Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 178 de 262

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São Paulo, 1947.

— Im potente, tu, o galã das Caraíbas?

— Sucede a los m ej ores, herm ano. Pero el ridículo queda con el porteño. — Cantarola a m úsica de Mi Buenos Aires Querido.

Não dem oro a seguir o conselho de Miguel Otero. Por dever de solidariedade nacional, m arco presença na sala do Congresso, ouço com ouvido m ouco interm inável lengalenga em francês de ginasiano: frases-feitas, repetidos slogans políticos. Na tribuna um desem bargador de Belém do Pará, antifranquista tão com bativo quanto chato, deságua infindável repertório de lugares-com uns, haj a saco! Roger Vaillant entra na sala, senta-se a m eu lado, presta atenção ao orador, francês precário, pronúncia am azônica, relam bório. O rom ancista de Drôle de Jeu não tarda a se encher:

— Qui est-ce, l'em m erdeur?

— Un j uge de l'Haute Cour de l'Argentine, três célebre a Buenos Aires.

Roger ouve um pouco m ais:

— Juge, celui là? Célebre? Sais-tu ce qu'il est, l'argentin? Un con! Cest ça qu'il est.

Quantas vezes j á salvei a honra do Brasil, graças ao conselho de Miguel Otero Silva, bom conselho?

São Paulo, 1947.

Oferta

Venho a São Paulo, será m inha últim a viagem na condição de deputado federal ao Estado que m e elegeu, a batalha da cassação dos m andatos com unistas aproxim a-se do fim , estam os em dezem bro, a cassação irá acontecer nos prim eiros dias de j aneiro.

Recebo recado de Júlio de Mesquita Filho, quer m e ver, tem assunto sério a tratar com igo. Atendo ao cham ado, tenho aliás o hábito de visitá-lo sem pre que volto a São Paulo. Recebe-m e com a gentileza habitual, a educação de lorde inglês acrescida pela estim a em que m e tem . Mandou m e cham ar porque desej a que eu leve recado seu a Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do Partido Com unista. Com entam os os acontecim entos, a cassação está à vista, Prestes vai perder a cadeira de Senador da República.

— E as im unidades — acrescenta Julinho, a voz pausada.

O diretor de O Estado de São Paulo é um dem ocrata, respeitoso dos direitos hum anos em geral e do direito de opinião em particular, a m elhor prova é seu j ornal. Anticom unista — aquele anticom unista! — é igualm ente radical na defesa da liberdade de expressão, condena a censura e a perseguição políticas. Com bate o fascism o português, acolhe e em prega no Estadão intelectuais em igrados, perseguidos por Salazar, o com unista Miguel Urbano ocupa posto de relevo na redação. Na conversa Julinho dem onstra-se pessim ista em relação à contingência dem ocrática sob o governo Dutra, sente am eaçadas as garantias, violentados os direitos constitucionais: o quadro parece-lhe inquietante. O Partido Com unista j á foi posto na ilegalidade, sua existência legal não com pletou dois anos, vai acontecer a cassação dos parlam entares — o que ainda im pede o desencadeam ento da reação é a existência da bancada. Julinho tem e que as m edidas restritivas se am pliem , que a ação da polícia política volte aos contornos do passado ainda próxim o, Dutra nasceu da ditadura, ainda ontem seu sustentáculo m ilitar. Tem e que Prestes sej a alvo da violência, prisão, processo, m esm o sua vida pode ver-se am eaçada. Diz-m e que ele fez por isso, não há dúvida, suas posições m erecem discussão e crítica, seus pronunciam entos m erecem repulsa, m as nem assim cabe direito à proibição, à perseguição.