Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 237 de 262

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Navegação de Cabotagem

Bahia, 1982.

Com Cary bé sucedeu pior: acalentava o proj eto de conhecer a Ilha de Páscoa, sonho de toda sua vida. Term inou por descobrir um vôo sem anal da Air France, levava turistas da França ao Taiti com escala de horas, quantas não sei, na Ilha de Páscoa. Inscreveram -se ele e Nancy m as, não sendo turistas — no rebanho não nos pegarão j am ais, j urava o artista —, não se suj eitariam à lim itação dos horários de excursão, interrom periam o vôo na Ilha de Páscoa, lá ficariam durante um a sem ana, no vôo seguinte prosseguiriam para o Taiti. Cary bé queria dem orar-se na visão e no exam e das esculturas, não espiar de relance com o o faz o com padre Jorge.

Desem barcaram , j unto com os turistas visitaram a ilha, viram as esculturas todas sem faltar nenhum a, exclam ações de assom bro: olalá! voilà! ça alors!, os franceses em barcaram , o avião partiu, Nancy e Cary bé ficaram em terra, eles e os nativos. Chovia a cântaros, nem hotel, nem pensão, nem quarto com banheiro a alugar, obtiveram a preço de ouro hospedagem em cabana de pescador, m ataram o tem po j ogando biriba — Nancy não se separa do baralho, ainda bem —, Cary bé tem horror, detesta qualquer j ogo de carta, odeia biriba e chuva, antiturista por excelência teve biriba e chuva a sem ana inteira.

É no que dá o preconceito contra o turism o e os turistas, preço a pagar para ser aquele intelectual retado, um porreta, preço que pagam os Zélia e eu nas Ilhas de San Blas, os com padres Nancy e Cary bé na Ilha de Páscoa.

Bahia, 1982.

Alívio

Duas preocupações assaltaram -m e naqueles dias de confraternização luso-brasileira. A prim eira referia-se à exposição de José Franco*, a segunda à conferência de Nam ora**. Haveria com pradores para as peças do artista? Haveria público para ouvir o escritor?

*Ceramista português.

**Fernando Namora, escritor português.

Sob o com ando de Manuel Telles, Santos Martins* e Nuno Lim a de Carvalho desem barca na Bahia com obj etivo de intercâm bio cultural luzidia delegação d'além -m ar, basta citar alguns nom es da literatura, das artes, do j ornalism o: Am ália Rodrigues, José Carlos de Vasconcelos, Cargaleiro, Relógio, Dorita, o Conde da Bahia Chartres de Alm eida, Am adeu Costa, folclorista de Viana do Castelo — não eram os únicos, estavam outros expoentes, vieram às carradas.

***Santos Martins, embaixador, na época Presidente da TAP.

Helena e José Franco possuem casa no Rio Verm elho, com placa de cerâm ica na porta da rua, são baianos. Zélia e eu possuím os casa e atelier em Sobreiro, som os saloios. Na Bahia José Franco usou o forno de Grace* para queim ar peças am assadas em barro brasileiro, os santos do artesão de Mafra figuram em coleções, quanto a m im j uro pelos galos, pelos porcos, pelos bois, pelas bilhas, pelas bonecas — tenho para m ais de vinte saloias na varanda e os grandes galos cantam na entrada da casa, quantas peças possuím os saídas das m ãos criadoras de m estre Franco? Perdi o núm ero.

*Grace Gradim, ceramista.

Sendo ele, porém , desconhecido na Bahia, tem o que a exposição na Galeria do Hotel Salvador Praia m esm o sendo sucesso de vernissage não o sej a de vendas. Enganei-m e, ainda bem . Meia hora depois de aberta ao público, que sobrou da sala tão num eroso foi, não havia m ais um a peça disponível, todas vendidas num piscar de olhos, José Franco teve de voltar ao forno da casa de Grace para queim ar novos santos, as encom endas se acum ularam .

Quanto à conferência de Nam ora, na Universidade, a convite de Cláudio Veiga*, m eus tem ores vinham do fato de que ela seria balizada em dia de j ogo do Brasil na Copa do Mundo da Espanha. Escritor português de público brasileiro cativo, o m ais lido depois de Ferreira de Castro, não lhe faltariam ouvintes em outra ocasião toas em dia de j ogo entre a Pátria e a União Soviética, válido para a classificação, quem deixará o pij am a e as chinelas para ir ouvir inferência sobre a m oderna literatura portuguesa? A hora do encontro de Nam ora com seus leitores não coincide com a do j ogo, Cláudio Veiga não é louco nem m uito m enos, m arcou para duas horas antes, ainda assim trem o nas bases.

**Cláudio Veiga, na época diretor do Instituto de letras da UFBA.

Respiro quando, ao chegar ao Instituto, encontro a sala repleta, todas as cadeiras ocupadas, gente de pé, m uitos j ovens, detalhe do agrado do rom ancista que com eça por autografar dezenas de livros. Nam ora fala por um a m eia hora, traça o panoram a da poesia, da ficção, do ensaio lusitanos. Seguem -se as perguntas dos leitores, m uitas e ricas de interesse. Fanático de futebol, olho as horas no relógio, tam bém as olha Cláudio, com discrição. Um j ovem se levanta, diz que tem um a série de questões a colocar, todas de interesse. Nam ora tam bém controla a hora no relógio:

— Vam os m arcar encontro em m eu hotel, lá responderei a tudo que quiser. Aqui, agora, não, pois vam os encerrar nosso encontro, está na hora de torcer pelo Brasil, por Sócrates, Falcão e Zico — sabe o tim e de m em ória, recita os nom es, ovação.

Cláudio Veiga respira aliviado, eu tam bém , o público sai em disparada. Na casa do Rio Verm elho, bebericando uísque, Nam ora assiste na televisão à vitória do Brasil, 3x1 se m e recordo bem .