Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 11 de 262

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Bahia, 1988.

Folheio o volum e, relem bro cenas de am or, Dona Flor e Vadinho, os dois na cam a, a rosa-chá e a pim enta-m alagueta, desconfiado pergunto a Fan Weixin:

— Com o traduziste as patifarias de Vadinho?

Os lábios do tradutor abrem -se num sorriso m alandro, quase brasileiro:

— Ao pé da letra.

No fim desse m esm o ano hospedam os na casa do Rio Verm elho um j ovem casal de am igos chineses. Ele é Ho-Ping, filho de Eva e Em i Siao (Siao Sam ), Eva fotógrafa alem ã, Em i um dos poetas m ais fam osos da China, foi íntim o am igo de Maiakowski*, deputado, biógrafo de Mao, durante vários anos representante da China no secretariado do Conselho Mundial da Paz, na Tchecoslováquia. Ho-Ping, dito Pupsik, nasceu em Praga, alguns m eses antes de Palom a: pais bobocas, inventávam os no Castelo dos Escritores** futuro noivado entre os dois infantes. Eva e Em i regressaram à China, gram aram dezesseis anos de prisão durante a m al denom inada Revolução Cultural, Em i saiu da cadeia m uito enferm o, logo faleceu.

*Maiakowski (1893/1930), poeta soviético.

**Castelo de Dobris, perto de Praga, onde J. A. viveu com a família de 1950 a 1952.

Ela é Ting-Li, esposa de Ho-Ping, filha de Liu Chão Shi, que foi Presidente da República Popular da China, secretário-geral do Partido Com unista, liquidado politicam ente e assassinado durante os anos infelizes do dom ínio da Banda dos Quatro — os assassinos inventaram que Liu Chão Shi m orrera num desastre de avião.

Jovem casal encantador, trocam pernas nas ruas da Bahia, adoram a cidade, o casario, a culinária, os m ercados, o povo alegre e cordial. Nos intervalos dos passeios, no j ardim da casa do Rio Verm elho, Ting Li lê Dona Flor e seus Dois Maridos em chinês e em inglês. Pergunto-lhe o que acha das duas traduções. Pensa um pouco, responde:

— Am bas são boas, gostei das duas. Em inglês a história é m ais picante, em chinês é m ais rom ântica. Para você ter um a ideia da singularidade de cada um a: em chinês Dona Flor cham a Vadinho de volta com o coração, em inglês ela o cham a com aquilo que tem debaixo das calcinhas.

— E com o se diz em chinês aquilo que ela tem debaixo das calcinhas?

Ting Li sorri, encabulada, pronuncia um a palavra, soou-m e linda, um trino de pássaro, m e esqueci, que pena.

Bahia, 1988.

Os sapos

O sapo enorm e, de cerâm ica, abandonado no j ardim da casa de Cary bé, exposto à chuva, coberto de lim o. Os donos da casa não estão, não posso perder viagem , grito por Aurélio*, transportam os o sapo para o carro. Aurélio cham a m inha atenção para detalhe precioso: o grande sapo carrega nas costas um filhote pequenino, lindo.

*Aurélio Sodré, motorista de J. A.

Colocado no parapeito do j anelão da sala de j antar, sobre os azulej os de Cary bé, as arm as de Oxóssi e as de Oxum , o sapão assum iu a presidência da confraria de sapos que se espalha nos j ardins, sob a piscina, ao lado da varanda, em cim a dos m óveis, nas estantes, em todas as partes da casa, pois o sapo é o m eu bicho. Sapos de todos os feitios, esculpidos nas m atérias m ais diversas — cerâm ica, pedra-sabão, papel-m achê, ferro, acrílico, vindos dos quatro cantos do m undo: do México, da Tailândia, da Inglaterra, do Peru, de Ouro Preto, do Cam boj a, de Portugal, da China e por aí vai. Até hoj e Cary bé não se deu conta do roubo, espero que j am ais o descubra.