Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 224 de 262

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Navegação de Cabotagem

Paris, 1948.

*Xavier d'Orville, romancista martiniquenho.

Palom a e Pedro vão conosco, estam os os quatro passando uns dias em Dakar. A visão da porta do nunca m ais — quem por ela sai não voltará — m e agonia, cerra-m e a garganta. De repente a tragédia da escravidão, o porão dos navios negreiros, a viagem com a m orte para os portos da ignom ínia se concretiza. Já não são páginas da História, relatos, nem sequer o poem a im ortal de Castro Alves: os gritos, os gem idos, os lam entos que ali perm anecem , na Ilha de Gorée, ecoam em m eus ouvidos. A porta se abre sobre o m ar Atlântico, sobre a desgraça.

Nos bons tem pos dos vôos do Concorde, Rio—Dakar—Paris e vice-versa, duas vezes por sem ana, eu, que tenho horror às viagens aéreas, aproveitava-m e da velocidade supersônica, tom ava o Concorde no Rio, duas horas e m eia de vôo, descia em Dakar, lá passava três dias, flanando, até o vôo seguinte, duas horas e quarenta Dakar—Paris, o tem po do m edo se reduzia: não faço nada durante travessia aérea, ocupado em conduzir o avião, em segurá-lo no ar, im pedir a explosão, a parada dos m otores, a queda. Term inou-se a linha do Concorde para o Brasil, volto a sofrer as onze horas de pânico.

Em Dakar, a poesia e a festa. Léopold Senghor é Presidente da República do Senegal, exerce a presidência com o escreve poesia, com grandeza: um a única dem ocracia na África, o Senegal, onde coexistem em paz m uçulm anos e católicos, o m ultipartidarism o funciona, realizam -se eleições. Vam os j antar em Palácio, conversam os o m undo e a literatura, em m atéria de literatura Senghor e eu tem os em com um três prêm ios, o Nonino, o Mont Saint-Michel, o Cino del Duca e, j á que falam os em prêm ios, ele m e com unica ter proposto m eu nom e para o Nobel, a proposta vale m ais que o prêm io, agradeço.

Na Em baixada do Brasil, o em baixador é João Cabral*, atravessam os a noite na conversa de sotaque sobre literatura e vida literária. Renato Deny s sucede a João Cabral, realiza um a Sem ana de Cultura da Bahia, um a corte de negras voluptuosas o rodeia na m arina. As m anhãs no Mercado, as tendas coloridas, a pechincha: combien vous me donnez, toi? Fiquei tão íntim o da gente do Mercado a ponto de um com erciante entregar-m e a gerência do negócio ao ausentar-se para cobrar dívida, vanglorio-m e, hábil no cerim onial da pechincha vendi a bom preço dois bubus e um fez verm elho.

*João Cabral de Melo Neto, poeta e diplomata.

Mem bro do Júri do Prix de Ia Mém oire, concedido anualm ente pela Fondation France Liberte, de Danielle Mitterrand, votei para que o prêm io fosse concedido à Fundação da Ilha de Gorée, não m e sai da m em ória a porta aberta sobre o oceano, fechada para a liberdade, o em barque dos escravos, o navio negreiro, Castro Alves em presta-m e a voz de fogo: Senhor Deus dos desgraçados I dizei-me vós, Senhor Deus I Se eu deliro... ou se é verdade I tanto horror perante os céus...

Paris, 1948.

Os imbecis

No quadro da preparação do Congresso Mundial dos Intelectuais pela Paz* convocam os um a entrevista coletiva onde explicarem os as causas e os obj etivos do evento. Presentes no tablado responsáveis pela organização entre os quais recordo Aragon, Renato Guttuso, Iwaszkiewiez, Pierre Gam ara, outros ilustres, Ily a Erem burg veio especialm ente de Moscou.

*Wroclaw, Polônia, 1949.

Jornalistas em grande núm ero, dam os nosso recado sobre os tem as do Congresso, aproveitam os para m alhar o im perialism o norte-am ericano, eu m e refiro à situação do Brasil, j á difícil àquele tem po. Com eçam as perguntas, as da im prensa com unista são m aneiras e respeitosas m as eis que o correspondente da Associated Press dirige-se a Erem burg, anuncia que vai ler e traduzir trecho de um artigo publicado em gazeta de Moscou, ele a exibe dobrada em quatro, não dá para ver de que j ornal se trata. O correspondente serviu longo tem po na URSS, lê em russo, traduz para francês, trata-se de afirm ação literária, concludente: o articulista assegura que o dram aturgo Ostrovski* é o m aior de seu tem po, j unto a ele Molière não passa de um pé-rapado:

*Alexandre Nikolaievitch Ostrovski (1823/ 1886), teatrólogo russo.

— O que diz a isso, Monsieur Erem burg?

Monsieur Erem burg fita m ais um a vez o j ornal nas m ãos do repórter, responde:

— Nós, soviéticos, nos propusem os acabar com os capitalistas, j am ais dissem os que íam os acabar com os im becis.

Finda a coletiva, Ily a conversa com o representante da AP, lê trechos do artigo chovinista. Saím os j untos, ele m e diz:

— Só queria ver o nom e do j ornal, a afirm ação foi no Literatura Gazeta, tudo bem , palpite de literato: se fosse no Pravda, afirm ação do Partido, eu estaria fodido — je serais foutu, em francês não soa m al.

Entre os seres que amei entranhadamente, deles tenho saudade todos os dias, com alguns sonho repetidas noites, estão gatos, cachorros, um papagaio, um pássaro sofre.

O casal de pugs veio da Inglaterra onde eu os adquirira em canis recomendados por Ovídio Melo*, diplomata dublê de pintor naïf, irá desempenhar papel decisivo no reconhecimento do Governo comunista de Angola, exercia funções diplomáticas em Luanda quando a independência aconteceu.

*Ovídio Melo, diplomata, o pintor Juca.

Tanto o macho como a fêmea tinham nomes longos e difíceis, recordavam as ascendências nobres, os pedigrees. Joguei fora os pergaminhos, rebatizei-os, chamei o macho de Mister Pickwick, em honra a Dickens, à fêmea dei o nome de Capitu, em honra a Machado de Assis, os olhos não eram de ressaca e o caráter não era dúbio, doçura de olhos, fidelidade total ao companheiro de expatriação. Durante dezenove anos Picuco e Capita foram minhas sombras, não largavam de meu pé, deitados sobre minhas chinelas quando eu estava em casa, esforçando-se para acompanhar-me os passos se eu saía à rua, morriam de tristeza quando viajávamos. Por mais fizéssemos, Zélia e eu, para esconder deles os planos de embarque, eles os pressentiam, envolviam-se em tristeza. A gente da casa nos contava que dias antes de nossa chegada despiam-se da desolação, voltavam à alegria, adivinhavam que em breve estaríamos de retorno. Amigos mais leais, mais devotados, onde encontrá-los?

Carybé, possuidor de uma cadela de raça visla, da Morávia, esgalga e premiada, morria de inveja, dizia horrores de meus britânicos, jurava pela tcheca. Nas ilustrações para O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, reproduziu sua cadela e nossos cães, a cadela uma princesa de olhos azuis, os pugs um horror, a inveja conduz ao desatino. Não contente pintou um quadro, uma aquarela, retratando Pickwick e Capitu, dragões da idade das cavernas, monstros, não contente escreveu embaixo um manifesto contra eles, mistura de morcego, torresmo e telefone, a inveja degrada o caráter.

Capitu morreu logo após cumprir dezenove anos de Brasil, perdera a classe britânica, virará baiana, rebolava-se ao andar Mister Pickwick durou uns meses mais, permaneceu mister, lorde inglês até a morte. Teve descendência numerosa e ilustre, filhos e netos seu foram campeões, Zélia barganhou um deles contra óleo de Di Cavalcanti, o pintor deu o pug de presente de aniversário à Beril, a esposa inglesa, uma lady. No fim da vida, Picuco, cego e surdo movia o rabo de contentamento quando eu lhe cocava as costas, sabia-me junto a ele: glutão, conservava o prazer da comida, pretexto que eu usava para não mandar sacrificá-lo como me aconselhavam. De viagem quando ele morreu, fui poupado de assistir seu fim. Sonho com ele e Capitu noites seguidas: estão deitados sobre minhas chinelas: Picuco arranha-me as pernas pedindo colo, aconchega-se a mim na cadeira de papai, dorme, ronca forte.

Lalu era fanática por gatos, teve sempre um bichano a seu lado, eu o sou até hoje, gato é meu animal preferido, tivemos alguns, Zélia e eu, memórias sagradas em nosso afeto. Sacha, mestiça de persa e siamês, de caráter indomável, de cio tremendo, emprenhou jovem, na hora de parir, tarde da noite, subiu na cama, acomodou-se sobre a barriga de Zélia, não houve como retirá-la. Zélia terminou por cobrir barriga e cama com jornais e plástico, Sacha desovou oito gatinhos. Dedicava à Zélia amor exclusivo, feito de devoção e de ciúme, acompanhava-a pela casa como se fosse um cão, Zélia a punha no colo, conversava com ela, fazia-lhe perguntas indiscretas sobre namorados, sequiosa malta de gatos a cortejá-la, Sacha respondia com miados diversos, Zélia domina o idioma dos felinos. O pai de Sacha, persa agigantado, belíssimo, atendia pelo nome de Dona Flor, o documento de pedigree afirmara-o de sexo feminino. Ao revelar-se macho e garanhão, Zuca, o jardineiro, passou a tratá-lo por dom Floro. A mãe foi Gabriela, siamesa viúva de Nacib, um de meus amigos mais fiéis.

Nacib era-me tão devoto quanto Sacha o foi de Zélia, as horas que concedia ao convívio com os humanos guardava-as todas para mim. Na ocasião eu trabalhava no romance de dona Flor, escrevia na varanda da casa do Rio Vermelho, a máquina e as folhas de papel em cima da mesa desmontável, Nacib, ao ver-me ali sentado, saltava sobre a mesa, deitava-se em cima dos originais, assistia-me na escrita, os olhos semicerrados, ronronando. Se o telefone chamava e eu ia atender ele abria os olhos, esperava a ver se eu voltaria, se me fosse embora também ele se ia, dava por finda a tarefa do romance. Morreu engasgado com uma espinha de peixe, por mais bem alimentado não deixava de fuçar as latas de lixo da vizinhança.

Sacha viveu cerca de vinte anos, para um felino idade de Matusalém, tinha uma caterva de amantes que a seguiam apaixonados, ela os tratava na unhada, era de caráter violento. Certa feita trouxemos da Inglaterra um casal de gatos da ilha de Man, andam aos saltos como coelhos, estávamos assanhados com os novos habitantes da casa, dedicávamos-lhes tempo e cuidados, Sacha se envenenava de ciúmes vendo Zélia cuidar dos estrangeiros com solicitude maternal Após acarinhá-lo, Zélia depôs o macho no chão, ao lado da piscina, Sacha em crise saltou sobre ele, com os dentes partiu-lhe a espinha dorsal, deixou-o morto, olhou para Zélia, miou alto, fugiu para o telhado. Menos de vinte e quatro horas depois do primeiro assassinato cometeu o segundo, matou a fêmea. Eu tinha medo que, com ciúmes de Zélia, me atacasse, mas pelo visto concedia-me alguns direitos.

Fomos possuidores de duas seriemas mansas que atendiam a nosso chamado, uma no sítio em São João de Meriti, o Peji de Oxóssi, a outra na casa do Rio Vermelho, Zélia a chamava de Siri e ela a acompanhava no passeio entre as árvores. Durante anos um sapo-cururu habitou no jardim onde havia um tanque, sua moradia. Vinha à varanda nos visitar, Zélia coçava-lhe as costas, ele inchava, duplicava de volume.

No Peji de Oxóssi dedicávamo-nos à criação de aves domésticas, numerosa e variada, sobretudo antieconômica, criávamos para nossa diversão, custava-nos dinheiro, enchia-nos o tempo, era uma festa. A cadela Ventania, boxer estabanada e terna, adorava permanecer na sala, no desejo de mantê-la limpa e em ordem Zélia proibia a entrada da cadela, ela furava o bloqueio, escondia o corpanzil atrás de minhas costas no sofá. Quando deixamos o sítio e fomos para a Europa, deu-se à tristeza, suicida passou a recusar o de-comer, morreu de saudade, Ventania.

Havia um casal de marrecos de Rouen, lindos, um era de Zélia, outro meu, os Irmãos Karamazov, tarados sexuais amavam as patuassus bem maiores do que eles. Sempre juntos, inseparáveis, quando viam pata dando sopa atacavam, entre os dois a sujeitavam, enquanto um a mantinha parada, o outro mandava brasa. Não sei bem por que motivo o meu era sempre o primeiro, o que deixava Zélia enraivecida, humilhada.

Hugo del Carril, tendo de viajar, pediu-nos para guardar por uns dias o pássaro sofre, ele o adquirira em Copacabana, pagara caro, valia os pesos despendidos, era belo e manso, vivia solto, pousava em meu dedo, na cabeça de Neruda, beliscava a mão de Simone de Beauvoir, acompanhava a música de João Gilberto. Voava janela afora em passeios longos pelo céu de Copacabana, voltava sempre, dormia na cantoneira plantada de crotons e de antúrios. Meses passados Hugo mandou um portador buscá-lo, já o corrupião se fizera nosso, não o devolvemos: fugira, menti e lastimei. Mudou-se conosco para a Bahia, tinha viveiro seu deporta aberta, assistiu o jardim crescer em floresta tropical, viveu mais de vinte anos, assobiava a bossa nova.

Papagaio verde, vermelho e amarelo, Floro habitou em minha companhia por mais de trinta anos, era fêmea sem dúvida pois me amava de amor profundo e possessivo, tinha raiva das damas gentis que me vinham calentar o leito. Quando Zélia mudou-se para o apartamento na Avenida São João, Floro a perseguia de peça em peça na intenção de bicá-la e expulsá-la. Andava num passo de urubu malandro, de marinheiro bêbado, mas avançava rápido, Zélia tinha-lhe medo, refugiava-se em cima das cadeiras. Floro terminou por aceitar a presença em casa de minha namorada mas nunca lhe concedeu qualquer intimidade enquanto eu podia fazer com ele, perdão — com ela — o que quisesse. Prendia-lhe o corpo na mão, enfiava-lhe a cabeça em minha boca, adorava que lhe cocasse as penas, virava de costas para que eu lhe catasse pulgas inexistentes na barriga, convivência de amantes, a nossa. Só usava a gaiola para dormir, passava o dia rodando pela casa, de dedo em dedo.

Tenho sangue de papagaio — ter sangue de papagaio é como se diz na Bahia para designar as pessoas capazes de fácil relacionamento com o pássaro nacional por excelência, herói de contos e relatos, malandro, sabichão. Possuí vários: Titio e Titia, dois papagaios da Amazônia, lindíssimos, tive uma maracanã que falava sem parar, mas meu amigo mesmo foi Floro, morreu velhíssimo (velhíssima), um ancião (uma anciã), entrevado de reumatismo. Veio para minha companhia de casa de mulheres da vida em rua de canto, o que talvez explique nossas afinidades, teve por mim xodó de mulher-dama.

Voltando da fazenda para tomar o avião em ilhéus, o coronel João Amado, ao atravessar a zona do meretrício em Pirangi, deparou com o papagaio solto na gaiola pendurada ao lado da janela na pensão de mulheres da vida. Voz fanhosa, esganiçada, vitrola a toda corda, palavrões cabeludos, modinhas pornográficas, declamava a ementa do bordel, fazia a propaganda das especialidades: Josefa chupa pica, Terezinha dá o cu. O Coronel encantou-se, eis o presente ideal para Jorge, parou a montaria, entabulou negócio, queria comprar o falastrão. A mãezinha respondeu que vender seu bicho de estimação, isso nunca, por nenhum dinheiro mas quando o Coronel puxou da carteira a nota de quinhentos, mudou de opinião: bote m ais um a em cim a dessa, leve o pobrezinho. Com o se cham a?, quis saber meu pai, a patroa respondeu que não tinha nome, as sem-vergonhas diziam-lhe buchê, m inete, sessenta-e-nove, cu-de-ferro. No Rio, Lalu deu-lhe o nome de Pioro, simples e decente.