixar de acontecer, apaixonou-se por Mirabeau, e quando se apaixona a m orena investe disposta a realizar seus sonhos.