Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 65 de 262

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Navegação de Cabotagem

Bahia, 1968.

Viu-se Mirabeau cercado, solicitado, perseguido, a estrela do bale resolvera dorm ir com ele custasse o que custasse, ele tirava o corpo fora, se negava, em atenção ao m arido dela, am igo de seu filho Artur, a fogosa não desistia, recom eçava. Estavam os dois nessa punheta m oral quando um dia a dadivosa aparece excitadíssim a:

— Vai ser hoj e, Miraba, vai ser hoj e! Fulaninho, coitadinho, viaj a hoj e de tarde para o Rio, de noite venho dorm ir aqui, em tua cam a, vai ser um conforto!

Mirabeau arregalou os olhos, assum iu ar digno, próprio para im por respeito e colocar ponto final na arrelia:

— Não posso fazer um a coisa dessas, m inha filha, im possível. Teu m arido é am igo fraterno de Artur, é com o se fosse m eu sobrinho, é gente m inha. Fique sabendo que m ulher de am igo m eu para m im , é hom em ... — repetiu, enfático: — ... é hom em .

— Hom em ? Pra você eu sou hom em , Miraba?

— Exatam ente.

— Então m e enrabe, Miraba, m e enrabe esta noite, vai ser o m áxim o.

Mirabeau term ina de contar, fita a distância, pensativo. Pergunto:

— E você, Mirabeau, enrabou?

Ele, sincero:

— Mais ou m enos.

Bahia, 1968.

 

A maldição

Com Pierre Verger, personagem m últiplo, cientista, professor universitário, ensaísta, fotógrafo, aristocrata, repórter, feiticeiro da linha de Ifá, Fatum bi na África, Oj uobá na Bahia, visitam os casa-de-santo no subúrbio de Portão, estou no rastro da revolta dos negros m ales, ocorrida em 1832, a personalidade do alufá Licutã m e fascina.

Trabalho no rom ance Tenda dos Milagres, Pedro Archanj o é a som a de m uita gente m isturada: o escritor Manuel Quirino, o babalaô Martiniano Eliseu do Bom fim , Miguel Santana Obá Aré, o poeta Artur de Sales, o com positor Dorival Cay m m i e o alufá Licutã — e eu próprio, é claro. De todos eles Archanj o incorpora um traço, um a singularidade, a preferência, o tom de voz, o gosto da com ida, o trato das m ulheres, a m alícia. Tento saber m ais acerca do alufá e da nação m alê.

No terreiro vazio, além de nós dois, som ente a m ãe-de-santo e a feita que, a pedido de Pierre, ela convocou para a conversa. Iaô de beleza delicada, frágil, m ulata cor de canela, cabelos longos, nariz afilado, grandes olhos cism arentos. Cordial, sorridente, conversa descontraída, é filha de Oxum , o charm e e o dengue. Costureira, tem dois filhos, conta do m arido chofer de cam inhão, ogan de Oxóssi como vosmicê, meu pai, okê.

Ao ouvir porém a pergunta de Verger sobre a possível origem m alê, para Pierre, conhecedor, tal origem é evidente, a iaô se fecha em copas, vão-se o sorriso e a cordialidade, repele a insinuação com repugnância e m edo: malê, eu? Me desculpe, meu pai, nunca soube disso, se ouviu falar fique sabendo que é conversa de sotaque de gente que não tem o que fazer e fica futricando a vida alheia Nervosa, encurta a conversa, tom a a bênção, vai-se em bora, escarreirada: foge da m aldição que persegue o povo m alê. Mãe Mirinha do Portão, filha de Yem anj á, guardiã do caboclo Pedra Preta, confirm a: ninguém aceita ter nas veias sangue m ussum irim , de onde vem a m aldição, ela própria não sabe, sabe apenas que existe e apavora.