Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 187 de 262

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Rio de Janeiro, 1934.

Que outra cidade no mundo ocidental, além de Paris, pode se orgulhar de tantos e tão maravilhosos monumentos quanto Roma, a das sete colinas?

Séculos e séculos de criação se acumulam em suas artérias, nada pode haver de mais belo do que a escadaria que leva à Praça do Campidoglio a não ser a própria Praça, degraus e espaço criados pelo gêniode Michelangelo Buonarroti, foi ele também quem pintou a Capela Sistina. Os gênios se atropelam nas ruas de Roma. A boca aberta, os olhos gratos, o coração alegre, por onde se vá a beleza nos acompanha: palácios, fontes, templos, ruínas, estátuas, murais, sacadas, túmulos, o Coliseu, o Palácio de la Signoria, Moisés em S. Pietro in Vincoli. A beleza repetida ao infinito.

De repente, porém, inesperada e bruta surge a monstruosidade o que pode existir de mais feio e agressivo a sujar a beleza, a diminuí-la, a tornar a cidade incerta, desigual, Roma é imprevisível

Possui inclusive aquele que é sem dúvida o mais medonho de todos os monumentos execráveis do universo. Falo do bolo de noiva erguido em homenagem a Vittorio Emanuele II, além de horrendo enorme, descomunal, abjeto no conjunto e nos detalhes, nas curvas e nos ângulos. Sozinho é mais feio do que todos os feios monumentos de Buenos Aires, cidade tão formosa e agradável que se permite o luxo de possuir tão grande número de fealdades. Um único de Roma, o de Vittorio Emanuele II os supera, hediondez incomparável.

Rio de Janeiro, 1934.

Galo doido

Entrevista de Vinícius de Moraes à revista Manchete (em 1970?) — para mim, naquele tempo de Faculdade, ele era o diabo, revela o poeta falando a m eu respeito — faz-m e recordar Galo Doido. Vej o-o intransigente, radical, a figura desconform e, o olho cego, na agitação, no conflito, erguendo as bandeiras da libertação nacional, da revolução proletária.

Diabo era Galo Doido, agitador com petente, com una dos brabos. Nem eu nem Carlos Lacerda, nem Ivan Pedro de Martins, tam pouco Chico de Assis Barbosa, nenhum a das estrelas da esquerda na Faculdade de Direito da rua do Catete naqueles antanhos se lhe com parava em audácia e devotam ento: arrastava a m assa estudantil, enfrentava a polícia.

Vinícius fazia parte do CAJU, grêm io com pecha de reacionário, reunia o escol da Faculdade: Otávio de Faria, Santiago Dantas, Am érico Jacobina Lacom be, Alm ir de Andrade, m eu prim o Gilson Am ado. A m aioria ingressará na Ação Integralista, uns tantos escapam : Alm ir de Andrade torna-se psicanalista, Vinícius desvia-se nas encruzilhadas libertárias. Vários dos cam isas-verdes chegam -se à esquerda no pós-guerra, Santiago term ina m inistro de João Goulart. Aqui ou ali apenas nacionalistas, o resto era rótulo.

Otávio de Faria j á era autor de sucesso, publicara Machiavel e o Brasil e O destino do socialismo, revelação de ideólogo da direita. Apesar do antagonism o político tornam o-nos am igos: frequentava as sessões do Chaplin Clube e foi Otávio quem levou, em 1931, os originais de O País do Carnaval à Editora Schm idt para publicação. Escreveu o prim eiro artigo a saudar m eu rom ance de estreia, estam pado em A razão, j ornal paulista de Plínio Salgado. Na data ainda não existia a Ação Integralista e eu ainda não entrara para a Juventude Com unista. Mesm o depois, porém , continuam os am igos e o fom os até a m orte do rom ancista de A tragédia burguesa, saga patética da burguesia brasileira.