Navegação de Cabotagem
Rio, Buenos Aires, Santiago, 1953.
Enterro
Tom o o avião para Santiago, com escala em Buenos Aires, recebo com alívio a tarefa da viagem , possibilita-m e deixar para trás a agonia de Graciliano, à beira da m orte num leito de hospital. Sou de absoluta covardia diante da m orte de am igos. No Rio vacilo entre o sofrim ento da visita ao velho Graça e a vergonha de não estar ao lado de Heloísa* na vigília atroz. Vou a Santiago botar de pé um congresso continental de cultura, decisão do Conselho Mundial da Paz, de cuj o Bureau sou m em bro.
*Heloísa, mulher de Graciliano Ramos.
Em Buenos Aires trato do assunto com os cam aradas do Partido argentino, encontro Rodolfo Ghioldi e Codovilla na últim a lona, na m aior depressão com as notícias alarm antes da saúde de Stalin: é com o se nosso pai estivesse à m orte. Depois, noite da Avenida de May o, leio no placar de um j ornal a • form ação, nem por esperada m enos trem enda, do falecim ento, fico parado, solitário, perdido, os olhos secos, o coração apertado.
No aeroporto de Santiago, Neruda, Volodia Teitelboim , Rubem Azocar, outros am igos e cam aradas, arrasados: usam gravatas negras em sinal de luto. Apenas desem barco recebo um telegram a do Rio, ordem expressa para voltar pelo prim eiro avião. Não encontro lugar nos grandes aviões, disciplinado arrisco-m e no dia seguinte num vôo via Assunção e São Paulo, viagem péssim a em velho bim otor, com tem pestade sobre o solo paraguaio. Zélia m e espera no aeroporto, com o eu im aginava fora convocado para com por a delegação do Partido ao enterro de Stalin. Apenas, naquele m eio-tem po em busca de avião, os dirigentes do pecê soviético trataram de enterrar Stalin, decerto no m edo de que ressuscitasse e outra vez assum isse as rédeas do poder. Tão depressa, não dera tem po de avisar.
Não acom panho os funerais de Stalin, levo ao cem itério o corpo de Graciliano Ram os, deram -m e a tarefa de falar à beira do túm ulo em nom e do Partido. Tento fazê-lo, as lágrim as crescem em soluços, deixo a despedida partidária a Dalcídio Jurandir*.
*Dalcídio Jurandir (1909/1979), escritor.
Durante quase vinte anos fui "insubmisso", ou seja, alguém que não cumpriu a lei do serviço militar obrigatório, deixou de se apresentar para ser incorporado às fileiras do Exército. Antimilitarista, com horror a tudo que cheira (mal) a caserna e a farda, não obedeci à chamada, desertei.
Quando eu fora convocado, Anísio Teixeira* intercedera por mim junto a um general qualquer, deram-me um ano de prazo para que de novo comparecesse e envergasse o uniforme. Terminado o prazo eu andava não sei onde, não compareci passei a insubmisso.
*Anísio Teixeira (1900/1971), educador baiano.
Situação incômoda, obrigou-me a praticar várias outras irregularidades para ir vivendo sem o documento comprobatório de estar em dia com o serviço militar.