Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 167 de 262

Páginas do PDF

Navegação de Cabotagem

Praga, 1950.

Melancolia

O que a Academ ia, falo da Academ ia Brasileira de Letras, nos dá não é nem a im ortalidade (sic!), nem a glória (puf!), nem sequer a respeitabilidade, nada disso. Nos dá apenas e isso, sim , é m uito, paga a fatuidade, o transitório, o disparate, o que ela nos dá é a convivência, a am izade. Entrando para a Academ ia — pela porta dos fundos, a do engano, penso eu — ganhei novos e bons am igos: Antônio da Silva Melo*, Clem entino Fraga**, pude privar com Pedro Calm on com quem tratara apenas em rápidos encontros.

*Antônio da Silva Melo (1886/1973), escritor, médico, professor.

**Clementino Fraga (1880/1971), escritor, médico, professor.

Na sala de sessões, quando com pareço, sento-m e entre um novo am igo, não o conhecia antes, Afonso Pena Júnior, beleza de pessoa, culto, inteligente, agradável, e um velho am igo, terno am igo, Álvaro Morey ra. A casa dele e de Eugênia foi m inha casa quando, m enino de dezoito anos, desem barquei no Rio de Janeiro, um filho a m ais: a fam ília era grande, os filhos que Álvaro fez em Eugênia e ela pariu e os adotados por ela e por Alvinho.

Discursa um acadêm ico, Alvinho volta-se para m im , m e diz:

— Ontem à noite m e vi num program a de televisão, gravado dias antes. Só aí m e dei conta de com o estou acabadozinho, fiquei com tanta pena de m im ...

Melancólica, a voz de Alvinho. Melancólica e forte, voz de surdo, ressoa alto, interrom pe o orador.

Praga, 1950.

A chovinista

Maria da Bahia passa por Praga no rum o de Paris, vem de Sofia. Maria da Bahia porque o solar da fam ília fica no Corredor da Vitória, nas vizinhanças do Cam po Grande.

Em busteira, apresenta-se com o afilhada de Graciliano Ram os por ter nascido em Palm eira dos índios, nas Alagoas, declara-se minha parenta: então não sabes que Tenente andou aos tombos com Maria Minha Irmã Caçula? Tenente é Jam es Am ado, ao tem po redator-chefe de O Momento, gazeta do pecê baiano. Subcunhado e confidente, ouço com deleite seus particulares de xibiu e coração.

Por j ornalista, enviada especial de O Momento, credencial fornecida pelo cunhado Tuna (a danada sabe todos os apelidos de Jam es), por ativista do Partido, sobretudo por m orena, galante e fogosa, Maria da Bahia viaj a pelas dem ocracias populares a convite, com direito a transporte, hospedagem e m ordom ias variadas. Leitos ilustres a acolheram em Budapeste, Belgrado Bucareste, em Berlim Leste, em Varsóvia e Wroclaw, em Bratislava, em Sofia. Em Paris, um ano antes, de volta da Iugoslávia, confidenciou-m e a cam a presidencial de Tito, herói e m arechal, será m entira, será verdade, im possível tirar a lim po. Falta-lhe Moscou, Erem burg garantira-lhe convite da União de Escritores Soviéticos, não cum priu. Detém -se em Praga, hóspede da União de Jornalistas da Tchecoslováquia. Em Sofia quem a recebeu foi um parente de Dim itrov a quem ela conhecera na Em baixada da Bulgária, em Paris, Maria da Bahia é bem relacionada nas cortes socialistas.

Erguendo os cálices de slivovice, brindam os no bar do Hotel Praha o próxim o regresso aos penates da j ornalista brasileira. Maria da Bahia lava a alm a, não vê a hora de voltar, o Brasil lhe faz falta, adm iro-m e, nunca a pensara chovinista. Explica-m e: